Felipe Prior: O incompreendido e o perigo do feminismo branco



  "Meu nome é Felipe Antoniazzi Prior". Assim se apresentava um dos maiores personagens da história do Big Brother Brasil. Com um começo meio aos trancos e barrancos, mas sempre muito enérgico, Prior angariou uma leva gigantesca de fãs após as saídas dos amigos Hadson e Lucas do programa. Com o passar dos tempos, dividiu opiniões na internet e passou de odiado para o queridinho da edição. Seu auge nas disputas foi a vitória no paredão contra Bianca Andrade, que até então era a que supostamente possuía a maior torcida fora da casa. E é justamente a partir daí  que passaríamos a enxergar os outros lados da moeda.

  Toda a confusão causada pelo plano "teste de fidelidade" meio cego de Guilherme na banheira, levou Petrix a colocar em ação o que achavam que seria a tática de guerra contra as meninas mais queridas do público. Logicamente deu errado e o ginasta saiu logo na segunda semana, onde ao mesmo tempo chegavam na casa o Daniel "Salsicha" e a Ivy "voz de corneta". De início, o público comprou as posições que as meninas tomaram no programa, descobriram toda a trama que envolvia os meninos da casa e decidiram começar a eliminação e o apontamento de dedos.

  Hadson, o cara que contou a ideia do plano para Marcela e Gizelly, foi o primeiro pós-informação externa a ser eliminado. Na sequência, o Capitão Estaleca, Lucas Gallina, dava adeus à competição e fazia com que as meninas começassem com o discurso que as pessoas menos gostam: o de superioridade. A partir daí, sem seus fiéis companheiros, Prior contou com a aproximação e bonita amizade de Babu, que estranhamente era excluído pelas meninas da casa, cujos olhares tortos indicavam o preconceito e prepotência do grupo que passou a se denominar de "Hippie". Aqui eu abro um parênteses, pois convivi parte da minha adolescência com esses simpáticos seres e posso garantir que seletividade e hipocrisia não são suas pautas.

  Foi então que estranhamente, tirando motivos do cu, a maior parte das meninas passou a votar em Babu num ato que deixaria Hitler com inveja de tamanha tática e Felipe começou a perceber que o amigo estava sofrendo por motivos que extrapolavam o jogo. Prior chegou a chorar em uma conversa com Ivy ao perceber o quão forte a rejeição racial ao carioca estava sendo descarada e depois confessou ao amigo: "Agora sei um pouco do que sente. Ninguém aí pararia um táxi para você entrar". Prior também ia constantemente ao paredão (e se salvou de vários nas provas bate e volta), mesmo se opondo aos planos de Hadson e criticando as atitudes de Lucas; aqui, nosso querido Mago do Entretenimento sofria por estar perto dos amigos, mas não necessariamente por suas ideias. A fidelidade aos amigos e sinceridade esbanjada por Prior incomodava. Com ele não havia meia conversa, ele de fato falava o que pensava sem medo de ser feliz. O que muitas vezes, claro, era exagerado. Não há santos no BBB.

  Pense você, leitor, conviver trancafiado em uma casa, sendo excluído, tendo ido contra o plano maquiavélico traçado pelos homens da casa e querendo descobrir onde havia errado, com todas as mulheres lhe acusando de algo que você não cometeu. Prior justificadamente surtou, ficou inconformado em como elas continuavam insistindo nas mesmas pautas, sob falsos perdões e ao mesmo tempo mantinham entre si uma proteção ao racismo velado que faziam contra Babu. Ficamos de frente com a pior face do feminismo mostrado na casa, aquele que não entendeu o que é sororidade e decidiu passar a mão na cabeça de todas as baboseiras possíveis que saiam das bocas das "fadas", mas jamais poderia haver uma autocrítica, afinal de contas elas eram as donas da razão no jogo e Prior estava com o lado errado. Curiosamente, os tiros sobravam pra Babu também.

  Talvez seja necessário dizer que o feminismo não funciona com você querendo excluir os homens da sociedade e eu me acho realmente incomodado ao extremo em ter que explicar o movimento para as pessoas que ainda fazem vista grossa aos discursos racistas e declarações repugnantes de um seleto grupo de garotas brancas, de classe média, que exclui a própria amiga negra da rodinha de seres evoluídos. As meninas (e eu tiro dessa lista Thelma, Rafa e Flayslane) não entenderam o feminismo como um movimento de igualdade, se colocaram no patamar de julgadoras, a todo momento falando que "Prior melhorou" ou "Babu melhorou" enquanto elas continuavam 'as perfeitas', como a própria Marcela reforçou: "Nunca fui incoerente na minha vida." 

  Aliás, é um movimento tão prepotente e incoerente que relevava as falas machistas do Daniel, mas nunca deu uma verdadeira chance para conhecer melhor as causas sociais que Babu e Prior defendiam sem precisarem levantar uma bandeira para se promoverem. Sim, leitor, Babu dava aulas de desigualdade social, explicava as mazelas que sofre o povo negro nas comunidades e fazia isso tudo sendo atacado pelo Quarto Reich (como chamado nas redes sociais) em rede nacional; Prior, que tem sim suas falhas e fala sem parar de forma calorosa, dizia que sua obra era composta em grande parte por ex-presidiários, defendia a inclusão social, o sistema de cotas e se colocava aberto para conversarem com ele sobre suas atitudes machistas. O problema?! O jogo era perfeito para elas: um homem na posição inferior e querendo ser ensinado sobre o feminismo. O que as fadas iriam fazer? Ensinar sabiamente para ele?! Não, se agarrar nesse discurso para continuarem apontando cada vez mais e mais erros, escondendo os da "Comunidade Hippie" e fazendo a dupla Prior-Babu se sentir um lixo, enquanto elas poderiam reinar num trono branco e ladeado de ouro...ainda excluindo a amiga negra do role, isso não pode ser esquecido.

  Agora, Prior enfrenta a autora da frase "eu acho que casal que a cor combina é esteticamente agradável" no paredão. E qual a torcida em massa que vemos ser levantada para defender a fada? Sim, a comunidade branca, em geral formada por atrizes também brancas, que passam a mão na cabeça da amiga de profissão em prol de um racismo estrutural que deveria ser podado na primeira oportunidade. No vídeo em que Manu solta a imbecil frase, nossa querida Marcela percebe e ri, mas alguém avisa Manuzinha? Não. Ela não pode errar porque é perfeita. O que agrava mais ainda a situação é o fato de Manu e Gizelly terem combinado em uma festa de embebedarem Felipe Prior sob o pretexto de fazê-lo cometer um erro e se queimar com o público. Na sequência, Gizelly ainda afirma: "É hoje que tiramos ele do jogo". Imaginem o peso dessa fala na boca de um homem e tirem suas conclusões. Outras pérolas de Gizelly já foram motivo de sentirmos nojo, como quando ela desmereceu a realidade do Babu em uma comunidade, falando que ele queria descontar a violência que sofria da polícia em alguém da casa e só não podia por conta das regras. Outro exemplo do surto da vice-presidente da comunidade "Hippie" foi o fato dela desmerecer Rafa e Manu por supostamente ganharem bem, coisa que será esquecida caso Manu fique, pois poderiam pensar que Prior errou na fala.

  Defendo até o fim o entretenimento e além desse feminismo de condomínio do Leblon ser incoerente, mostra grande crescimento nas redes sociais, o que pode prejudicar as verdadeiras pautas do próprio movimento no futuro. Mulheres, vale relevar as mais graves falhas morais de suas próximas em nome de ter um cara do outro lado que estava disposto a aprender sem ser constantemente julgado e apontado? É esse o movimento original preconizado por Simone de Beauvior? Passar a mão na cabeça da amiga que comete racismo, mas apontar o dedo pro cara que distribuiu pizzas para moradores de rua e emprega ex-presidiários em seu trabalho? Seriamos todos nós filhos perfeitos e obedientes? É a prevalência dos discursos racistas que vencerá a votação na terça, com o pretexto de que Prior é a pior espécie de um machista? Que argumentos nos levam a vê-lo como esse monstro? Seus gritos, seus palavrões, sua irritabilidade com o julgamento prepotente de pessoas igualmente falhas? Se vocês dizem que o fato de Babu ser agressivo nas palavras não é motivo para o chamar de agressor, por que o fazem com Prior? Seria essa a forma encontrada pra inconscientemente despistarmos nossa mente de querer definir Babu como um agressor igual, porém a vontade de levantar uma bandeira (por mais que não a defenda realmente) é maior? A gente quer realmente passar a quarentena vendo as participantes destilando seu ódio contra Babu e continuando se sentindo superiores, tal como quando Prior estava no quarto branco? É isso o feminismo? Não, não é.

  Por outro lado, não defendo 100% Prior, mas suas falhas mais gritantes necessariamente não foram dele e sim de seus amigos, aos quais ele criticava. E querendo ou não, enquanto as meninas da casa falavam as maiores baboseiras, era o vilão machistão que levantava as bandeiras sociais ao lado do preto favelado Babu. A diferença? Ao contrário do feminismo de condomínio, Babu e Prior não as usavam para aparecer, mas sim porque entenderam o que era pra ser dito. Não gostaria de passar minha quarentena assistindo um programa morno, sem os atritos causados pelo Mago do Entretenimento. Muito longe de querer colocar uma contra outra, Prior diz o que as amigas falam pelas costas umas das outras. Não gostaria de ficar nesses dias em casa tendo que ver Manu Gavassi dormindo em festas, fingindo que está meditando, se achando a dona da razão e fazendo uma personagem que é tão fake quanto as pautas defendidas pelo Grupão. Mas se a sentença for essa, o brasileiro provavelmente terá esquecido que BBB ainda é um programa de entretenimento e cedido à era da lacração, do cancelamento, do "sou comunista" sem nunca ter lido Marx. Estamos ficando burros, não sabemos o que defendemos e quando a coerência bate na porta, nosso argumento é rotular. Felipe Prior, seu machista, não te disseram que machismo não se desconstrói em dois meses?! 


ADENDOS: 
1) Não votei no Bolsonaro e nem sou de direita, então nem venham com essa
2) Manu fez vista grossa pra todas as meninas que ofendiam Babu, não se pode criticar o Prior pelo mesmo erro de ficar calado
3) Prior apenas ouvia as conversas e não me recordo de um episódio em que ele tenha verbalizado algo tão grave como as falas de Manu, Gizelly, Marcela, Ivy e Mari
4) Atitudes e palavras pesam muito mais que o silêncio. Muito embora o silêncio não seja o correto, falar a merda é ainda muito pior
5) Manu queria testar Prior semana passada no paredão, nessa semana se sentiu ofendida porque ele disse que ela estava na Disney. Não errou, pois com exceção de Rafa e Thelma as outras meninas já se mostraram falsas umas com as outras. Amor de plástico 
6) Manu e as outras meninas ficaram agarradas em Pyong até sua eliminação, mesmo após Thiago dizer que ele não era vítima na questão do assédio. Alguém tentou explicar pra ele algo sobre feminismo ou consideraram tal ato machista? Não
7) As fadas passavam a mão na cabeça do machismo de Daniel, mas quando Babu falava algo era colocado como agressivo, violento...
8) Minha final é Rafa, Babu e Thelma, com Prior saindo antes da final ou indo pra ela, mas não vencendo. Sim, gente, não torço pelo Prior (oooh)
9) Se o Prior sair, que diga para Rafa que o preço de seu perfume é 7 mil reais. Imagine: "Deixa eu te dar um abraço, Rafa. Seu perfume é cheiroso mesmo, bem que a Gizelly tinha dito que custava 7 mil"

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