Alguém já chegou até você e perguntou qual era a sua religião, o deixando sem respostas? Se sim, algo totalmente normal lhe aconteceu. O maior
desafio humano é constantemente querer por meios físicos provar a existência de
algo divino. São várias teorias, hipóteses, formulações e teses que se citarmos
aqui renderia-nos uma leitura de um ano.
Entendo a religião como algo positivo e ao mesmo tempo negativo, mas
espera, não as condeno e muito menos as coloco com firmeza no potinho das
coisas desagradáveis da humanidade. Até porque, em verdade, nada é mais
desagradável dentro da religião que o próprio uso dela em justificativa para a maldade
humana.
Estaria então o erro nas diversas religiões? Certamente que não.
Estaria, então, a verdade presente nelas? Sim. E também não. De modo que cada
um monta e estabelece seu próprio sistema de crenças, jamais poderemos dizer
que a “nossa religião” é a detentora da verdade universal. Tal como eu não
posso querer convencer um daltônico de que o azul obviamente não é um tom de
verde. Cada um enxerga o que consegue e o que quer.
Acredite você em Buda, Krishna, Jesus ou Osíris; em vidas cíclicas ou
finitas; na metempsicose do neo-platonismo ou na narrativa apocalíptica cristã, o
importante é que de certa forma todos possuímos uma visão acerca de Deus. Deus
é o que pra você? É um ser de barba branca sentado no trono, uma emanação
energética criadora ou é a própria natureza por si só? É o fiat lux de Gênesis, é a explosão do Big Bang ou o Ain Soph dos Cabalistas?
Para Tales de Mileto, toda a vida humana era originada da água, a physis, a progenitora. Ele foi corajoso
em desacreditar nas crenças fenícias de que o Sol, a Lua e os planetas eram
deuses e juntou seus estudos numa tese que consistia em acreditar que todas as
coisas eram uma só coisa fundamental e que, por assim dizer, estariam todas
elas cheias de deuses, mas não o eram.
Suas teorias deram espaço pouco tempo depois aos estudos de Pitágoras,
onde a defesa da harmonia como sistema organizacional do universo era a máxima.
Essa harmonia se dava na relação das perfeitas proporções matemáticas do
microcosmo com o macrocosmo, onde tudo era mensurável. E essa perfeição não
poderia ter outra natureza a não ser a divina, que poderia ser apreciada
através do ascetismo.
Perceba que desde muito antigamente existe não especificamente a
tentativa de explicar Deus no sentido que conhecemos hoje, personificado e como
um termo popular cristão, mas uma emanação cósmica geradora de tudo e todos.
Poderíamos dizer, em rápida leitura, que Deus para Tales era a água e toda a
sua criação e para Pitágoras era o casamento do universo dos números com a
música, que por sua vez gerava como produto a divina manifestação criadora.
E não se pode parar por aí, pois é de se surpreender que até mesmo os
ateus acreditam em Deus. Agora deve ter batido uma dúvida em você, leitor:
“Como assim? Ateu acredita em Deus?”. Faço duas colocações: Primeiro, em total
sonoridade eu responderia que sim, ateus acreditam em Deus. E em segundo lugar
digo que também estão corretos na afirmação de que ele não existe.
Imagino que mais uma vez o leitor se encontra confuso, mas explicarei
meu ponto de vista. A crença ateísta na descrença de uma deidade não confere
aos ateus a possibilidade de se garantirem afirmar que Deus não existe. Podem
apenas dizer que uma expressão popular, talvez vulgarizada por algumas
religiões, não é real.
Partindo daí pegamos então, por exemplo, um ateu que acredita na teoria
do Big Bang. Este está imune à figura religiosa de Deus, mas ainda assim ele
não acreditaria em um princípio criativo? Não garante cientificamente que uma
explosão cósmica gerou a vida no universo? O que é isso senão a plena
existência de uma consciência intelectual superior, tão superior que foi capaz
de originar tudo em perfeita harmonia?!
Portanto, basta que para se explicar uma existência divina tenhamos que
tirar o véu religioso de seu significado e tratar Deus como fonte da criação.
Retorno ao que disse no início do texto sobre a religião possuir dois lados,
eis aqui o seu lado negativo: O estabelecimento da contrariedade de uma
existência divina. Curiosamente um par de opostos, onde o “religare” ao mesmo tempo que tenta estabelecer a existência de um
Deus - muitas das vezes personificado - faz com que os seus adeptos categorizem
tal personificação como a única possível e concreta, fato que afasta muitos
ateus e gera atrito entre as próprias religiões em uma disputa cega pra ver
qual é o Deus verdadeiro.
Obviamente não podemos generalizar as religiões, pois muitas não tomam
para si a a posição de detentora de verdades absolutas e muito menos as tentam
impor em seus seguidores, mas podemos ainda assim tirar estas determinadas
conclusões. Pois bem, retornemos à segunda concordância que fiz, aquela acerca
dos ateus dizerem que Deus não existe.
A explicação que tenho para essa segunda colocação é simplesmente uma
banalidade: Deus não é visto, logo não existe. Veja bem, no sentido simplista
os ateus realmente possuem a razão. O que vemos de Deus é sua criação, mas não o
criador, ele próprio, e partindo deste ponto de vista exclusivamente objetivo é
inegável que Deus realmente não existe, pois haveria para isso uma exigência de
sua personificação. E como personificar algo que possui múltiplas visões?! Portanto, a visão dos ateus também é de caráter religioso. Mas/Porém/Contudo/Todavia, em sentido subjetivo e metafísico vamos utilizar o
famoso “cogito, ergo sum”.
O grande axioma aqui é: Se Descartes diz que se pensamos, existimos e
que pelo que vimos até agora fora uma inteligência de fato transcendental e
cósmica que deu origem ao universo – portanto, uma forma de pensamento - o
argumento de que Deus não existe reside apenas no campo objetivo, pois no campo
subjetivo ele não tem lugar. No mundo transcendental a ideia da existência
divina é e sempre será impossível de ser desmentida.
O resultado que obtemos é de que a frase ateísta “Deus não existe” é
puramente materialista e correta apenas no campo dos cinco sentidos e por este
motivo me coloquei a favor de sua verossimilhança, mas ela não é real. A frase é
exatamente como os nossos cinco sentidos, que não passam de maquinários
ilusórios. Não podemos confiar 100% neles, assim como não podemos admitir que
não há divindade baseando-se em resultados palpáveis, pois tal existência é
inatingível pelo tato, visão, olfato, paladar e audição.
E nem mesmo precisamos ficar em dúvida sobre a existência divina, pois
se todos cremos que o universo é inteligente, que gera vida e que tudo nele é
vivo, já admitimos inevitavelmente que Deus existe sem mesmo adentrarmos nas
diversas visões que as múltiplas religiões nos oferecem a respeito de um
Criador.
Portanto, não importa a visão que você possui de Deus e nem mesmo sua
descrença na figura popularizada dele, não há como negar que a natureza e o
universo são organismos tão complexos que, seja tanto para serem originados
quanto para se originarem, necessitem de uma inteligência muitíssimo maior para
organizar e dar sentido a tudo e a essa chamamos de Deus.
O assunto é vasto e daria um texto ainda maior, mas paro por aqui. No
tempo em que estive rodando por algumas igrejas utilizava alguns destes
argumentos aqui apresentados para convencer ateus de que eles também acreditavam
em uma expressão divina. Notava que o maior dos problemas era confundirem esta
figura altamente inteligente e complexa com a que é oferecida por algumas religiões. Enquanto alguns colegas tentavam vender para eles um Deus que era
mais um gênio da lâmpada que uma força criadora, a verdadeira resposta estava
na outra ponta dessa corda e era certamente mais fácil de ser compreendida do
que qualquer outra ideia vaga, rebatida facilmente por qualquer ateísta
minimamente pesquisador.

Comentários
Postar um comentário