- E-e-eu encontrei? V-v-você
é El?
- Sim! - a voz doce e suave, que não poderia ser
distinguida como voz masculina ou feminina, ecoava por todo o Bosque. As
árvores pareciam se curvar perante a beleza daquela vibração.
- T-t-trouxe o que o lobo p-p-pediu, El.
- Por que temes minha presença, nobre?
- N-n-não sei. É de ti que procede as respostas que
busco?
- De mim procede as respostas e as perguntas; o mal
e o bem; a luz e a escuridão; eu sou o que o liberta. Sou a gnosis da alma.
- Pois então, El, me liberte. Me revele o que tenho
procurado por todo esse tempo.
- Peregrino, adentrou o Bosque dos Bosques em busca
de algo que não sabia o que era. Sairá daqui com a explicação necessária aos
teus semelhantes, para que não só um seja livre, mas todos, em conjunto. Aqui é
a Verdade: Nunca fora grafado com letra maiúscula, mas com a
grafia normal. És “príncipe”, não “Príncipe”. Também nem tampouco serás rei de
reino algum.
- Como não? Sou o futuro rei do reino desconhecido.
Não sou?
- De maneira alguma, peregrino. O reino desconhecido
era você próprio. Você era o desconhecido para si. Você era seu reino e até então
não conhecia a ti mesmo.
- Mas e meus pais? O Rei e a Rainha? Apesar das
ordens, ainda são meus pais e…
- Andou pelo Bosque por conta própria e por livre
escolha. Na verdade, Eu, a Luz, te digo que sua mente e coração eram aqueles
que lhe davam ordens e fizeram moradia
interna tão fixa que os chamava por pais. Aquilo que deixou com Meresh
eram orgulhos…Orgulhos socialmente construídos. Sem capa e espada não és mais
Príncipe, mas príncipe.
- Vivi então uma mentira? Por tanto tempo estive
sofrendo e a causa do sofrimento era eu mesmo?
- Sim, peregrino. Por toda a sua vida o que lhe
faltou foi conhecer a si mesmo, por isso era conhecido por Príncipe e não por
príncipe. Eram os outros que diziam quem você era e não você que se afirmava.
Você era um status e não uma pessoa.
- Pois então, o que devo fazer?
- Foi oferecido a ti questionamentos e você os usou
corretamente para obter respostas. Se assim desejar, entregue a mim o fruto dado
por Heilel e retornará à porta do Bosque para que espalhe aos outros o que
aprendeu aqui. A outra escolha que tens, peregrino, é ficar com o fruto e
desfrutar das belezas que existem no Bosque pela eternidade.
- Desejo, portanto, voltar ao meu povo e contar o que
aprendi aqui.
- Um longo desafio o encontra, peregrino. Muitos
irão o julgar e dizer que estás louco, contudo permaneça firme nos ensinamentos
que aqui teve e tendo aprendido tudo o que o passamos, poderá entrar e sair no
Bosque a hora que desejar.
- Obrigado, El. Possuo ainda uma dúvida. Que
mistério cerca Heilel, o lobo falante?
- Ele veio de mim e por tempos me recusou. Em nome
da liberdade, guia os ignorantes à luz do conhecimento. Oferece
questionamentos, enquanto eu ofereço também respostas. Ambos representamos
princípios e então nos completamos. Em você, agora, há capacidade para
questionar e responder, e isso logicamente não é o bem e o mal, mas a soma e
separação dos dois. Um dia você entenderá com mais facilidade, peregrino. A
hora se aproxima. Deixe o fruto comigo para que a conexão seja refeita.
O jovem aventureiro deixou o fruto com a ainda
brilhante e intensa Luz e adormeceu. Tudo escureceu e o leve corpo do peregrino
tocou docemente o chão. Como se nada houvesse acontecido, ele entrou em profundo
sono, acordando somente aos pés de Meresh que falava de forma bem baixa olhando
para os céus:
- Câncer, leão, câncer…Oh, rapaz! Já era hora de
acordar – berrou surpreso Meresh.
- Meresh! Meresh! Esse Bosque é sensacional. Você precisava ver o que tem aí dentro. Tem um lobo falante, uma voz do além…
- Correção: Voz do “Alguém” – respondeu Meresh
interrompendo o jovem aventureiro.
- Então você sabia? Você sabe o que há aí dentro,
não é? Não é louco como dizem…
- Eu amo ser louco, para lhe dizer a verdade. Por
isso que eu tenho apreço pelos que me enxergam assim. Agora precisa se
apressar, pois hoje é o dia em que faria um pronunciamento, não é?
- E que dia é hoje?
- 31 de outubro. Corra pois a hora nona se
aproxima.
- Fiquei apenas um dia no Bosque? Mas pareceram
semanas, talvez meses…
- O tempo é a essência de todas as coisas. Respeite
ele e ele o respeitará. Não vai levar estas tralhas? – Meresh apontou para a
espada e a capa.
- Não. Não fazem mais parte de mim. De certo modo,
nunca fizeram.
O jovem peregrino então se apressou. Correu até o
palácio, colocou sua pior roupa e foi até a praça para discursar. Naquele dia,
todo o reino ficou sabendo das histórias pelas quais aquele rapaz havia passado
no Bosque. Enquanto alguns o chamavam de louco, outros o olhavam com admiração.
A história nos conta que ao longo dos anos tudo mudou naquele lugar. Sem capa e
sem espada, o Príncipe era apenas um príncipe e o reino desconhecido passou a
ser um Reino muito conhecido. Os aldeões que viviam da guerra, agora viviam
fazendo visitas ao Bosque dos Bosques e substituindo a contagem de balas pela
contagem de letras. No Bosque, a festa também era constante e por todos os
quatro cantos da Terra agora se podia ouvir ecoar uma voz arrastada e poderosa,
como só os magos antigos possuem, e que vinha diretamente daquele conhecido
Reino e ela dizia uma frase rica em significados: “QUER UM CHÁ, FOSTER?”
Considerações do autor: Ah, como é bom chegarmos ao fim de algo que escrevemos (e isso é raro na minha vida como, sei lá, "pseudo-escritor"). Finalmente alcançamos o final do nosso conto e quero agradecer aos que acompanharam toda a trajetória do nosso peregrino pelo mágico Bosque dos Bosques. Não darei grandes explicações nessa postagem, pois ainda hoje um post específico para detalhar o conto será feito. Mas fiquei curioso para saber de vocês, iluminados, o que acharam dessa aventura? Entenderam o sentido da jornada do Príncipe? Bom, se ainda resta alguma dúvida espero que seja respondida no nosso próximo post! Nos veremos em breve!

Comentários
Postar um comentário