A migração dos jovens evangélicos para o esoterismo. Sim, isso é bom


  Na minha vida sempre estive envolvido com o lado místico/esotérico. Fui membro por grande parte da minha infância e adolescência do movimento conhecido como “A Família Internacional”, os antigos “Meninos de Deus”. Um grupo hoje formado por missionários com atuação em todo o mundo e que no passado ficaram conhecidos por diversas polêmicas que, enquanto estive como membro, jamais presenciei ou soube existir.
  
  Apesar do foco de seus estudos ser exclusivamente a Bíblia e as chamadas “Cartas de Mo” (uma referência ao fundador da organização, David Berg), éramos também orientados a estudar sobre os movimentos esotéricos e algumas Escolas de Mistérios. A visão dos líderes era ampla, demonstravam vasto conhecimento e alguns membros (bem poucos) acreditavam que estas Escolas arquitetavam um plano de domínio mundial. Destoando desses pequenos pensamentos, conforme ia me aprofundando nos estudos individuais, me apaixonava por aquele mundo que a magia oferecia. Era ali o meu lugar e infelizmente demorei mais alguns anos até processar essa informação na minha mente.
  
  Após minha saída do grupo, ainda fiquei um bom tempo afastado de qualquer coisa que me despertasse um maior conhecimento espiritual. Contudo, ainda mantinha contato com os estudos e enquanto grande parte das pessoas dizia que “era tudo coisa do diabo”, eu não via por essa ótica. Passei então a frequentar alguns cultos evangélicos, rodando por diversas denominações pentecostais e batistas. 
  
  Jamais me senti completo dentro das igrejas. Embora fosse bem ativo nos grupos de juventude e marcasse presença em quase todos os dias, algo sempre me disse que ali não era o meu lugar. E realmente não era. Nunca foi. Faltava algo. Os mais sábios dizem que “não podemos negar aquilo que está no nosso sangue” e, nesse caso, não poderia dar as costas para a magia que acompanhou os meus antepassados familiares e de algum modo sempre me chamava. Não com um sussurro, mas com berros que fingia não ouvir. 

  Me recordo de um episódio, ocorrido em 2012, em que realizei com algumas pessoas a criação de um grupo de estudos em uma denominação e este foi encerrado por motivos desconhecidos logo após sua segunda reunião. De fato nunca escondi minhas rebeldias e sempre deixei claro que seria um questionador de qualquer conhecimento que fosse transmitido de forma tendenciosa. Mas ao que parece você não pode ter autonomia e muito menos uma interpretação própria das coisas nesses locais. Hoje falo abertamente que sim, haviam nas pautas assuntos que tratavam de conhecimentos esotéricos. Não porque pretendia influenciar alguém ao misticismo, mas porque era a forma mais viável de, em silêncio, os tornar questionadores e livres.
  
  Os jovens evangélicos, em maior parte os pertencentes aos movimentos pentecostais, muitas das vezes se encontram proibidos de fazerem tudo pelos seus líderes: beber, ouvir música que não seja evangélica, se masturbar, fazer sexo antes do casamento e até mesmo um simples contato com um exemplar de “Dogma e Ritual da Alta Magia” já é motivo para terem que passar o dia orando e se desculpando com Deus. Ah se esses adolescentes (que sempre foi o público ao qual mais tive contato nos grupos jovens, mesmo sendo bem mais velho) soubessem o quão é prejudicial essa privação de liberdade.
  
  Recentemente uma gigantesca quantidade de jovens cristãos (em especial de igrejas evangélicas) está abandonando os templos religiosos e se apegando às práticas esotéricas. Acompanhei e acompanho esse fenômeno de perto e utilizarei esse espaço para defender a visão de que, sim, isso é muito bom! É excelente, eu diria. É um novo mundo de possibilidades que se abre para eles. E se há algum de vocês lendo esse texto e passando por isso, acreditem, não recusem esse chamado. 
  
  Primeiramente: jamais gostei dos donos da verdade. Dos ditos detentores do conhecimento de Deus; uma divindade que, segundo eles, emana amor, paz e união. O que observei pelos meus longos anos em denominações evangélicas – e por favor, não entendam isso como uma generalização – é uma prática  justamente contrária às do Deus que dizem seguir.
  
  Quando sobem ao púlpito, inflam o peito, colocam o terno e descarregam os mais variados tipos de preconceitos e afirmações que valem para qualquer um naquele lugar, basta que o fiel esteja passando por um problema cotidiano e o alvo foi alcançado. O padrão de culto a ser seguido hoje em dia pelos movimentos pentecostais e neo-pentecostais parece fazer questão de ir contra tudo o que é dito na primeira carta do apóstolo Paulo aos Coríntios, no capítulo 14. Sanidade é algo que foi sugado do ambiente em questão.
  
  Cada vez mais vemos gritarias, línguas estranhas (e muitas das vezes inventadas) ditas de forma a proporcionar um fenômeno de excitação psicológica nas pessoas. Basta que se aumente o tom de voz e o combine com as palavras desconhecidas para que toda a congregação entre em uma espécie de transe. Inicia-se um falatório que não tem função alguma a não ser incomodar os visitantes. A racionalidade proposta por Paulo tanto em Coríntios quanto em Romanos é simplesmente descartada.
  
  Não é de se surpreender que aqueles que crescem em ambientes com esse padrão vão certamente desenvolver alguma espécie de fanatismo ou distúrbios psicológicos no futuro. E é justamente aí que moram os chamados de “rebeldes”. O pentecostalismo trouxe uma espécie de onda para o cristianismo que poucos conseguem entender. Gritos, teologia da prosperidade, pulinhos, danças e movimentos que demonstram um sincretismo silencioso que os “crentes” preferem esconder as raízes. Hipocrisia. Você pode rodar na sua igreja e o seu amigo não pode rodar no terreiro?! O deus deles (e grafo esse nome com minúscula propositalmente) é visto como superior a qualquer outro. Não há respeito às outras religiões.
  
  Esse movimento evangélico, que mais parece oriundo de uma aventura psicodélica envolvendo poderosas drogas, passou a gerar ainda mais problemas quando decidiu se aliar com o que o Mestre deles (sim, são também possessivos), Jesus, sempre recusou: a política. Temos hoje a dita “bancada evangélica”, que está disposta a espalhar aquilo que considera como “tradicionalismo” no país. Mais que isso, parecem querer nos impor suas crenças e afirmações pautadas em um livro que ninguém é obrigado a seguir. Inclusive nem os próprios conseguem o seguir por inteiro.
  
  Estes fatores por si só já seriam um problema digno de gerar um debate mais profundo, mas a situação da igreja evangélica pentecostal no Brasil só piora. Os movimentos conservadores (oriundos em grande parte destes templos) são os que mais crescem no Brasil. Vem deles a onda de homofobia, preconceito, machismo e intolerância à outras religiões e às diferenças. A “ordem e obediência” que essa ala da sociedade prega esbarra ironicamente nos escândalos envolvendo pastores que desviam dinheiro dos fieis, pedem senhas de cartão e criam campanhas que não têm o menor sentido visando apenas enriquecerem o próprio bolso. “Ato de fé”, dizem os lobos de terno antes de retirarem dinheiro dos trabalhadores e lucrarem às suas custas.
  
  Nunca tive a intenção de liderar rebeliões ou organizar revoltas, mas o longo tempo ouvindo isso ao abandonar as denominações me fez perceber que não perderia nada se abraçasse a causa. Logicamente que não liderando um motim contra os rígidos pastores, mas com o objetivo de apoiar, estar do lado e abraçar aqueles que estão migrando para o que sempre foi condenado pelos donos da Bíblia.
  
  Deixem os jovens livres para pensarem por conta própria. Permitam que eles vivam e experienciem o que quiserem. Que liberdade crística é essa que não permite nada àqueles que seguem Jesus? Obviamente que você, jovem, pode seguir regras e dogmas presentes na Bíblia, mas por favor, não leve tudo ao pé da letra. Não esqueçam de suas vidas e muito menos a limitem em passar 24 horas dentro de um templo achando que está se santificando. Tudo o que fazem com isso é perder tempo. Controle-se; pense sozinho; não abaixe a cabeça pra tudo e para todos.
  
  Recomendo fazerem aquilo que fui acusado de fazer por tantos anos após a minha primeira saída da igreja evangélica: Rebelem-se. Quebrem o ciclo de domínio que sofrem, estudem juntos sobre sua religião, abram a mente para novos conhecimentos e, acima de tudo, tenham consciência de todas as decisões que tomarem. Ao saírem, encontrarão um mundo gigantesco de possibilidades que sempre quis conhecer vocês. Usem-o com moderação e sejam responsáveis. Liberdade sem responsabilidade é insanidade.



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