Entre
algumas leituras recentes e alguns pensamentos que em nada me inspiram certezas
(a não ser as que são dadas pelas constantes dúvidas que pairam sobre mim)
resolvi demonstrar algumas breves concepções da maior paixão do ser humano, a
qual vivemos flertando tanto, mas ao mesmo tempo fazemos questão de deixá-la
passar despercebida devido às várias intoxicações mentais cotidianas que recebemos. Me
refiro à nossa amante leal e recipiente de desprezo dos dogmáticos, a
liberdade.
Escrevo esse
texto enquanto bebo algumas taças de vinho, curtindo o êxtase que Bob Dylan e sua "Mr. Tambourine Man" proporciona
ao nosso dançante espírito. Não se engane, ainda permaneço sóbrio quando falo
de coisas que me exigem muito mais do que um simples pensar. Isto não é um
devaneio. Não sei se o velho Bukowski estaria orgulhoso lendo isto de onde quer
que seja, mas ultimamente não tenho ligado pra quem se orgulha ou não de mim. Desde
que eu me orgulhe está tudo certo.
A liberdade
não é algo da mais digna facilidade de ser conquistada. Colocar uma mochila nas
costas, sair pelo mundo sem rumo e curtindo a natureza é algo que faria sem
pensar duas vezes. Com certeza você já pensou nisso. Mas uma reflexão mais
exigente me faz pensar que isso é apenas da boca pra fora. Quem deixaria
família, estudos, colegas e tudo pra trás em troca dessa bela dama que nos
chama pra cama todo dia? Tem horas que a coragem e a vontade de voar devem ser
mais fortes que as correntes e o medo de viver dentro de um poema de Cruz e
Souza, em um “cárcere” infinito e cíclico.
Em Walden,
leitura a qual tenho cultuado como a bíblia do aventureiro solitário - e que
tranquilamente poderia ter sido escrita por um Alexander Supertramp da vida -
Henry Thoreau vai nos deixar o mais belo ensinamento para aquele que de fato
procura se desprender dessa vida monótona de “não posso”: “Se de alguma coisa
me arrependo, é provável que seja do meu bom comportamento”. Ser o bonzinho nem
sempre é algo sábio, já que tem algo oposto dentro de nós e estes lados sempre
estarão em conflito constante. Portanto, pra haver liberdade não é necessário
que se seja certinho, apenas consciente.
Podemos
ficar debatendo o otimismo de Leibniz ou irmos ao extremo do niilismo, mas
particularmente convivo muito bem com a ideia de que ao mesmo tempo que nada
faz sentido, ainda assim vivemos no melhor dos mundos possíveis. Não falo de
mundo englobando todos, mas o meu próprio. Não me resta hesitação em dizer que
pra transformarmos o nosso mundo em “melhor possível” seja necessário permitir
que nenhuma peça se encaixe no quebra-cabeça da vida. Mas o que dá gosto por
essa longa jornada é justamente o que se encontra no meio dela. Não tô nem aí pra
como vou chegar no fim, o que vale mesmo é a sequência de construções e
desconstruções que vamos adquirindo pela liberdade, ainda que parcial, que
temos.
Agora,
sozinho no quarto, se inicia “Knockin’ On Heaven's Door” e isso me permite
enxergar como é lindo o universo. Cooperando pra dizer que nossa vida é
exatamente como a letra desta música, ou seja, um simples distintivo, em grande
parte criado por regras, falso moralismo e falsas sensações de poder. Somente
quando tiramos o nosso distintivo, a nossa cadeia, é que podemos alcançar a “porta
celestial”, seja ela o nirvana ou qualquer outra denominação que queira dar. Em
suma, desprenda-se dos rótulos e eleve-se como achar melhor.
Fico feliz e
em paz ao dizer que liberdade de fato não é algo que um dia iremos alcançar por
completo, mas algo como Thoreau sugere: “Gostaria, sim, que cada um se
empenhasse em descobrir e seguir seu próprio caminho, em vez do trilhado por
seu pai, sua mãe ou seu vizinho. Que o jovem construa, plante ou viaje,
contanto que não seja impedido de fazer aquilo que, segundo ele, gostaria de
fazer.”
E você? O que lhe prende nesse corpo físico
cheio de limites? Não é proibido elevar o seu espírito e muito menos colocar
uma mochila nas costas em busca da próxima leitura que fará debaixo de uma
árvore, na beira de um lago e com uma aconchegante brisa tocando seu rosto. A
vida é uma porta cheia de fechaduras; a liberdade é a única chave mestra.

Nossa, q análise interessante. Vivemos, em grande maioria, por viver. Deixamos nossas vidas no modo automático, enquanto aguardamos q as coisas simples/cotidianas sejam o suficiente para nós. É difícil manter a perspectiva de realizar nossos sonhos, se nós tornamos o próximo dia como o msm dia de ontem... Sair da zona de conforto é dureza
ResponderExcluirPois é. Sair da zona de conforto nos causa uma dor gigantesca na alma. Talvez a maior da vida. Você ter força pra desconstruir tudo que formou na sua mente e se acostumou pra começar a construir algo que é um "tiro no escuro" e precisará se adaptar é quase um ato de heroísmo.
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