Inicialmente, a ideia de postar um conto seria que cada um interpretasse
a história da sua maneira, sendo o tema algo que ficasse bem claro para o
leitor desde o seu desenvolvimento, pois vemos o Príncipe numa viagem rumo ao
autoconhecimento e descoberta de si e quanto a isso não nos restam dúvidas.
Contudo, para aqueles que acompanham o estilo das minhas postagens no
blog, esse conto desde o começo possui um significado muito mais profundo do
que aparenta. Foi um grande cansaço físico e espiritual para que ele ficasse
exatamente como deveria. Gastei um dia todo para fazê-lo, concentrado em cada
palavra que deveria usar e em cada símbolo que gostariam de manter oculto nele.
Tudo foi milimetricamente planejado para que vocês, leitores(as), pudessem
fazer múltiplas interpretações acerca de uma história aparentemente simples.
Tendo dito tudo isso, vamos então a real (e não única/absoluta) explicação do
conto “O Príncipe, o Lobo e a Luz”!
De início, vemos que o nome “Príncipe” foi feito para ser diferenciado
da grafia deste título com letra minúscula. Isto ocorre porque a ideia seria
passar uma imagem poderosa e majestosa ao personagem principal. Os seus
princípios são conhecidos pelo povo, que fazem uma espécie de idolatria ao
futuro regente, o conferindo o título de “humilde de coração e corajoso de
mente”. Aqui, qualquer semelhança com a situação política do nosso país não é
mera coincidência.
Podemos ver o lado mais humano e menos robótico do protagonista quando
ele, após cumprir as ordens do Rei, decide não ir treinar esgrima, mas fugir
pela janela do palácio rumo ao até então “amaldiçoado” Bosque dos Bosques.
Portanto, é válido percebermos aqui que provavelmente pela primeira vez na sua
vida o Príncipe quebra com suas obrigações instituídas pelo Rei e parte em rumo
ao desconhecido atrás de respostas. E é essa atitude “rebelde” que irá
proporcionar à ele a melhor coisa que já aconteceu na sua vida.
Também foi proposital o fato de não sabermos qual o tipo de respostas
que o personagem busca, pois é nessa procura pelo desconhecido que ele acaba se
conhecendo. O ensinamento que fica é que não importa o que você exatamente
busca, mas arriscar um caminho até que se chegue na resposta desejada é a
melhor opção. “A vida é feita de riscos”, já diziam nossos avós, e viver sem eles
é simplesmente existir. Uma chatice.
Ao chegar na entrada do Bosque dos Bosques, que tem esse nome para de
fato não ser um mero bosque – e também para parodiar com o próprio nome do
Príncipe, grafado em maiúscula – o jovem encontra um homem que é chamado de
louco pela população local. O nome deste homem é Meresh, um acróstico para
“Hermes”, uma referência à Hermes Trismegisto, um sábio que foi o responsável
pela criação da filosofia Hermética (ou Hermetismo). Ele está na entrada do
Bosque porque simboliza uma das principais portas de entrada para um iniciado
no esoterismo. Sendo assim, o Bosque passaria a ser o mundo esotérico e Hermes
o primeiro contato do Príncipe com esse novo mundo. Sim, aqui podemos ver a
iniciação do nosso protagonista.
Meresh então pede para que o Príncipe deixe na entrada a sua capa e a
sua espada. Isto ocorre porque estes eram objetos que conferiam orgulho ao
regente, eram impedidores do processo de autoconhecimento do Príncipe e o que o
fazia ser o que não era em essência, pois aqueles objetos serviam apenas como
um meio para os outros o reconhecerem . Nessa parte da história, o Príncipe
deixa os objetos, isto é, o seu orgulho e construção social para trás, para
somente depois adentrar no mundo esotérico rumo ao conhecimento interior. Sem
simplicidade e humildade, qualquer conhecimento tende a ser bloqueado.
O primeiro contato do Príncipe com o local é surpreendente, pois os
aldeões falavam coisas horríveis do Bosque e o personagem não via nada do que
falavam por lá. Aqui vai mais uma crítica, dessa vez direcionada aos que julgam
ou mesmo “condenam” aqueles que buscam no esoterismo ou nas artes mágicas
respostas que as mesmas pessoas que frequentam religiões mais “comuns” buscam.
Para grande parte dos religiosos, magia e esoterismo é coisa do mal, mas vemos
aqui que tudo é muito diferente do que essas pessoas dizem.
A figura do lobo, a primeira criatura mágica encontrada pelo Príncipe,
simboliza a Estrela da Manhã. No conto, vemos que um dos personagens nomeia o
animal falante de Heilel. Alguns leitores mais atentos – e que já possuem um pé
no ocultismo - conseguiram sacar a referência, pois o lobo de fato representa a
figura de Heilel Ben-Shachar, que traz o conhecimento oculto ao homem. Essa
figura oferece mais questionamentos ao personagem principal, que os aceita como
forma de adquirir a sabedoria que o lobo possui. Heilel entrega uma fruta ao
Príncipe e temos aqui a referência ao Jardim do Éden, onde a serpente entrega à
Eva um fruto oriundo da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.
O lobo diz que o menino precisa levar o fruto até a Luz que se encontra
no fim do Bosque. Isso significa que o menino simbolizaria a reconexão de todas
as forças presentes ali naquele local. O realinhamento da Estrela da Manhã com
a Figura Divina representada pela Luz. Eliminando, portanto, toda a ideia de
Bem e Mal como conceitos definidos e indo de acordo, mais uma vez, aos
princípios herméticos. O lobo ainda diz para que, caso o menino desista da
jornada, não deixe o fruto pelo chão. A interpretação correta desta parte é
que: todo conhecimento é válido. Portanto, nunca deixe de passar adiante o
conhecimento que obtém e que é autorizado a passar. A magia e o esoterismo não
são ferramentas pra serem utilizadas somente para si, mas para o bem daqueles
que o cercam e para construir um mundo melhor. Nessa parte também temos uma rápida
referência aos elementais da natureza.
Então vemos que o menino encontra uma outra figura estranha no Bosque, é
um gnomo. Brincalhões e divertidos, o da nossa história atende por nome de
“Alguém” e que mora em “Algum Lugar”. Ele funciona como um alívio cômico para a
história e tal como essas criaturas da natureza (mais especificamente da terra),
também atua como o breve orientador do Príncipe, o ensinando algumas lições a
respeito da liberdade e expansão da mente. Estes seres possuem um vasto
conhecimento oculto de seu elemento e o fato de Alguém funcionar como um
transmissor de conhecimento é apenas para fazer uma referência à etimologia da
palavra “Gnomo”, que vem de “gnosis” (conhecimento, em grego).
Chegamos então à parte de maior complexidade da história. O Príncipe
encontra com um idoso que posteriormente se apresenta como Abramelin. Abramelin
foi um antigo mago que ficou melhor conhecido por ensinar um sistema de magia à
Abraão. Seus escritos influenciaram o também mago e ocultista Aleister Crowley
e, logicamente, a Golden Dawn. Ele aparece como uma figura aparentemente
desmemoriada, que oferece constantemente chá ao Príncipe e o chama pelo nome de
Foster. A verdade é que houve uma fusão deste personagem com o autor do conto.
Os constantes esquecimentos foram piadas para satirizar meus lapsos e também
pra conferir um tom mais envelhecido à Abramelin, isto é, fazer com que de fato
ele parecesse muito mais ancião do que aparentava (afinal de contas ele ensinou
coisas para Abraão).
Além de funcionar como alívio cômico, a repetição da frase “quer chá,
Foster?” e de todas as variações dela, na verdade são dotadas de profundos
significados. Na cultura inglesa, ser convidado para tomar chá é mais que um
convite, mas um momento de intimidade, de laço criado. O chá é algo sagrado
para os ingleses. Já a palavra “Foster”, não simboliza apenas um nome, mas uma
de suas traduções que pode ser aplicada é “apadrinhado”. Sendo assim, o que
Abramelin faz a todo instante é convidar o Príncipe para ser seu aprendiz/apadrinhado.
A repetição da frase “Quer um chá, Foster?” no fim do conto também tem o mesmo
objetivo, isto é, de convidar o leitor a conhecer esse mundo mágico. Mas
acalmem-se, esse autor que vos escreve não tem a vocação necessária para
orientar ou ser o supervisor de nenhum futuro mago por aí…Ainda haha.
Por fim, temos o encontro do Príncipe com a Luz. Fica bem claro que a
Luz representa o Divino (ou, como dito no conto, El) ou ainda a iluminação
alcançada pelos esotéricos e até mesmo Kether, na figura da árvore da vida cabalística.
A Luz aparece entre duas árvores, que simbolizam tanto as colunas Boaz e Jaquim
da franco-maçonaria quanto os pilares masculino e feminino da árvore da vida da
Cabala.
Durante a conversa que o Príncipe tem com a Luz, coisas são reveladas ao
personagem. Como exemplo podemos citar que o rapaz passou a ter humildade
durante a jornada pelo Bosque e isso fica evidente quando El o coloca em seu
lugar, o tirando o peso do orgulho que jogavam nele. El também nos diz que o
“reino desconhecido” não era o reino que o Príncipe deveria governar, mas ele
próprio. Sendo assim, toda a viagem feita pelo jovem aventureiro serviu para
conhecer a si mesmo, o seu próprio reino/eu interior. Esse encontro com o seu “eu”
Verdadeiro, ou Verdadeira Vontade, tem outro nome no ocultismo, a qual algumas
linhas de magia denominam de “Sagrado Anjo Guardião”, nomenclatura retirada das
obras de Abramelin e posteriormente utilizadas por outros magos como o já
citado Aleister Crowley.
Uma outra visão simbólica é desvendada por El: os papeis de Rei e
Rainha, que até então seriam os pais do Príncipe. Na verdade, não representavam
seus pais mas sim sua mente e coração - mencionados desde o começo do conto - e
eram estes dois elementos que coordenavam toda a vida do personagem, o
impedindo de pensar e agir por conta própria e vivendo pela perspectiva que os
outros tinham dele e não pelas suas próprias ideias.
No fim do diálogo, o Príncipe passa a ser chamado de “peregrino” (devido
ao seu caminho iniciático) e finalmente alcança as respostas que necessitava
para se libertar de si mesmo. Ele entrega o fruto à El e restabelece a conexão
de forças presentes no mundo esotérico. Ao retornar para a entrada do Bosque,
Meresh deixa claro que já conhecia o local muito bem e faz um lembrete ao,
agora, “príncipe” com ‘p’ minúsculo: ele tinha um comunicado a fazer no dia 31
de outubro, uma referência ao “Dia das Bruxas”. Quando lemos que ele “colocou
sua pior roupa”, podemos ver uma mudança no estilo de vida do personagem, tal
como o fato de ter deixado sua espada e capa na entrada do Bosque após seu
retorno.
Após o discurso, a população do reino passa a visitar o local mágico sem
preconceito, porém uma pequena parte daquelas pessoas passou a encarar o
príncipe como louco. Isto é absolutamente normal, pois basta que você diga para
uma pessoa que decidiu estudar ocultismo e observar a reação dela para notar
que na maioria dos casos irão te encarar como louco. Posteriormente, no
caminho para o fim da história, temos uma menção ao fato da população “trocar a
contagem de balas pela contagem de letras”, essa é mais uma referência às
práticas da Cabala. E após tudo isso, claro que o conto não poderia se encerrar
sem um convite final ao leitor, já explicado aqui anteriormente, com a frase:
“Quer um chá, Foster?”
E você, iluminado(a), conseguiu pegar todas essas referências no conto?
Imaginou que possuía uma visão mais profunda sobre ele? Bom, agora está aí toda
a explicação. Obviamente algumas partes ficaram de fora, pois isso daria um
texto maior do que já está, mas me coloco à disposição de qualquer um que tenha
tido alguma dúvida sobre a simbologia utilizada nessa história. Para quem
acompanhou a jornada até aqui, muito obrigado! Ainda tem muita coisa chegando
por aí…

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