Conto: O Príncipe, o Lobo e a Luz - Parte 3/4


  Os olhos cansados do idoso fitaram a expressão igualmente cansada do Príncipe e com extrema calma o senhor perguntou:

- Meu jovem, faz um calor nesse dia ensolarado, não? 

  O Príncipe olhou para o céu, poderia se perder ao contar as estrelas que apareciam naquela noite e acabar congelado com o frio que fazia naquele momento.

- Perdão, senhor, mas nos encontramos em noite e faz um frio absurdo aqui.

- Oh, sim, sim…Claro que faz, meu jovem. Pontos de vista. Adoro eles. Quer um chá?

- Desculpa, mas o senhor não aparenta estar trazendo um bule e nem uma xícara aí.

- Ah, mas é claro que não. Devo ter esquecido em casa. Eu estava te esperando, Foster!

- Foster? O senhor deve estar me confundindo com alguém. Me chamo Príncipe. Sou humilde de coração e corajoso de mente; habito no palácio do reino desconhecido e tenho m…

- …Mãe e pai que dão muitas ordens. Sei exatamente quem você é. Apesar da minha idade, mantenho todas as minhas memórias em dia. Quer um chá?

- Espera, como sabia destas coisas? É segredo em todo o reino que me tratam com ordens em demasia. E o senhor já disse que esqueceu o chá em casa. E eu também não me chamo Foster. E…

- A característica principal dos que recebem muitas ordens é colocar “e” demais nas frases. ‘E isso e aquilo e aquilo outro’. Oh, jovem, liberte-se. Fugiu pela janela do palácio e entrou aqui como se ainda estivesse preso lá dentro. Relaxe. Sente-se um pouco e beba um chá, Foster.

- Mas que infernos é Foster? Já lhe disse que sou Príncipe. Se ofendes a mim, posso agora mesmo…

- …Pegar minha espada e demonstrar que sou corajoso?! Previsível, Foster – o senhor fez um leve esforço para se locomover, até que se apoiou em uma árvore e voltou ao seu raciocínio – Desde que entrou no Bosque dos Bosques deixou lá fora sua espada e sua capa. Agora só lhe peço uma coisa, habitante do reino desconhecido: Que aquilo que deixou na porta permaneça lá.

- Mas não estou com a capa nas costas ou a espada em punhos. Te digo que por lá ficaram de verdade.

- Em verdade, por lá ficaram fisicamente, mas o significado delas entrou com você. Existe coragem sem espada e humildade sem capa. Mas você teima em não encontrá-las. Posso lhe ajudar a desvendar algumas coisas, meu jovem.

- Mas eu nem sei quem o senhor é. Muito menos o que devo fazer pra entender a sua mente doida.

- Me chamo Abramelin. E tudo o que precisa fazer é bem simples…Quer um chá, Foster?

- Por que insiste em oferecer-me chá? Não é possível que seja tão desmemoriado assim.

- Pois sou, Foster. Saiba que minha memória, apesar de falha, é boa. E se tudo que é falho funciona, então não pode ser chamado de falho. Tudo é uma falsa impressão quando se descobre o significado por trás das coisas.

- Tem assuntos semelhantes aos do lobo prateado que encontrei no começo da minha jornada.

- Pois bem, então se encontrou com Heilel?!

- Conheces o lobo falante?

- E quem não conhece. Essa criatura é conhecida por todos e possui diversos nomes. Alguns nomes são até peculiares demais. Ele é uma das fontes de todo o conhecimento presente nesse Bosque. Astuto e amante eterno da liberdade. Me diga, ele lhe deu algo?

- Sim. Entregou-me o fruto de uma árvore e pediu para que a levasse até uma Luz que encontraria no fim do Bosque.

- Então está perto de concluir sua jornada. Em respeito disso, não falarei absolutamente nada. Mas se carregas o fruto do princípio ao fim deste Bosque, certamente está em ti a essência de querer entender as coisas.

- Perdão, senhor desmemoriado, do que falas?

- É óbvio para um senhor como eu, que já viu de tudo no mundo, perceber cada significado oculto desta história. Ele lhe dá o fruto no princípio, você o carrega pelo bosque e então entrega à El; por sua vez, El  lhe dá o que pede e você sai do Bosque dos Bosques com potencial pra questionar e responder aos que o indagam com a ignorância da mente fechada. Sugiro que siga rápido adiante, El estará te esperando.

- Então o senhor não vai me explicar mais nada? Disse-me que ajudaria a desvendar algumas coisas e agora muda de ideia?

- Oh, veja só…Minha memória me traindo de novo. Quem é mesmo você, Foster? Perdoa a minha falta de educação, nem mesmo tive tempo em lhe oferecer um chá. Quer com açúcar ou mel?

  Após a conversa com Abramelin, o estranho e desmemoriado senhor, o Príncipe seguiu sua jornada e agora se aproximava cada vez mais do que sempre esteve querendo encontrar.

  Foi logo após passar por entre duas árvores dispostas uma ao lado da outra que o Príncipe viu uma forte Luz surgir. Era uma Luz tão intensa que poderia produzir queimaduras, se não fosse pela doçura e leveza que acompanhava aquela intensidade. O Príncipe caiu no chão e ficou admirando tanta beleza que surgia daquele fenômeno. Gaguejando e tentando se segurar em algo diante de tamanha surpresa, ele perguntou já com a plena certeza da resposta que ouviria:

- E-e-eu encontrei? V-v-você é El?

- Sim! - a voz doce e suave, que não poderia ser distinguida como voz masculina ou feminina, ecoava por todo o Bosque. As árvores pareciam se curvar perante a beleza daquela vibração e a sensação era de que todo o reino desconhecido poderia ouvir aquele som, se assim quisesse. 

Finaliza na parte 4!

Considerações do autor: Pois bem, caros(as) leitores(as), estamos nos aproximando do fim desse primeiro conto postado aqui no Iluminação Cultural. Agora falta apenas uma parte para o seu desfecho. Aqui, na penúltima parte, reparamos alguns detalhes importantes para a finalização da história. O diálogo do Príncipe com um estranho senhor, que pode nos revelar grandes coisas nas entrelinhas; a revelação do nome do Lobo encontrado pelo Príncipe na primeira parte do conto e, é claro, o encontro do jovem aventureiro com a tão falada Luz. E aí, como acha que será o final desta história? Tem conseguido pegar todas as referências presentes até aqui? Como será o tão esperado diálogo do Príncipe com El? Aguardamos ansiosos pelo que vão achar da quarta e última parte. Até breve, iluminados! 

Comentários