Resenha: "Walden" - O contato com a natureza e a busca da paz interior


  "Walden ou A Vida nos Bosques" foi um livro escrito pelo filósofo, poeta e transcendentalista estadunidense Henry David Thoreau, no ano de 1854. Seus escritos empolgaram diversos jovens a não apenas questionarem o ainda crescente consumismo das cidades grandes da época como também a viajarem pelo mundo, conhecerem a si mesmos através do contato livre com a natureza e, logicamente, desenvolverem a autonomia pra decidirem por si próprios o seu futuro. Sem dúvida Thoreau ainda continua atuando como um dos grandes mentores daqueles que correm em busca da tão falada paz interior. 

  Recomendo, leitor, que enquanto passeia os olhos por esta resenha, escute a música "The Woods", da banda australiana "Hollow Coves". Já que vamos falar da volta do homem ao contato com a natureza, nada melhor que uma boa música indie - com certa pegada de folk - tocando baixinho durante sua leitura.

  De ideal libertário, defensor do meio ambiente e certo conhecedor do misticismo (o autor integrava a escola literária simbolista da época), Thoreau costumava constantemente criticar a sociedade capitalista que começava a se desenhar com mais força pelos Estados Unidos de seu tempo. A explosão do movimento industrial, que acabara de começar em seu país, o fez adotar uma postura crítica, onde acreditava que tamanhas ilusões de liberdade e paz proporcionadas pelo amor incondicional ao dinheiro e o trabalho constante roubariam do homem não apenas sua capacidade de humanizar-se como também o seu pensar e sua possibilidade de transcender. Estes motivos afastariam aos poucos o homem de buscar contato com sua espiritualidade, de desenvolver uma mente sadia e sua capacidade de ser livre.

  Agora que passeamos um pouco - acredite, bem pouco - pelos pensamentos do escritor, adentraremos na sua magnum opus. Em Walden, veremos o então jovem Thoreau, ainda com seus 27 anos, optando por deixar pra trás toda a vida "confortável" que tinha com seus pais e indo morar na beira do lago Walden, localizado em Concord, Massachusetts. O jovem rapaz vai nos relatar como construiu sua pequena casinha (que existe até hoje e virou museu), como fazia para plantar seus próprios alimentos, a forma como entrava em sintonia com a natureza e até mesmo os diálogos que tinha com alguns visitantes que passavam pela sua pequena casa e deixavam grandes lições de vida. Suas conversas com um confuso lenhador e com um mendigo que estava de passagem me renderam grandes aprendizados. 

  Thoreau também vai construir ao longo do livro diversos diálogos filosóficos consigo mesmo, como sua breve explicação sobre sua busca pelo "Belo": "Todavia o gosto pelo belo cultiva-se mais ao ar livre, onde não há casa ou caseiro", além de lotar nossa leitura com pequenas reflexões que nos levam a de fato questionarmos quando foi que nos afastamos tanto dessa senhora acolhedora que chamamos de natureza. Em outro trecho, vemos a demonstração do amor do autor pelos livros que levara para os fazer companhia na sua estadia de 2 anos na beira do lago: "Os livros são a riqueza do mundo entesourada e o justo legado de gerações e nações."

  Engana-se quem pensa que a leitura de Walden é monótona, pois a cada momento Thoreau promove uma breve reflexão na nossa mente e instiga nossa alma a dialogar com nosso espírito causando em todo tempo pensamentos do tipo "cara, eu quero sentir o que esse homem sentiu". Ele não se poupa em fazer críticas veladas ao pensamento geralmente limitante das pessoas, que tendem a serem mantidos pelas constantes distrações cotidianas, e de fato alfineta muito bem as crenças de que o homem não nasceu para se aventurar na sua espiritualidade. 

  Frases como "creio que os homens se amedontram com as trevas, por mais que as bruxas estejam todas enforcadas e apesar da adoção do cristianismo e das velas" ou "é delicioso o entardecer, quando o corpo inteiro é um só sentido e aspira deleite através de cada poro", demonstram seu caráter transcendentalista, altamente espiritual (Thoreau tinha grande admiração pelo Bhagavad Gita, por exemplo) e apuram sua crítica ao medo de "se arriscar no desconhecido" que existe no ser humano, assim como os preconceitos existentes na mente de muitos religiosos que condenam essa aventura e tendem a colocar aspectos negativos em quem a abraça. Para esse medo, ele também nos deixa um belíssimo ensinamento logo após relatar as críticas que recebia dos pessimistas que o visitavam: "A conclusão é que, se um homem está vivo, há sempre perigo de que possa morrer." 'Vrau'!! Um filosófico tapa na cara de muita gente. Desculpa, me empolguei.

  A leitura de "Walden" deve ser feita de mente aberta, aceitando toda possibilidade de que um dia o homem possa se encontrar dentro de si e passar aos outros a experiência que um bom autoconhecimento proporciona. Muitos questionam sobre a solidão que Thoreau deveria sentir ao longo desses dois anos tendo apenas como companhia a natureza, clássicos livros e algumas rápidas visitas que recebia, mas é o próprio autor que nos define a "solidão" que sentia: "Considero saudável ficar só a maior parte do tempo. Estar em companhia, mesmo com a melhor delas, logo se torna enfadonho e dispersivo. Gosto de ficar sozinho...Na maioria das vezes somos mais solitários quando circulamos entre os homens do que quando permanecemos em nosso quarto.”

  Talvez seja por essa série de fatores, demonstrados nessa resenha, que esse homem influenciou jovens como Alexander Supertramp a se aventurarem pelo mundo com o mínimo necessário em busca de entenderem mais sobre tudo o que for possível. Thoreau conseguiu provar que há maneira de viver com pouco e de uma forma mais livre (só que consciente, senhor Crowley), embora seja importante mencionar que hoje vivemos em uma época, contexto e situações um tanto quanto diferentes - e arriscaria dizer que mais desafiadoras - do que em seus anos de vida. Seus escritos permanecem vivos até os dias atuais e serviram como base para estudos de outros filósofos e pacifistas como Tolstói e Gandhi, para movimentos hippies e de contracultura, e para fomentar as discussões sobre a liberdade do ser humano (em especial dos jovens) em todas as suas esferas. 

  Assim como Thoreau, defendo que a natureza é o melhor caminho para que possamos conhecer um pouco mais sobre toda a criação e harmonia que o universo possui conosco. Sem dúvida é ela que pode nos proporcionar a paz interior que tanto buscamos em meio ao caos cotidiano. Não é necessário ter medo quando podemos aplicar o conceito celta de Summerland, já que viver com medo de morrer é sobreviver. Agora, cabe a você, leitor, adentrar nessa que já virou uma das obras que mais me motivam a continuar explorando o imenso desconhecido que somos nós. Para que lhe dê um ânimo ainda maior, deixarei uma última reflexão retirada do livro sobre o que te espera nessa vasta obra: "Qual é a pílula que há de nos manter bem, serenos e satisfeitos? Não a do meu ou do teu bisavô, mas os remédios botânicos de nossa universal e vegetal bisavó, a natureza".



Abaixo seguem algumas frases retiradas de "Walden":

- "Devemos aprender a despertar novamente e a manter-se despertos, não com ajuda mecânica, mas pela infinita expectativa do amanhecer, que não nos abandona em nosso sono mais profundo."
- "De mais a mais, junto com a sabedoria aprenderemos a liberdade."
- "Tenho, por assim dizer, meus próprios sol, lua e estrelas, e um pequeno mundo só pra mim."
- "Não pode haver melancolia muito negra para quem vive em plena natureza e mantém os sentidos serenos. Para ouvidos sadios e inocentes nunca houve até hoje uma tempestade e sim a música dos ventos eólicos."
- “Digo que os estudantes não deveriam encenar a vida, ou simplesmente estudá-la, enquanto a comunidade os sustenta nessa dispendiosa brincadeira, mas seriamente vivê-la do começo ao fim."
- "Como poderiam os jovens aprenderem melhor a viver senão tentando a experiência da vida de uma vez por todas? Parece-me que isso lhes exercitaria a mente tanto quanto a matemática.”
- "Uma grande distância medeia entre a casa e o campo. Seria ótimo, quem sabe, se pudéssemos passar um pouco mais dos dias e das noites sem nenhum obstáculo entre nós e os corpos celestes."
- "O Bhagavad Gita é muito mais admirável que todas as ruínas do Oriente. Torres e templos são luxo de príncipes. A mente simples e livre não moureja sob as ordens de nenhum príncipe."

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