Akai-ito e musubi em Kimi no na Wa | Resenha e reflexão



Três expressões em japonês no título do texto podem até assustar você leitor, mas eu garanto que será muito prazeroso para ti despender alguns minutos de sua vida na leitura deste escrito, a minha primeira contribuição para este lindo blog.

Este texto é uma resenha do magnífico livro/filme "Kimi no na Wa" e tendo esta obra como base, é uma reflexão sobre o "akai-ito" e o "musubi", presentes na história. Até que ponto estamos conectados com outra pessoa? Até que ponto o amor nos conecta? Até onde vamos por aqueles que amamos? Antes de tudo, vou trazer uma explicação sobre "akai-ito". "Musubi" será relacionado mais pra frente.

"Akai-Ito é uma lenda chinesa que ganhou enorme fama no Japão. Ela nos conta que ao nascermos os deuses amarram em um de nossos dedos a ponta de um fio vermelho, invisível no plano físico, enquanto que a outra ponta é amarrada na pessoa a qual o macrocosmo destinou ser o nosso par. Durante os desencontros e até que as pontas se unam, o deus lunar Yue Lao fica responsável por fazer com que tudo funcione corretamente". Assim escreveu Sancler Martins, no último texto deste blog, que pode ser lido aqui:

Akai-ito: Acalme-se, pessoa certa virá na hora certa

Este texto (link acima) foi publicado nesse blog justamente na semana que o meu exemplar do livro de "Kimi no na Wa" chegou em minhas mãos. "Kimi no na Wa" (no ocidente chamado de "your name.") é um filme de animação de enorme sucesso, disponível na Netflix. O livro, de mesmo nome, foi escrito por Makoto Shinkai, diretor do filme, e lançado quase simultaneamente à obra cinematográfica.

Aviso que, a partir daqui, o texto contém spoilers do filme/livro "Kimi no na Wa", afinal, foi a leitura do livro que me fez questionar e desenvolver a reflexão que este texto propõe.

O drama conta a história de amor de Taki e Mitsuha. Taki é um jovem estudante do ensino médio, morador de Tóquio. Mitsuha é uma jovem de uma pacata cidade do interior, chamada Itomori. Do nada Taki e Mitsuha começam a trocar de corpos. Acontece de uma hora pra outra. Taki acorda no corpo de Mitsuha e vice versa. É dito no livro que isso acontecia, mais ou menos, três vezes na semana. Eles dormiam e acordavam em corpos trocados. Dormiam novamente, acordavam no "seu corpo certo".

Quando este fenômeno começa a acontecer eles acreditam que estão sonhando, mas pela reação das pessoas ao redor, percebem que a troca de corpos de fato acontecia, e isto vai se repetindo por um tempo. Os dois começam a se ajudar, afinal, durante três dias na semana um vivia a vida do outro; criam meios de compartilharem entre si tudo o que ocorreu durante a troca e durante os dias que a troca não ocorria e, sem perceber, um se apaixona pelo outro. No entanto, as trocas param de ocorrer, tão misteriosamente quanto haviam começado.

Nesta parte da história descobrimos que Taki vive a agitada vida de um adolescente de uma cidade grande do Japão. Trabalha, estuda, tem uma vida extremamente corrida. Já Mitsuha é uma menina do interior, uma cidade mais tradicional, ou antiga, presa às suas belíssimas crenças; a jovem é sacerdotisa de um templo xintoísta. Junto com sua irmã Yotsuha e com sua avó, é responsável por dois rituais, fundamentais para o desenvolvimento da história.

Os rituais são, primeiro, os fios trançados e, segundo, o kuchikamizake. E neste ponto do texto chegamos no "musubi".

As três trançam fios, e fazem peças de fios trançados, como a fita que Mitsuha usa no cabelo. O kuchikamizake é a forma mais antiga de se fazer saquê, aquela bebida típica do Japão. Para produzir kuchikamizake mastiga-se o arroz, misturando-o na saliva e, invés de engolir, o expele em uma garrafa. Essa substância viscosa fica fermentando e vem a se tornar alcoólica.

Em "Kimi no na Wa" após Mitsuha fazer o ritual de produção do kuchikamizake, a garrafa contendo o saquê é levada por ela, sua irmã e sua avó para o altar do templo, localizado em uma espécie de jardim suspenso na floresta. Nesta cena, Taki que está no corpo da menina. A avó explica o significado de "musubi".

"Na língua antiga, o deus que protege nossas terras é chamado de Musubi. Mas essa palavra tem um significado muito mais profundo. [...]. Entrelaçar fios também é chamado de 'musubi'. A ligação entre as pessoas também. Até mesmo o fluxo do tempo é chamado de 'musubi'. Para todas essas coisas pode ser usada essa palavra. Ela é tanto o nome do deus como o seu poder. Por isso, os fios trançados que fazemos são uma obra divina e representam o próprio fluxo do tempo. [...]. Os fios vão se juntando e ganhando forma. Eles se torcem, embaraçam e, às vezes, voltam ao normal. Eles se rompem e se religam. Isso que são os fios trançados. Isso é o tempo. Isso é 'musubi'."
(Kimi no na Wa, página 65)

Através do "musubi" que as pessoas estão conectadas. Isso é fundamental para o desenvolvimento da história e é o ponto que eu quero chegar. Taki e Mitsuha estão conectado através do tempo. A história explica que há um "gap" temporal entre eles. Taki e Mitsuha estão conectados pelos fios, pelo "musubi" e pelo "akai-ito".

Mitsuha entrega a peça de fios trançados que prende seu cabelo para Taki, que a prende no pulso. Reparem na conexão intrínseca com a filosofia asiática. Há um fio conectando Taki e Mistsuha. O mesmo fio, preso no pulso dele e no cabelo dela. Isso é o 'akai-ito', exposto de uma forma diferente, mas presente na obra.

Apesar de todos os muitos problemas, eles podem até vencer a morte. Os fios os unem, o amor os une, eles vão se encontrar. Isso é o "akai-ito" e "Kimi no na Wa" brilhantemente apresenta desta forma.

Continuando em "Kimi no na Wa", após as trocas de corpos pararem de acontecer, Taki começa a procurar por Mitsuha e descobre que a cidade que a menina morava foi destruída três anos atrás por um cometa. Como as trocas de corpos ocorriam? Através do tempo. Isso é bem explicado no livro/filme. As trocas foram, para Mitsuha, três anos antes do que para Taki. Mas isso não é um problema para o amor, a alma dos dois estão conectadas através do tempo, através dos fios.

Taki vai, no "presente", com a cidade de Itomori destruída, até o altar, na floresta próxima da cidade, que não foi destruído pelo cometa. Consome o kuchikamizake feito por Mitsuha e consegue novamente trocar de corpo com a menina. É dito na história que tudo que entra no corpo também é "musubi". Por isso essa troca acontece, o "musubi" os conecta. À partir daí, Taki no corpo de Mitsuha, sabendo o que aconteceria, consegue elaborar um plano e salvar as pessoas da cidade.

"Kimi no na Wa" é uma obra lindíssima e emocionante. Percebendo o lado filosófico do "musubi" e do "akai-ito", ela se torna ainda mais sensacional. Até que ponto estamos conectados com outra pessoa? Até que ponto o amor nos conecta? Até onde vamos por aqueles que amamos? Taki e Mitsuha vão através do tempo e permanecem unidos. O amor dos dois vence e eles terminam a história juntos, vencem a morte e se reencontram.

Como uma última passada na obra de Makoto Shinkai, vale dizer que esse diretor/autor é fantástico. O filme é brilhante, a animação é bem feita, a fotografia e o design são espetaculares e estas duas últimas juntamente com a belíssima trilha sonora feita pela banda RADWIMPS, deixam o filme magnífico.

O livro é uma forma diferente de contar a história; alguns trechos ficam melhor no filme, outros no livro, os dois se complementam e os dois são maravilhosos. A edição brasileira do livro foi publicada pela Verus Editora este ano, com um trabalho gráfico de qualidade. O filme está disponível na Netflix. Ambos foram lançados em 2016 no Japão.

"Kimi no na Wa" é uma obra prima. Poucas histórias conseguiram me emocionar e me cativar da mesma forma que esta conseguiu. É um filme/livro único e fica mais maravilhoso ainda reparando nas entrelinhas.

Para terminar o texto, trazendo para a vida real: Até que ponto estamos conectados com outra pessoa? Até que ponto o amor nos conecta? Até onde vamos por aqueles que amamos? Responda essas perguntas. Taki e Mitsuha estão conectados na história e a esta história sempre permanecerá dentro de todos que a assistirem/lerem, pois é fantástica.

Mas e você? Até que ponto o amor te conecta? Até que ponto você está conectado às outras pessoas? Tô falando de conexões reais, conexões da alma, do "akai-ito" e do "musubi". Até aonde você vai por aqueles que ama? Pense sobre, responda estas perguntas, assista e re-assista (leia e re-leia) "Kimi no na Wa". Encerro este texto com uma tocante apresentação da RADWIMPS com a Orquestra Filarmônica de Tóquio, e com uma passagem escrita por Genki Kawamura, produtor do filme:

"Em um mundo como o nosso, onde existem tantos encontros, é difícil reconhecer a pessoa destinada a você. Mesmo que esse encontro aconteça, quem poderia garantir que vocês foram feitos um para o outro?"
(Kimi no na Wa, página 185).




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