Amor ou música? As paixões de Vivaldi




  Até que ponto um homem pode negar a se entregar às suas paixões? O que limita os seus impulsos? Religião? Política? Classe social? Hoje contaremos a breve história de um dos músicos mais conceituados de todos os tempos e que talvez não tenha conseguido ser o que realmente era por conta dos rótulos ocasionados pela costumeira pressão religiosa de sua época. Após a leitura, reflita: O que de fato limita suas escolhas sentimentais?

  Vivaldi foi um violinista, compositor e músico italiano do estilo barroco tardio, nascido na Sereníssima República de Veneza (atual Itália) no dia 4 de março de 1678. Não bastando apenas todos estes títulos, Vivaldi também era um sacerdote católico, fator que culminou na sua famosa alcunha “Il Prete Rosso” (o padre ruivo – pela cor dos seus cabelos). 
  
  Vivaldi compôs em sua vida 770 obras e sua principal foi “Le Quattro Stagioni” (As Quatro Estações). Ainda jovem, foi na orquestra da Basílica de São Marcos que despontou como maior violinista de seu tempo. Ordenado padre aos 25 anos e dispensado por problemas de saúde da celebração da eucaristia aos 26, o jovem músico decidiu voltar sua vida ao ensino de violino no chamado “Ospedale della Pietà”, um convento local para jovens moças. O italiano conquistou rapidamente as jovens do local e passou a compor diversas obras para elas ao longo dos anos em que ficou por lá.
   
  Em 1705 é publicada a sua primeira grande coletânea (As Doze Sonatas), mas é somente em 1711 que ganha fama mundial ao lançar uma coletânea de 12 concertos denominada de “L’estro armonico”, que posteriormente seriam transcritos por Bach para outros instrumentos.
                
  Em 1723 Vivaldi publica seu Opus 8, “Il cimento dell´armonica e dell´iventione”, que inclui sua mais famosa composição: “Le Quattre Stagione”. Esta composição se tornou um sucesso tão grande que o filósofo iluminista Jean-Jacques Rousseau transcreveu “La Primavera” (um dos concertos da obra) para flauta solo, enquanto que o rei Louis XV da França admirava a também “Primavera” e fazia encomendas de diversas outras peças à Vivaldi.
               
  Tudo aparentemente ia bem na vida do músico italiano até que ele descobre o seu maior inimigo: o amor. Nas palavras de Shakespeare: “O amor não se vê com os olhos, mas com a mente; por isso é cego, alado, e tão potente”. Nada poderia definir melhor este momento do “Prete Rosso” a partir deste ponto do que essa frase de “Sonho de Uma Noite de Verão”. O violinista passou a ficar fora da moda musical, teve que vender seus escritos por preços baixíssimos e definitivamente se encaminhava para a pobreza, todos estes fatos foram ocasionados em parte por conta da sua suposta paixão Anna Girò, uma de suas alunas no orfanato de Veneza, a qual Vivaldi nutria um carinho diferenciado e paradoxalmente era "proibido" de amar.
               
  Sob o apoio de seu amigo, o imperador Carlos VI, Vivaldi tentou recuperar o seu antigo prestígio. Tentou sem sucesso tocar no início da temporada de ópera em Ferrara, mas fora barrado pelo arcebispo local Tommaso Ruffo. O religioso alegava que Vivaldi não oficializava missas e ainda por cima andava sempre acompanhado de mulheres, em especial Anna Girò, motivos que iam contra a crença limitante de Ruffo. O violinista ainda tentou recorrer, mas o seu fim trágico estava já declarado. Antonio Lucio Vivaldi teve que deixar a Itália e tal como um ateu que frequenta um culto evangélico ou um deísta que abraça com unhas e dentes “Assim falou Zaratustra”, Vivaldi já não mais vivia, apenas existia.
                
  Vivaldi se muda para Viena e passa seu fim de vida ao lado do seu amigo Carlos VI, que o ajudaria a se manter financeiramente. O imperador morre em 1750, pouco tempo depois da mudança do músico que, novamente perdido, volta a vender seus manuscritos para permanecer vivo até o ano de 1751, quando falece em decorrência de problemas asmáticos. A obra do italiano também teve um fim parecido e tão triste quanto o de seu compositor (pelo menos até o início do século XX). A maior parte de seus manuscritos só foram encontrados e divulgados em 1900, nas cidades de Turim e Gênova. 
                
  Diversos músicos foram influenciados pelas composições do violinista italiano. O mais notável talvez seja o alemão Johann Bach, também violinista. No campo da ciência Vivaldi também exerceu sua influência. O cientista francês Alfred Tomatis utilizou-se das músicas de Vivaldi, Bach, Mozart, Tchaikovsky e Corelli para traçar um estudo sobre a influência destas no comportamento humano. A notícia ruim é que sua tese é documentada em poucos lugares na internet e dificilmente encontrada em língua portuguesa, mas para o conhecimento não devem haver barreiras.

  E você, conseguiu responder à reflexão proposta no início do texto? Será que vale a pena negarmos a nossa natureza sentimental em prol de permanecermos fazendo aquilo que amamos de uma forma mais concreta ou podemos nos jogar sem medo nos braços traiçoeiros desse sentimento?! Afinal de contas, o que é o amor? Uma partitura inacabada ou uma bela sinfonia dúbia? O que possivelmente sabemos é que Vivaldi morreu com estes mesmos questionamentos. 

  Por hoje é só, pessoal! Abordaremos outros grandes compositores em algum momento neste blog. Fiquem de olho nas resenhas de livros que em breve serão disponibilizadas e até a próxima. 

VIVA A MÚSICA CLÁSSICA!

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