Aleister Crowley foi um ocultista britânico muito influente na sociedade
do século XX. Seus escritos foram de profunda importância para outros
ocultistas de sua época e até hoje suas obras são discutidas nos círculos
esotéricos. Dentre uma de suas maiores contribuições encontra-se a polêmica “Lei
de Thelema”. Ao longo deste texto iremos esclarecer melhor (e de forma
resumida) o que ela realmente é e se está mesmo ligada ao caminho da
libertinagem ou, em alguns casos, formação dos chamados livres-pensadores, um
termo criticado por Helena Blavatsky em seus escritos teosóficos. Esperamos
desmistificar o pensamento daquele que lê este texto sobre o tema e desfazer a
Maya que possivelmente muitos estão presenciando quando ouvem a famosa “faze o
que tu queres, há de ser o todo da Lei”.
Dono de um gênio singular, de uma brilhante inteligência e um vasto
conhecimento, o mago também jogava magistralmente xadrez, era um alpinista e um
perfeito escritor. Suas ideias anti-conservadoras e repaginadas no mundo da
magia fez dele um ícone para o meio musical e social que se seguiu. Dentre os
seus influenciados encontram-se nomes como Jimmy Page (do Led Zeppelin), Alan
Moore (quadrinista autor de obras como “V de Vingança” e “Promethea”), Bruce
Dickinson (vocalista do Iron Maiden), Ozzy Osbourne (especialmente na música “Mr.
Crowley”) e até mesmo os Beatles, que o homenagearam na capa do disco Sgt. Pepper’s
Lonely Hearts Club Band. No Brasil, Raul Seixas foi o principal nome que
propagava a filosofia de Crowley.
Assim como influenciou e influencia até hoje várias gerações, certamente
Crowley também teve fontes de onde teve que beber antes de se tornar o símbolo
que é hoje. Dentre os nomes que serviram de base para ele encontra-se o do ocultista
Alphonse Louis Constant, conhecido mundialmente por seu nome em hebraico
Éliphas Lévi. O grande mago e cabalista do século XIX que abriu espaço para o
ressurgimento da magia cerimonial.
Lévi também é conhecido por suas inúmeras obras (e realmente foram
muitas), das quais podemos destacar duas grandiosas e revolucionárias: “A Chave
dos Grandes Mistérios” e “Dogma e Ritual da Alta Magia”. Até hoje o francês é
criticado equivocadamente nos círculos ocultistas e esotéricos sob a falsa
acusação de que em toda sua vida ele teria feito apenas uma evocação e caído
após a materialização da mesma. Este último fato realmente ocorreu e é relatado
no livro já citado, “Dogma e Ritual da Alta Magia”, onde Éliphas Lévi prepara
um ritual para evocar a consciência de Apolônio de Tiana juntamente do que se
supõe ser o poeta e rosa-cruz Edward Bulwer Lytton (autor do
famosíssimo romance “Zanoni”, que é repleto de referências à Ordem Rosacruz).
Fato é que após a materialização da consciência de Apolônio de Tiana, a projeção
em questão atravessou o mago francês que imediatamente caiu em profundo sono. Contudo
a evocação foi em parte um sucesso, já que ele obteve a resposta que procurara.
Em contrapartida, o ocultista supostamente teve sua personalidade alterada, demonstrando
quadros de loucura. Apesar de tudo, a acusação de que ele teria feito apenas
uma evocação é falsa já que em outro livro, “Bruxaria – Dogmas da Alta e Baixa Magia”,
Lévi relata que fez, em outra ocasião, três evocações na mesma noite e todas muito bem executadas
e com surpreendentes resultados. Isto derruba os boatos sobre sua "fraquejada" na hora do "vamos ver" e certamente fortalece o fato de que Dion Fortune deveria ter nascido e escrito seu "Autodefesa Psíquica" nesta época, vai que né...hehe.
Deixando de lado as brincadeiras, Iluminado(a) leitor(a), fique sabendo que em um futuro post falaremos
melhor da vida de Crowley, assim como também abordaremos mais a fundo o
trabalho de Éliphas Lévi (que particularmente é o ocultista que mais admiro), comentando sobre algumas de suas obras e sobre o
arquétipo que até hoje amedronta os cristãos: o Bode de Mendes, mais conhecido
como Baphomet. Uma complexa representação alquímica e elemento referencial do Arcano
XV.
Tendo essa grandiosa personalidade como uma de suas referências, Crowley
então seguiu sua carreira no meio oculto. Poderíamos falar aqui sobre as Ordens
que ele ajudou criar, sobre as polêmicas que envolveram sua vida e até mesmo as
expulsões que sofreu de diversas Escolas de Mistério ao longo de sua vida, mas
vamos nos atentar apenas ao que nos importa discutir neste texto: a polêmica
Lei de Thelema.
A história desta aclamada filosofia teve início no Egito, onde Crowley
estava de viagem com sua esposa Rose Kelly. Ele fazia algumas invocações de
elementais para distrair sua amada, o que honestamente me parece bem romântico (claro,
se certamente houvesse um vinho para acompanhar a atividade). É então que Kelly
é tomada por uma entidade que queria se comunicar precisamente com o mago
britânico. Contudo, pensando que inicialmente sua esposa estava tendo apenas um
devaneio, Crowley decidiu fazer algumas perguntas à Rose sobre a história
egípcia. Surpreendentemente, sem nunca ter tido um grande contato com o tema,
Rose respondia corretamente todas as perguntas do marido, demonstrando estar
sob uma verdadeira e forte influência espiritual.
Acredita-se que Kelly estava sob a influência de Hórus (ao melhor estilo
Helena Blavatsky e os Mahatmas) e que este deu um passo a passo para a execução
de um ritual de invocação à Crowley com a finalidade de ceder ao mago um
importante manuscrito que seria o texto-base para o anúncio do Aeon de Hórus. Ao
que se seguiu, Crowley executou o ritual e através da entidade chamada Aiwass
recebeu durante os dias 8, 9 e 10 de abril de 1904, o chamado “Liber Al vel
Legis” ou “O Livro da Lei”.
E é neste manuscrito que se fez presente a Lei de Thelema, mundialmente
conhecida pela frase: “Faze o que tu queres, há de ser o todo da Lei”. Apesar
de parecer uma declaração além da liberdade e propondo uma libertinagem, isto
é, você é livre pra fazer o que quiser mesmo que isso interfira na vida do
outro, não é bem assim que esta máxima deve ser entendida. Existe uma grande
confusão para quem não vai a fundo na história da Lei para a entender e
realmente o verdadeiro significado que deveria ser transmitido fica perdido
pela falta de interesse dos estudantes de ocultismo em dar sequência no que
Crowley queria propor.
A correta máxima da Lei de Thelema é: “Faze o que tu queres, há de ser
o todo da Lei”, ao que ela continua com o complemento “o amor é a Lei, amor sob
Vontade”. Agora sim temos a chave do enigma que pode se contrapor àqueles que
enxergam na Thelema uma filosofia irresponsável e inconsequente. Não, esta não é a
visão que Crowley desejava passar.
A grosso modo, Thelema, em grego, significa Vontade. Seu valor gemátrico
(sistema que atribui valor numérico à letras e muito utilizado pelos
cabalistas) é 93, que também é o mesmo valor atribuído à palavra Ágape (amor). Agora
tudo se torna mais compreensível. Para o ocultista britânico, cada indivíduo
possui dentro de si um “chamado”; um “propósito”; em outras palavras, um
objetivo de vida que o acompanha desde o nascimento chamado de “Verdadeira
Vontade”. Este é diferente dos desejos e quereres do ego, que são facilmente resolvidos
por envolver pequenas satisfações. A busca do homem pela concretização do seu
propósito é denominada em Thelema de “A Grande Obra”.
Portanto, Thelema não é uma filosofia em que você pode sair por aí
matando pessoas e depois se declarar um Thelemita (e acredite, já presenciei
discussões desse nível acerca do tema). A sua Verdadeira Vontade não pode atrapalhar
na do outro, não deve em maneira alguma interferir no carma de outra pessoa e
caso haja uma pulsão para desejos deste tipo no indivíduo, e que certamente não
envolvam a máxima do Amor, esta não é sua Verdadeira Vontade, mas apenas mais
um caso que Freud explica.
Esperamos que o(a) Iluminado(a) leitor(a) tenha conseguido entender o
significado da polêmica envolvendo este tema. Thelema não é libertinagem e nem
deve ser comparada a tal. É uma filosofia séria e que aqui apenas reduzimos ao
máximo para facilitar a compreensão dos(as) leitores(as). Obviamente que faltou
falarmos do encontro/conversação com o Sagrado Anjo Guardião e do "cruzamento do
abismo", temas de muita importância na Thelema e que envolvem assuntos mais
complexos como consciente/subconsciente e a Otz Chiim, a Árvore da Vida da
Cabala. Assuntos que podemos falar futuramente neste blog, mas que exige
certamente um contato maior daqueles que nos acompanham com os temas citados.
Veremos se futuramente iremos voltar neste assunto, afinal de contas sou
eu quem escreve sobre essas coisas por aqui e me aproprio agora do que o tio
Crowley deixou-nos de ensino, isso mesmo, falarei desse assunto quando tiver Vontade porque esta é a Lei haha! Em tempo, gostaria de deixar bem claro que
discordo de muitas coisas em Crowley, mas devo concordar que é inegável sua
enorme influência para os atuais místicos, esotéricos e ocultistas.
Até o próximo artigo do Iluminação Cultural. Alta pax!

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