Sejamos sinceros uns com os outros. De
inúmeros obstáculos que encontrei ao longo dos caminhos tortuosos em que passei,
jamais estive na certeza plena de minhas faculdades mentais. Pensar sequer na
possibilidade que me leva ao esclarecimento de minhas ideias me tornaria muito
mais um soberbo que um ignorante em busca de cada vez mais conhecer melhor a
mim mesmo.
Aos inúmeros pássaros que visitam-me todos os
dias, ofereço-lhes essa pequena história que não almeja alcançar a alma dos
sábios, mas sim dos verdadeiros disseminadores do conhecimento: os tolos. Sim,
não leu errado, pessoa letrada a quem falo. Estou certo de que vem dos que
julgamos tolos o conhecimento humilde que toca a nossa alma desnuda.
Vejamos que quando John Locke nos chamou de “tábula
rasa”, ou folha em branco, nem sequer uma baboseira foi tingida a tinta por
suas hábeis mãos filosóficas. Preciso levantar um questionamento em meio ao que
chamamos de vida plena: E a felicidade? Tem a encontrado em cada canto por onde
passa? Respondo que é ela quem bate na porta todos os dias de nossa vida, que
atarefada e corrida não tem sequer paciência para permiti-la entrar.
Deixem-me que melhore seu eu com a história
que irei contar. Se tendes por tempo algo objetivo, perca esta ideia. Essa
pequena parte de mim que chamo de “Alma Inquieta” precisa expressar em letras o
que inconscientemente projeta em mim enquanto durmo. A Alma Inquieta é de um
poeta a musa inspiradora, de um pintor a mais bela paleta e de um músico as
vigorosas notas de Bach. A mim, a Alma Inquieta é a soma de todas essas coisas,
pois na arte encontro o que perco com facilidade quando fecho a bendita porta
na cara da felicidade.
O tempo nada mais é que nossa atenção
objetiva dada ao fenômeno que pouco notado pertence ao nosso inconsciente.
Parece-me estranho mencionar que quando faço aquilo que gosto, todo o tempo
aritmético perde a razão. Todos os números paralizam e, acredito eu, permanecem
refletindo sobre em qual momento irão continuar a dar voltas no relógio. Chega!
Não fiquemos jogando conversa fora. Ao que nos interessa:
“Pardon, monsieur!”
E assim começa nossa história: Certa vez, um
músico bem jovem iniciava suas canções em um piano próximo a Notre-Dame. Era
inverno, nevava, congelavam-lhe os dedos enquanto sua música desafinada ecoava
pelas casas da Paris. Ele era persistente, pois não gostava de saber que sua
música era amargamente ensurdecedora.
-
Faz-nos rir, monsieur! – gritava uma senhora do outro lado da rua enquanto
arrumava seu vestido de cetim.
-
Se lhe pegam assim o amarram dentre as estacas e lhe ateiam fogo – ria-se um bêbado
senhor com seu chapéu coco do outro lado da rua. Sua mão segurava uma maleta
pois era sempre muito apressado com os afazeres.
Apesar do afastamento que todos tinham
daquele jovem músico – pois era assim que chamava a si mesmo – um ser humano
pouco notável lhe veio a deixar uma dica. Era ele um mendigo, que pairava
sempre pela Paris ornamentando flores ao redor dos bancos de praça.
-
Escuta, jovem homem, aos que lhe dizem para parar a música faça o bem. Enquanto
o mundo deles é ligeiro, o seu é lento e produtivo; enquanto o deles é amargo,
o seu é doce e puro como o macaron
que adoça as bocas ricas na Pierre Hermé.
-
Senhor, faça-me um favor? – questionou o jovem músico – Poderia numerar de 1 a
10 como me encontro hoje frente ao piano?
-
Ah! Eu faço, monsieur.
O mendigo prontamente pegou um dos papéis os
quais o jovem músico deixava sob o piano e escreveu o número 10. A fria cidade
reluzia como sempre, as noites claras estavam dando lugar ao céu escuro que
atirava nos transeuntes milhares de pequenos flocos albinos de neve. Houveram,
no espaço de cinco luas, dois casos de suicídio naquele mês frente a Catedral.
-
Gostaria de agradecer. Há muito toco nesta portaria e desde que me coloquei
frente aos que muito tem, tenho notado minha evolução musical. Agradeço por
sempre passar por aqui e deixar-me a maior nota.
-
Ah, monsieur! A ti valem as melhores notas. É o melhor músico da França, sem
dúvidas! E sinto que tão breve conhecerá este mundo de ponta a ponta. Terei que
tomar partida agora.
O mendigo foi embora. Aos poucos, com seus
lentos passos fora andando em direção da Catedral. Seu aspecto fazia projetar
nos outros receptividade, esta da qual somente os homens sábios ignoram e os
tolos apreciam. Ele chegou até a porta da Notre-Dame e com os punhos cerrados
desferiu três leves batidas na porta do local a qual se abriu para revelar um
homem barbado que lhe questionou:
-
Em que posso ajudar?
-
Vim de tão longe até aqui para pedir um cobertor somente. Claro que se não o
tiver em posse, jamais ousaria pisar aqui para pedir novamente e entenderia
minha posição.
-
O que acontece, meu senhor, é que ainda ontem doaram quase todos os cobertores
aos moradores de rua da Paris. Há quanto tempo andas por estas?
-
Há muito tempo, meu jovem. Desde que o jovem músico toca nesta área, faço-me andarilho.
-
Pois então fique na expectativa, meu senhor. Dentre algumas luas nos permitirão
fazer novas doações do que aqui temos.
O mendigo então tornou a fazer o caminho de
volta em direção ao jovem músico, mas não sem antes ouvir por coincidência a conversa
de duas elegantes senhoras muito notáveis:
-
Fiquei sabendo que foi próximo destas zonas a morte de um dos Deschamps.
-
Oh, Matilde! Valha-nos o nosso senhor bom Deus. Não ouse falar nos que já se
foram. Há muito não sabe que tais áreas são repletas da má sorte?!
-
Mas parece que lhe doaram um casaco de seda sem etiqueta, Isabel – ria
ironicamente a madame - Por que andas com medo dos mortos quando nem dos vivos
há de ter que temer os impostos que os ratos hão de pagar?!
-
Por Deus, Matilde! Tem razão no que falas. Ontem mesmo pus um rato a correr
para longe da porta de minha moradia. Estava imundo como um porco na fazenda.
-
Isabel, eu acho que os canhões e as guilhotinas mataram foi pouco. Estes ratos
estão por toda a parte.
Não havia dúvidas na mente do mendigo que não
era notado. Em sua cabeça era bem claro o assunto que as senhoras tratavam.
Andou mais um bom pedaço de terra até que alguns metros próximo ao jovem músico
pode ler uma pequena placa colocada em um curto espaço de tempo – provavelmente
o qual ele fora até a Catedral – no banco da rua: “Amigos partem, lembranças
ficam”. O homem foi andando até a placa, a leu mais de perto e a retirou de
onde estava colocada. Carregou consigo aquele pedaço de madeira, pois julgava
em sua ignorância ignorada que o homem não pode viver sem companhias.
-
Ei, senhor! – ouviu ele uma voz conhecida que o chamava – Já consigo tocar uma
música por completa, não desejaria ouvir?
-
Mas é claro, monsieur. Pois há muito desgosto em Paris e pouco valor é dado aos
talentos – respondeu-lhe o homem se colocando ao lado do jovem músico para o
ouvir tocar.
Parecia que algo havia sido encontrado e
entrado em sintonia naquele dia. A elegância do jovem músico, que veio por
herança de uma rica família que o julgava sábio, encontrou a santa tolice de um
mendigo desgostoso, mas que apesar dos desamparos da vida pode demonstrar sua
sabedoria ignorada ao jovem garoto. Talvez, se não fosse o jovem músico na vida
do mendigo, aquele homem jamais teria encontrado a paz e o descanso. Por outro
lado, se não fosse os conselhos e o apoio do andarilho, aquele pianista
desafinado não teria melhorado ao ponto de agora não ganhar sequer uma crítica
negativa, mas sim a tranquilidade em poder fazer o que gosta.
Ouvi dizer, no tempo em que estive sentado no
banco, no sonho, observando todos esses acontecimentos, que aqueles dois jamais
se separaram. Entendi que os ratos se aliam aos gatos quando assim o é
necessário e que dessa vida o que levamos é apenas o aprendizado. Permitam-me
contar-lhes uma outra coisa ainda: quando me levantei, a fria Paris ficava cada
vez mais escura. Ao passo em que ia me afastando, mais escura ficava a cidade e
a música sumia lentamente. Adentrei a Catedral sem ser notado, mas fiz questão
de olhar para aquelas duas almas bondosas antes de voltar ao meu mundo. Não
pude deixar de perceber o quão curioso é a vida. Afinal, ninguém poderia dizer
que dois suicídios teriam um final tão feliz em meio a uma cidade tão gélida.

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