Baphomet: Perca o medo! Não há o que temer


  Quem olha pela primeira vez se assusta. As lendas que existem sobre ele de fato colaboram para um afastamento do senso comum e a demonização de uma figura que peca pela perfeição com que foi feita e projetada somada aos preconceitos contra as práticas que quem a fez realizava. A Magia sempre foi demonizada, o misticismo sempre sofreu preconceitos, mas pra tudo há um renascimento e a ideia de textos assim é essa: trazer de volta assuntos mal resolvidos com a sociedade para que de fato entendam que o nosso mundo objetivo (sensorial) sempre nos pregará uma peça.
  
  Baphomet, ou o Bode de Mendes, é uma representação desenhada pelo ocultista francês Éliphas Lévi. Diferente do que pensam, ele não é uma entidade. A simbologia do desenho é muito mais complexa e significativa do que se pode imaginar. Lévi planejava projetar um arquétipo que demonstrasse em partes os princípios alquímicos e uma série de outros conhecimentos ocultos que são pouco perceptíveis à primeira vista.
  
  Historicamente, a lenda de uma figura andrógina com cabeça de bode surgiu na época dos Cavaleiros Templários. Havia uma crença religiosa de que os Cavaleiros de Cristo, quando passaram a enriquecer realizando a proteção dos cristãos que voltavam a fazer peregrinação em Jerusalém, adoravam uma entidade para conseguirem êxitos em suas missões. Entrava aí a contradição dos votos de pobreza que faziam com o fato de estarem conquistando um grande império e ganhando grande importância no cenário das Cruzadas. Ameaçada, a Igreja Católica então cria uma espécie de mitologia: A Ordem dos Templários estava enriquecendo porque tinham pacto com o diabo.
  
  Essa lenda desencadeou alguns fatores que até hoje permeiam as mentes que se acostumaram com essa história sem fundo de verdade. A Igreja Católica dizia que os Templários adoravam uma entidade que possuía um corpo metade humano e metade bode. Certamente retiraram esta referência da Bíblia, que condena este animal em diversas passagens como algo ruim e negativo. Contudo, era inegável que os Templários possuíam diversos segredos e foi assim que Éliphas Lévi decidiu então reviver essa mística, voltando a atenção não para a lenda católica, mas para o real significado arquetípico do conhecimento que os Templários possuíam.
  
  Agora é a hora de entendermos melhor a figura de Baphomet, que é também a representação do Arcano XV do tarô. Não se pode entender o desenho de Lévi sem dividir a imagem em partes e estudá-las separadamente, aqui farei apenas um breve resumo deixando entendido que o leitor precisa ir muito mais a fundo para compreender o Bode de Mendes. Para você que ainda não sabe se continuará a leitura, entenda que a imagem dele não deve em HIPÓTESE ALGUMA ser confundida com a utilizada pelas Igrejas Satanistas, que seguem a corrente de LaVey. Baphomet não é o diabo (seja lá qual sentido isso tenha para você, leitor) e muito menos uma representação maléfica. Atente-se que ele não é propriedade dos satanistas e que foi desenhada por um ocultista que seguia uma linha cristã. Vamos começar:


- O nome “Baphomet”: Em hebraico, aplicando a cifra Atbash de codificação cabalística, temos Shin-Vav-Pe-Yod-Aleph. Temos aqui a palavra grega “Sophia”. Gematricamente segue: 300 + 6 + 80 + 10 + 1 = 397. Agora vamos mais adiante aplicando a redução gemátrica: 3 + 9 + 7 = 19 1 + 9 = 10. Curiosamente – mas não por coincidência – o número absoluto da Cabala. O número de sephirah na Otz Chiim, a Árvore da Vida da Cabala. Podemos reduzir mais ainda e chegaremos em: 1 + 0 = 1, o número da Unidade; a aliança da razão com a fé e a ideia de Deus, segundo Éliphas Lévi.

- A cabeça de Baphomet: Ela possui características de três animais distintos e são eles: Chacal, touro e bode. O chacal é também a cabeça de Anúbis e o “Mercúrio dos Sábios”; o touro é a representação do Sal e, por fim, o bode representa o Fogo/Enxofre. Juntos, Sal, Mercúrio e Enxofre formam os três princípios que dão origem ao universo material. Em outras palavras, os três princípios da alquimia somados e também um ternário.

- O facho de luz na cabeça: Representa a iluminação. O mais alto estado de consciência e a sabedoria divina.

- O par de chifres: São as duas colunas da Árvore da Vida e qualquer outra simbologia que possa lhe parecer semelhante utilizada em escolas de mistério.

- A lua branca e a lua negra: Este par de opostos são melhores representados como sendo a lua branca o Universo Manifesto, isto é, Chesed (Misericórdia), a quarta sephirah da Árvore da Vida e a lua negra o seu oposto, ou seja, Geburah, a quinta sephirah e o rigor de Marte (Ares).

- O pentagrama na testa: Símbolo de proteção e da magia. É também Netzach (vitória), a sétima sephirah, que representa a esfera das ilusões e o oposto de Hod, a esfera do intelecto formado, solidificado. Em relação à astrologia, é a representação de Vênus. Também pode ser entendida como o Tetragrammaton e a harmonia dos quatro elementos coordenados pelo espírito.

- As palavras “Solve” e “Coagula” nos braços: A palavra “Solve”, no braço que aponta para cima, e “Coagula”, no braço que aponta para baixo, representam respectivamente a dissolução da luz astral e coagulação desta mesma luz no plano físico. Daí surge a importância da chamada “visualização” utilizada em grande escala pelos Rosacruzes. O que Éliphas quis nos dizer é que o que for mentalizado no astral, se manifestará no físico.  Solve et. Coagula é outra simbologia alquímica que traduzida soa mais ou menos como “separar e unir”.

- Os braços em posição oposta: Esta é facilmente percebida. Representa uma das Leis Herméticas: “O que está em cima é como o que está embaixo. O que está dentro é como o que está fora”. É o popular “assim na terra como no céu” e uma referência ao Arcano I do tarô, a letra Aleph do alfabeto hebraico.

- As escamas: Domínio sobre as águas ou emoções e sentimentos.

- As asas: O domínio sobre o ar.

- As patas de bode: O domínio sobre a terra, o físico, o material.

- O fogo nos chifres: O domínio sobre o elemento fogo.

- Os seios e o falo: Os seios representam a fertilidade, a maternidade. O falo é o Caduceu de Hermes (apresentado também no pantáculo do Tetragrammaton). O falo é a representação esotérica de Kundalini e das energias sexuais ativadas. A subida de Kundalini presente no Caduceu é o indicativo do desenvolvimento dos chakras. Estes elementos conferem à figura de Baphomet um caráter andrógino, mais uma vez reforçando a ação das polaridades opostas.

- Metade coberta/metade despida: O corpo não está apenas no plano material (vestido), mas também no espiritual (despida). Atente-se aos Arcanos XVIII e XVII

- Baphomet e o cubo: Repare onde o Bode de Mendes está sentado. O cubo é o plano material, físico e objetivo e a posição de Baphomet acima dele nos deixa claro uma mensagem: O domínio sobre o plano material. É também uma referência aos Arcanos III e IV do tarô.

  Se pararmos pra analisar mais ainda a figura de Baphomet não iremos parar de encontrar significados ocultos nela. Mas não poderia encerrar esse texto sem a maior das revelações que essa imagem contém. Em seu livro “A Chave dos Grandes Mistérios”, Éliphas Lévi comenta sobre a explicação do enigma da Esfinge. Sabe-se que a sabedoria egípcia era extremamente avançada para sua época e que utilizavam avançados conceitos metafísicos que só hoje, com a física quântica, nossa ciência conseguiu estudar.
  
  Portanto, negar que os egípcios possuíam um vasto conhecimento oculto é um erro gigantesco e aqui se revela um dos grandes mistérios: Baphomet é também a representação da Esfinge, ou seja, aquele que guarda os portais das iniciações onde os despreparados não podem adentrar. E por despreparados entendemos os covardes, que possuem medo de uma mera figura, que se melhor analisada esconde mais e mais segredos que talvez nem sejam revelados. Talvez até sejam, se realizarmos a evocação da consciência de Éliphas Lévi tal como o mesmo fez com a de Apolônio de Tiana. Vale o risco? Talvez não, mas com certeza o que vale é a curiosidade e estudo desse polêmico arquétipo do mundo da Magia.

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