Houve um tempo em que, na busca
pela verdade, o Príncipe de um reino ainda pouco conhecido - e de uma terra
mais desconhecida ainda – se aventurou a procurar por respostas de
questionamentos que nem ele sabia quais eram. Ele não era qualquer príncipe, era um
Príncipe com nome bordado em ouro e tinha o título grafado em letra maiúscula.
- Olhem, lá vem o Príncipe! O Príncipe
que não é de um reino qualquer, mas o nosso Príncipe! – gritavam os moradores
do reino desconhecido.
- Ouvi dizer que este Príncipe é
o detentor de todo o conhecimento da Terra – sussurrava o aldeão para uma
pequena criança.
- É verdade, senhor? Pois eu ouvi
dizer com esses ouvidos bem atentos que o Príncipe detém não só o
conhecimento da Terra, mas também de
todo o universo – respondeu a criança com a empolgação típica de um jovem
aventureiro.
- Pois então cala-te sempre para ouvir o
que o Príncipe tens a dizer. Sempre que o nosso amado proferir palavras,
atente-se ao tom de sua voz e a sabedoria com que fala, pequenino. Eis aí a
chave para conhecer a si mesmo.
Já era tarde quando o Príncipe
passava montado em seu cavalo pelo reino desconhecido. As pessoas acenavam e
ele prontamente acenava de volta. Diziam que era humilde de coração e corajoso de
mente. Fazia tudo o que um regente deveria fazer, mas ainda assim não era um
qualquer, era o Príncipe.
Após seguir rigorosamente todas
as ordens de seu pai, o Rei, o humilde e corajoso Príncipe fora descansar. Dia
longo ele teve e seu descanso era incomum. Mentia para o seu pai e para a sua
mãe pois dizia que iria treinar esgrima, enquanto ouvia que as fadas do bosque
e os duendes da terra eram mais atrativos que qualquer obrigação do reino. E
estes moravam no Bosque dos Bosques.
Passou pela janela do quarto em
um salto só, porque havia realmente muita prontidão e convicção na vida deste
Príncipe. Pensava: “Esta noite adentrarei no Bosque dos Bosques e de lá não
sairei até que tenha respostas.”
Era certo que todos naquele reino
desconhecido tinham um grande medo do Bosque dos Bosques. Na boca dos aldeões
aquele local era amaldiçoado, era escuro, fechado e repleto de criaturas
horrendas que se escondiam da população local. Ao redor do Bosque dos Bosques
havia sempre um louco de nome Meresh, que se dizia protetor daqueles que
adentravam a livre propriedade.
Meresh, o louco, sempre ficava de
pé no mesmo lugar. Acenava para as crianças, tinha um sorriso bondoso e largo e
cultuava as estrelas como os soldados e aldeões cultuavam as armas. Ora,
tamanha ignorância tinha Meresh. Era sempre óbvio que de sabedoria não viveriam
os homens, mas de guerras. Vez ou outra por ele passava uma família diferente, da
qual sempre se seguiam diálogos similares:
- Olha, papai, é o louco de novo.
Ele está contando as estrelas do céu tal como o senhor me ensinou a contar as balas dos
rifles noite passada.
- Filha, não já lhe disse para
não encarar tal homem?! É este o amaldiçoado do Bosque. Vem dele todas as
desgraças, crises e fome passadas no nosso glorioso reino desconhecido.
Mas o Príncipe não ligava para os
comentários feitos ao Bosque. Montou no seu cavalo e foi até suas redondezas.
Estava determinado e de mente aberta pra receber o que sempre quisera:
Respostas. O Príncipe parou o seu cavalo, desceu do animal e foi então em
direção à entrada do Bosque. Meresh, que admirava as estrelas, desceu o seu
olhar em direção ao jovem rapaz. O velho sorriso largo e convidativo apareceu
no rosto do louco que não hesitou em perguntar:
- A que devo sua honra, Príncipe?
- És o louco que atendes por Meresh?
Almejo adentrar no Bosque dos Bosques. O que devo fazer?
- Ora, o Bosque é receptivo.
Podes adentrar quando quiser, porquanto precisará se despir ao entrar.
- És mesmo louco, homem?! Se
queres que me prendam por loucura de andar despido, que antes o prendam pela
loucura de me dar ordens. Ordens só recebo do Rei e Rainha.
- Oh, entendestes errado a minha
colocação, meu jovem. Precisa não se despir de tudo que tens, mas de tudo que lhe
tire a humildade do coração e a coragem da mente.
- Poderia ser mais claro, homem
louco?
- Príncipe, és o Príncipe do
reino desconhecido. Neste local não há espaço para a entrada de títulos, mas
somente daqueles que os deixam em troca da liberdade.
- Então, se busco pela liberdade
e por respostas é necessário que antes perca algo na entrada?
- Sim. Certamente. Deixe aqui a
espada, que lhe dá coragem à mente, e a sua capa, que lhe dá humildade ao
coração.
- Do que falas? Sou corajoso sem
espada e humilde sem capa. Não sou qualquer príncipe, me chamo Príncipe.
- Nem só de “Nome” viverás o
homem. Se para seu povo perdes a espada, então não há mais coragem que os
salve; se para seu povo perdes a capa, portanto humildade não lhe restará para
os salvar. És o que és pelo que é e não pelo que quer. Se nesse Bosque desejas
entrar, necessário é que perca antes de ganhar.
- Então, se deixo minha espada e
minha capa, assim então poderei adentrar?
- Nessas circunstâncias quem sou
eu pra negar? A ti pertencerá o reino, que até então tendes por desconhecido.
O jovem deixou sua capa e espada aos pés de Meresh, que prontamente saiu da frente da
passagem, dando lugar à um caminho livre para o Príncipe, que agora com alguns
poucos receios foi adentrando no local. Lá dentro, muito embora fosse noite,
não havia trevas. O Príncipe procurava pelas criaturas horrendas, mas sem
sucesso algum. Olhava para o céu questionando a razão pela qual o Bosque dos
Bosques era tão aberto aos céus e não fechado como diziam os aldeões. “Será que
entrei no Bosque errado?” se questionava o Príncipe.
De repente, quando o jovem
habitante do reino desconhecido já se encontrava um bom tempo caminhando, se
deparou com um enorme lobo prateado. Ele brilhava como se a lua o iluminasse
constantemente.
- Aí está, criatura horrenda! Se
desejas me impedir de procurar por respostas, saiba que sou humilde de coração
e corajoso de mente para enfrentá-lo e o fazer cair por terra.
- Tendes toda a sabedoria do
mundo e não reconheces o potencial no próximo? Que Príncipe és tu, que se
embrenha no desconhecido em busca dos desejos cegos da alma? – respondeu o lobo
com uma voz grave, como só os lobos da noite possuem.
- Maldição! És um animal falante?
Que tipo de legião habita em ti? Venho do palácio do reino desconhecido e estou
em busca de respostas.
- Respostas são facilmente
encontradas aqui, contudo posso lhe oferecer algo melhor, Príncipe do reino
desconhecido.
- O que poderia me oferecer,
criatura profana? Se nem uivar uivas, o que poderia conceder à um Príncipe?
- Deixou a humildade na porta,
rapaz? Se entrou aqui em busca de algo, obterá o que precisa. Não lhe
concederei respostas, mas a ti oferecerei arma maior: O questionamento.
- Mas se não respondo nem minhas
próprias perguntas, por que ousaria querer mais?
- Porque é através do
questionamento que conseguimos encontrar a chave para todas as respostas.
- Parece-me um tanto confuso.
- Se permaneceu imóvel para ouvir
um lobo falar, permanecerá então em constante movimento quando entender do que
eu falo – o lobo apontou a continuação do caminho para o Príncipe e saiu de sua
frente, oferecendo a passagem livre – Não parta, porém, sem antes decidir o que
queres. Deseja respostas ou questionamentos?
- Se habitas aqui por mais tempo
que eu e até mesmo é capaz de falar, quero ter o mesmo conhecimento que você.
Portanto, me ofereça questionamentos ao invés de respostas.
Ouvindo isso, o lobo passou por
trás de uma árvore e em um rápido movimento abocanhou uma fruta. Lentamente foi
em direção ao Príncipe e a largou no chão, bem na frente do jovem.
- Pegue e a leve até o ponto mais
distante deste Bosque. No seu final, encontrará uma forte luz e para ela a deve
entregar. Ao deixar com ela esta fruta, obterá aquilo que desejas. Contudo, se
planejar desistir de conseguir questionamentos em troca das respostas que sua
alma anseia, de nada essa fruta lhe será útil. Sendo assim, não a jogue no meio
do caminho para que seja devorada por aqueles que não a digerem, mas a ofereça
às fadas do bosque ou aos elfos do ar, às salamandras do fogo ou aos duendes da
terra. É sagrado esse fruto para que seja inutilizado.
- Quanto a ti, por onde ficarás?
- Ando vagando este mundo em
busca da minha liberdade.
- A encontrou neste Bosque?
- Posso lhe responder
negativamente, porém a minha liberdade constitui a liberdade dos outros. Devo
lhe dizer, então, que se você encontrar o que procura, então eu estarei também
livre. Agora se apresse, o Bosque é longo e cansativo.
O lobo passou novamente por trás
da árvore na qual buscou a fruta, mas não tornou a aparecer. O Príncipe, ainda
um pouco assustado, ficou procurando pelo curioso animal falante ao redor do
longo tronco. No fundo, o jovem aventureiro sabia que aquele Bosque era repleto
de mistérios, mas jamais esperaria enfrentar tamanha estranheza. O Príncipe
andou, andou e andou. Vez ou outra pensava no seu cavalo que ficara do lado de
fora e nos seus pertences deixados ao pé de Meresh. Parou um pouco, sentou no
chão e seus pensamentos visitaram as mais distantes memórias onde por vezes
eram de ordens dadas pelo Rei e Rainha do reino desconhecido. O Príncipe então
pensou em levantar, mas algo o travara ali. Ficou imóvel e quanto mais tentava
se mexer, mais seu corpo ficava pesado.
- Alguém me ajuda! É uma
paralisia do sono pela qual passo ou uma praga deste Bosque? – gritava desesperado.
Para sua surpresa, uma resposta
foi ecoada em tom sarcástico. Seguida de uma leve risadinha, alguém de algum
lugar respondeu:
- Não é praga e nem é sono. Em
parte é sagrado e em parte é profano hohoho.
Continua na parte 2!
Considerações do autor: Esse é um conto que traz profundos significados e, assim como o último texto postado por mim, me exigiu muito mais do que eu acharia. Existem inúmeras interpretações ocultas que permeiam cada figura que faz parte desta reflexiva história. Cabe ao leitor(a) encontrá-las e entender do que se tratam. A proposta inicial era a sua postagem por inteiro, porém, para uma maior reflexão do(a) leitor(a), foi decidido que ele será postado de forma fragmentada, com espaços de um dia entre uma parte e outra. Com o texto completo, sugiro que leiam e releiam para retirar dele o que melhor conseguirem. Que a mágica presente em cada palavra, e não sei se posso ousar dizer "ensinamento" desse breve conto, possa transformar algo na sua vida. Sendo assim, até a parte 2!

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