Conto: O Príncipe, o Lobo e a Luz - Parte 4/4



- E-e-eu encontrei? V-v-você é El?

- Sim! - a voz doce e suave, que não poderia ser distinguida como voz masculina ou feminina, ecoava por todo o Bosque. As árvores pareciam se curvar perante a beleza daquela vibração.

- T-t-trouxe o que o lobo p-p-pediu, El.

- Por que temes minha presença, nobre?

- N-n-não sei. É de ti que procede as respostas que busco?

- De mim procede as respostas e as perguntas; o mal e o bem; a luz e a escuridão; eu sou o que o liberta. Sou a gnosis da alma.

- Pois então, El, me liberte. Me revele o que tenho procurado por todo esse tempo.

- Peregrino, adentrou o Bosque dos Bosques em busca de algo que não sabia o que era. Sairá daqui com a explicação necessária aos teus semelhantes, para que não só um seja livre, mas todos, em conjunto. Aqui é a Verdade: Nunca fora grafado com letra maiúscula, mas com a grafia normal. És “príncipe”, não “Príncipe”. Também nem tampouco serás rei de reino algum.

- Como não? Sou o futuro rei do reino desconhecido. Não sou?

- De maneira alguma, peregrino. O reino desconhecido era você próprio. Você era o desconhecido para si. Você era seu reino e até então não conhecia a ti mesmo.

- Mas e meus pais? O Rei e a Rainha? Apesar das ordens, ainda são meus pais e…

- Andou pelo Bosque por conta própria e por livre escolha. Na verdade, Eu, a Luz, te digo que sua mente e coração eram aqueles que lhe davam ordens e fizeram moradia  interna tão fixa que os chamava por pais. Aquilo que deixou com Meresh eram orgulhos…Orgulhos socialmente construídos. Sem capa e espada não és mais Príncipe, mas príncipe.

- Vivi então uma mentira? Por tanto tempo estive sofrendo e a causa do sofrimento era eu mesmo?

- Sim, peregrino. Por toda a sua vida o que lhe faltou foi conhecer a si mesmo, por isso era conhecido por Príncipe e não por príncipe. Eram os outros que diziam quem você era e não você que se afirmava. Você era um status e não uma pessoa.

- Pois então, o que devo fazer?

- Foi oferecido a ti questionamentos e você os usou corretamente para obter respostas. Se assim desejar, entregue a mim o fruto dado por Heilel e retornará à porta do Bosque para que espalhe aos outros o que aprendeu aqui. A outra escolha que tens, peregrino, é ficar com o fruto e desfrutar das belezas que existem no Bosque pela eternidade.

- Desejo, portanto, voltar ao meu povo e contar o que aprendi aqui.

- Um longo desafio o encontra, peregrino. Muitos irão o julgar e dizer que estás louco, contudo permaneça firme nos ensinamentos que aqui teve e tendo aprendido tudo o que o passamos, poderá entrar e sair no Bosque a hora que desejar.

- Obrigado, El. Possuo ainda uma dúvida. Que mistério cerca Heilel, o lobo falante?

- Ele veio de mim e por tempos me recusou. Em nome da liberdade, guia os ignorantes à luz do conhecimento. Oferece questionamentos, enquanto eu ofereço também respostas. Ambos representamos princípios e então nos completamos. Em você, agora, há capacidade para questionar e responder, e isso logicamente não é o bem e o mal, mas a soma e separação dos dois. Um dia você entenderá com mais facilidade, peregrino. A hora se aproxima. Deixe o fruto comigo para que a conexão seja refeita.

  O jovem aventureiro deixou o fruto com a ainda brilhante e intensa Luz e adormeceu. Tudo escureceu e o leve corpo do peregrino tocou docemente o chão. Como se nada houvesse acontecido, ele entrou em profundo sono, acordando somente aos pés de Meresh que falava de forma bem baixa olhando para os céus:

- Câncer, leão, câncer…Oh, rapaz! Já era hora de acordar – berrou surpreso Meresh.

- Meresh! Meresh! Esse Bosque é sensacional. Você precisava ver o que tem aí dentro. Tem um lobo falante, uma voz do além…

- Correção: Voz do “Alguém” – respondeu Meresh interrompendo o jovem aventureiro.

- Então você sabia? Você sabe o que há aí dentro, não é? Não é louco como dizem…

- Eu amo ser louco, para lhe dizer a verdade. Por isso que eu tenho apreço pelos que me enxergam assim. Agora precisa se apressar, pois hoje é o dia em que faria um pronunciamento, não é?

- E que dia é hoje?

- 31 de outubro. Corra pois a hora nona se aproxima.

- Fiquei apenas um dia no Bosque? Mas pareceram semanas, talvez meses…

- O tempo é a essência de todas as coisas. Respeite ele e ele o respeitará. Não vai levar estas tralhas? – Meresh apontou para a espada e a capa.

- Não. Não fazem mais parte de mim. De certo modo, nunca fizeram.

  O jovem peregrino então se apressou. Correu até o palácio, colocou sua pior roupa e foi até a praça para discursar. Naquele dia, todo o reino ficou sabendo das histórias pelas quais aquele rapaz havia passado no Bosque. Enquanto alguns o chamavam de louco, outros o olhavam com admiração. A história nos conta que ao longo dos anos tudo mudou naquele lugar. Sem capa e sem espada, o Príncipe era apenas um príncipe e o reino desconhecido passou a ser um Reino muito conhecido. Os aldeões que viviam da guerra, agora viviam fazendo visitas ao Bosque dos Bosques e substituindo a contagem de balas pela contagem de letras. No Bosque, a festa também era constante e por todos os quatro cantos da Terra agora se podia ouvir ecoar uma voz arrastada e poderosa, como só os magos antigos possuem, e que vinha diretamente daquele conhecido Reino e ela dizia uma frase rica em significados: “QUER UM CHÁ, FOSTER?”


Considerações do autor: Ah, como é bom chegarmos ao fim de algo que escrevemos (e isso é raro na minha vida como, sei lá, "pseudo-escritor"). Finalmente alcançamos o final do nosso conto e quero agradecer aos que acompanharam toda a trajetória do nosso peregrino pelo mágico Bosque dos Bosques. Não darei grandes explicações nessa postagem, pois ainda hoje um post específico para detalhar o conto será feito. Mas fiquei curioso para saber de vocês, iluminados, o que acharam dessa aventura? Entenderam o sentido da jornada do Príncipe? Bom, se ainda resta alguma dúvida espero que seja respondida no nosso próximo post! Nos veremos em breve! 




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