Os olhos cansados do idoso fitaram a expressão
igualmente cansada do Príncipe e com extrema calma o senhor perguntou:
- Meu jovem, faz um calor nesse dia ensolarado,
não?
O Príncipe olhou para o céu,
poderia se perder ao contar as estrelas que apareciam naquela noite e acabar
congelado com o frio que fazia naquele momento.
- Perdão, senhor, mas nos
encontramos em noite e faz um frio absurdo aqui.
- Oh, sim, sim…Claro que
faz, meu jovem. Pontos de vista. Adoro eles. Quer um chá?
- Desculpa, mas o senhor não
aparenta estar trazendo um bule e nem uma xícara aí.
- Ah, mas é claro que não.
Devo ter esquecido em casa. Eu estava te esperando, Foster!
- Foster? O senhor deve
estar me confundindo com alguém. Me chamo Príncipe. Sou humilde de coração e
corajoso de mente; habito no palácio do reino desconhecido e tenho m…
- …Mãe e pai que dão muitas
ordens. Sei exatamente quem você é. Apesar da minha idade, mantenho todas as
minhas memórias em dia. Quer um chá?
- Espera, como sabia destas
coisas? É segredo em todo o reino que me tratam com ordens em demasia. E o
senhor já disse que esqueceu o chá em casa. E eu também não me chamo Foster. E…
- A característica principal
dos que recebem muitas ordens é colocar “e” demais nas frases. ‘E isso e aquilo
e aquilo outro’. Oh, jovem, liberte-se. Fugiu pela janela do palácio e entrou
aqui como se ainda estivesse preso lá dentro. Relaxe. Sente-se um pouco e beba
um chá, Foster.
- Mas que infernos é Foster?
Já lhe disse que sou Príncipe. Se ofendes a mim, posso agora mesmo…
- …Pegar minha espada e
demonstrar que sou corajoso?! Previsível, Foster – o senhor fez um leve esforço
para se locomover, até que se apoiou em uma árvore e voltou ao seu raciocínio –
Desde que entrou no Bosque dos Bosques deixou lá fora sua espada e sua capa.
Agora só lhe peço uma coisa, habitante do reino desconhecido: Que aquilo que
deixou na porta permaneça lá.
- Mas não estou com a capa
nas costas ou a espada em punhos. Te digo que por lá ficaram de verdade.
- Em verdade, por lá ficaram
fisicamente, mas o significado delas entrou com você. Existe coragem sem espada
e humildade sem capa. Mas você teima em não encontrá-las. Posso lhe ajudar a
desvendar algumas coisas, meu jovem.
- Mas eu nem sei quem o
senhor é. Muito menos o que devo fazer pra entender a sua mente doida.
- Me chamo Abramelin. E tudo
o que precisa fazer é bem simples…Quer um chá, Foster?
- Por que insiste em
oferecer-me chá? Não é possível que seja tão desmemoriado assim.
- Pois sou, Foster. Saiba
que minha memória, apesar de falha, é boa. E se tudo que é falho funciona,
então não pode ser chamado de falho. Tudo é uma falsa impressão quando se
descobre o significado por trás das coisas.
- Tem assuntos semelhantes
aos do lobo prateado que encontrei no começo da minha jornada.
- Pois bem, então se
encontrou com Heilel?!
- Conheces o lobo falante?
- E quem não conhece. Essa
criatura é conhecida por todos e possui diversos nomes. Alguns nomes são até
peculiares demais. Ele é uma das fontes de todo o conhecimento presente nesse
Bosque. Astuto e amante eterno da liberdade. Me diga, ele lhe deu algo?
- Sim. Entregou-me o fruto
de uma árvore e pediu para que a levasse até uma Luz que encontraria no fim do
Bosque.
- Então está perto de
concluir sua jornada. Em respeito disso, não falarei absolutamente nada. Mas se
carregas o fruto do princípio ao fim deste Bosque, certamente está em ti a
essência de querer entender as coisas.
- Perdão, senhor
desmemoriado, do que falas?
- É óbvio para um senhor
como eu, que já viu de tudo no mundo, perceber cada significado oculto desta
história. Ele lhe dá o fruto no princípio, você o carrega pelo bosque e então
entrega à El; por sua vez, El lhe dá o
que pede e você sai do Bosque dos Bosques com potencial pra questionar e
responder aos que o indagam com a ignorância da mente fechada. Sugiro que siga rápido adiante,
El estará te esperando.
- Então o senhor não vai me
explicar mais nada? Disse-me que ajudaria a desvendar algumas coisas e agora
muda de ideia?
- Oh, veja só…Minha memória
me traindo de novo. Quem é mesmo você, Foster? Perdoa a minha falta de
educação, nem mesmo tive tempo em lhe oferecer um chá. Quer com açúcar ou mel?
Após a conversa com
Abramelin, o estranho e desmemoriado senhor, o Príncipe seguiu sua jornada e
agora se aproximava cada vez mais do que sempre esteve querendo encontrar.
Foi logo após passar por
entre duas árvores dispostas uma ao lado da outra que o Príncipe viu uma forte Luz surgir. Era uma Luz tão intensa que poderia produzir queimaduras, se não fosse
pela doçura e leveza que acompanhava aquela intensidade. O Príncipe caiu no
chão e ficou admirando tanta beleza que surgia daquele fenômeno. Gaguejando e
tentando se segurar em algo diante de tamanha surpresa, ele perguntou já com a
plena certeza da resposta que ouviria:
- E-e-eu encontrei? V-v-você
é El?
- Sim! - a voz doce e suave, que não poderia ser
distinguida como voz masculina ou feminina, ecoava por todo o Bosque. As
árvores pareciam se curvar perante a beleza daquela vibração e a sensação era de que todo o reino desconhecido poderia ouvir aquele som, se assim quisesse.
Finaliza na parte 4!
Finaliza na parte 4!
Considerações do autor: Pois bem, caros(as) leitores(as), estamos nos aproximando do fim desse primeiro conto postado aqui no Iluminação Cultural. Agora falta apenas uma parte para o seu desfecho. Aqui, na penúltima parte, reparamos alguns detalhes importantes para a finalização da história. O diálogo do Príncipe com um estranho senhor, que pode nos revelar grandes coisas nas entrelinhas; a revelação do nome do Lobo encontrado pelo Príncipe na primeira parte do conto e, é claro, o encontro do jovem aventureiro com a tão falada Luz. E aí, como acha que será o final desta história? Tem conseguido pegar todas as referências presentes até aqui? Como será o tão esperado diálogo do Príncipe com El? Aguardamos ansiosos pelo que vão achar da quarta e última parte. Até breve, iluminados!

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