Aparentemente
uma reação em cadeia ocorre quando entrelaçamos nossos dedos com os das algemas
auspiciosas do conhecimento. O que confere a um artista seu talento não é a
habilidade manual com que aplica as cores em tela e nem o seu domínio da escala
pentatônica, mas sim aquilo que está em sua mente.
Os registros de imagens anteriores, a memória musical,
aquela leitura que dialoga com os neurônios enquanto cada pequeno choque é dado
no hipocampo, de fato é prazeroso. Os mais incrédulos que me perdoem, mas creio
que armazenar tanta informação aleatória na mente torna o homem pouco
conhecedor de si e um imitador nato das ideias de outrem. Kant, iluminista e um
grande sintetizador de ideias, nos diz em “Crítica da Razão Pura”: “Pensamentos
sem conteúdo são vazios, intuições sem conceitos são cegas”.
O modelo de vida adotado por nós é inconsciente, ao ponto
que se pudéssemos enumerar em etapas as fases para se atingir o pleno sucesso
pessoal estaria certo de que muitos a produziriam da seguinte forma: 1 –
Dinheiro; 2 – Um bom emprego; 3 – O amor; 4 – A saúde.
Estas verdades inacabadas que nos incutiram ao longo dos
anos são, a grosso modo, a reprodução de ideias dos nossos antepassados. Haja
visto que, no geral, as pessoas enumeram assim a sua própria vida, imaginem se
ao invés de toda essa parafernalha colocássemos em apenas uma sentença o
resumo, uma síntese de tudo o que pode estar apenas dançando inutilmente diante
de nossa sagrada atenção. A liberdade, com plena convicção, não só estaria na
minha lista como também seria seu único e absoluto item.
Se um dia me fosse
proposto elaborar uma construção como essa que vos escrevo ou qualquer frase
que viesse a ser uma obrigação acadêmica, aos mestres do saber diria: “Amem.
Pois somente o amor nos liberta das correntes do ódio e opressão. Não há
liberdade maior que não possa ser contraposta às algemas que aprisionam o vosso
Eu da cega ignorância.”
Em tempo, é necessário ser dito que o homem que não se
rebela é um homem que não evolui. Por sua vez, aquele que por demasia se rebela
não passa de um eterno inconformado e a este resta apenas o umbral obscuro do
egoísmo. A sociedade quase perfeita deve ser unida em prol da liberdade, para
isso não se pode haver pensamentos distantes uns dos outros. A aproximação de
ideias é essencial, porém não pode se tornar uma regra ou regressaremos aos
primórdios romanos, governados pela fé enclausurada do que aqui chamarei de
Falsos Libertos.
Se assim for do desejo da maioria, falo em nome de nossa Madonnina di Milano, a Virgem Maria que
nos concebeu o Cristo. Ora, donos da razão, não queiram monopolizar o nome
santo de nossa fé. Se em cada esquina existisse uma religião, em cada cidade
haveria o terror preventivo da guerra. A beleza dos credos reside no fato de
existir diversas manifestações deles, espaçadamente. O erro não está em vossas
religiões, mas naqueles que tomaram para si o feito de advogado do Cristo. A
luz que concebe a nós a razão é a mesma que nos concebe a religião e através
dela podemos moldar o santo ofício de Rafael, expresso nas belas pinturas que
compõem o Retábulo Oddi.
A tríplice significância artística desta obra de nosso irmão
italiano, a quem muito aprecio, é representada pelo seu belo entendimento
metafísico perpetuada nos ventres do Vaticano: La esperanza, la caritá e la fede. Juntas, simbolizam o
entendimento religioso e dispostas lado a lado possuem um poderoso significado
aos despertos: A esperança é para o homem o desejo imanifesto da paz; a
caridade é a benevolência dos injustos aos justos e dos indignos aos dignos; a
fé é, pois, senão a ilusória subversão da razão em prol do que a ciência não
explica. Caríssimo Rafael, in cielo sei
stato ben accolto.
O que arrisco fazer é informar que possivelmente, após
todo o alarde das Luzes e da Revolução, se achegariam a Voltaire (se ainda
vivo) dizendo: “ei, ei, está indigno de pisar neste palácio”. O sarcástico
filósofo teria parado, olhado com o seu rosto de eterno brincalhão, sorrido
ironicamente e recitado sua própria obra “Cândido
ou O Otimismo”: “Deus não lhes deu nem canhão de vinte e quatro e nem
baionetas, mas eles fizeram baionetas e canhões para se destruírem”.
O peso da Revolução não é do iluminismo, mas foi de
necessidade uma guerra para estabelecer o mínimo de igualdade. A liberdade
exige seus meios, que diferente da concepção de Maquiável não devem
justificar-se. Mediante intuição, Voltaire obteve uma visão antecipada dos
fatos e relatado: “E os sofrimentos particulares
produzem o bem geral, de sorte que quanto mais existem sofrimentos particulares
mais tudo está bem". Esse é um princípio oriental, que nos conta que todo primus/criativo necessita de um finis/destrutivo e isso não pode ser
confundido com algo ruim. Reforço: de forma alguma é algo ruim.
A análise que proponho é baseada no
ateísmo pouco professo de Diderot, uma vez que vem da religiosidade (e não da
religião) as amarras que prendem o homem e o impedem de ascender à razão. A
religião como governo é o recurso usado pela religiosidade extremada para
manter os potenciais gênios em silêncio e os peregrinos da luz em fogueiras.
Reafirmo a teoria utilizando como
alegoria o livro do anglo-irlandês Jonathan Swift. Swift fazia uso da sua sútil ironia ao
tratar de assuntos populares e de cunho social. A obra da qual utilizarei um
trecho, “As Viagens de Gulliver”, é uma forte crítica ao mundo e não um conto
que queria divertir as crianças. Atentemos aos paralelos:
“I – O Homem-montanha não sairá dos nossos domínios sem
licença autenticada com o nosso grande selo.”
Eis a proteção da fonte do
conhecimento. Aqui, o Homem-montanha é o arquétipo do saber-máximo que adentra
a terra ignorante, é o contrário da covardia filosófica e que é preservado
pelos diminutos moradores de Lilipute. Na nossa Teoria isto simboliza que os
diminutos seres (aqueles menos instruídos nas ciências filosóficas e políticas)
devem fazer o possível para manterem por perto o conhecimento macro que melhor
possuem. Agarrar as oportunidades vindouras, especialmente as que alimentam a
nossa mente, é a mola propulsora pro início da liberdade dos Falsos Libertos.
Nada se recusa, tudo se estuda.
“VIII – O dito Homem-montanha entregará, no espaço de duas
luas, uma exata descrição da circunferência dos nossos domínios, calculada em
passos seus ao redor da costa.”
Aqui nos deparamos com a valorização
do intelecto que vem de fora, no conhecimento externo aos conhecimentos já
existentes em um meio. O fato de se conviver em diferentes espaços sociais deve
conferir aos Falsos Libertos uma abertura de mente, de pensamento, que os levará
ao conhecimento superior da razão. Descartes utiliza o termo “Livro do Mundo”
ao falar-nos desse estudo baseado no contato com diferentes culturas e
pensamentos. Isso retira os Falsos Libertos da condição de escravos
intelectuais. Para Lilipute, seria interessante aprender um novo conhecimento
além do que já tinham, e este segue
sendo o segredo da verdadeira liberdade.
Nas catedrais francesas, os padres faziam
a missa de um lado e apoiavam a morte dos livres-pensadores de outro. Hoje não
se torna diferente o apoio que vemos os fervorosos religiosos darem ao rosto
extremado da intolerância, presente também naqueles que levaram à fogueira e à
guilhotina nossos professores do passado. Pregam de joelhos e em falsos prantos
que seremos salvos ao nos rendermos diante do seu Cristo, porém o que vemos é
um aprisionamento supervisionado, uma “forma de controle”, diria Foucault.
Digam-nos, o que seu Cristo tem a
ver com liberdade se ainda se encontram presos em suas próprias mentes? Ainda
pequeno, certa vez me disseram que deveria olhar mais para o alto e ouvir o
revoar dos pássaros na natureza, em campo aberto. Isto deveria me reconectar ao
divino e assim o fiz. Neste belo momento pude ouvir a doce voz do vento, os sussurros
das folhas, a conversa entre as aves e meus sentidos objetivos se desligaram
momentaneamente. Tenho que lhes dizer: Não há sensação melhor que o contato com
a natureza, é esse o símbolo da liberdade ignorado em meio ao caos urbano. Se a
isto chamam de paganismo, sejamos todos pagãos.
Admitir a ignorância é,
do ponto de vista iluminista e racionalista, o fiat lux para a construção do conhecimento humano. Se houver em um ser
humano o orgulho de que se sabe de tudo, pressupõe-se que em verdade ele não
sabe de nada. Por outro lado, se o homem pode duvidar de tudo e admitir a
veracidade da sentença de Sócrates, “só sei que nada sei”, pode também atingir o
nível de conhecedor de outras milhares de possibilidades. O pensamento linear confere
ao homem social um caráter de dominador, que deve ser colocado de lado nos
processos questionadores do conhecimento.
Os Falsos
Libertos não são apenas os aprisionados pela religiosidade, que sofrem com uma
promessa falsa de liberdade, mas todos aqueles os quais são prisioneiros de seu
próprio pensamento e que não se permitem pensar no que de fato querem. São
Falsos Libertos porque não ousam conhecer o novo, se fecham no velho e se unem
ao discurso que os padres franceses faziam em pleno Século das Luzes. Talvez
seja o momento de nascer um novo Eugène Delacroix e faz-se cada vez mais necessário que o
vinho tomado nas ceias não seja o nosso sangue.

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