“Rimani un po 'più a lungo. Vieni ad incontrare il
chiaro di luna nella dolce Verona.”
Falava assim porque tinha a convicção das
ciências de Copérnico. Mas não era o sol o centro do mundo e sim ele próprio.
Galanteador, elegante, jovial e sarcástico. Reunia todas as boas características aquele nobre. O reino de Verona celebrava com vinho sua chegada, embora
ele fosse de igual para igual com qualquer plebeu que cruzasse por seu caminho.
Certa vez ouviu-se no palácio que o Conde de Verona era uma pessoa tão boa de
coração que jamais o viram puxar a espada da bainha ou dar ordens de execução
aos inimigos.
Naquela noite, o Conde apreciava o seu assento
de ouro no castelo Italiano reluzente. Colocavam-lhe capas e coroas como se
fizessem experimentos em um coitado rato prestes a morrer. Viera de um número
de duzentas e setenta e sete batalhas invictas e sangrentas, conforme falavam
as lendas do povoado. Pelos inimigos, era conhecido como “Il Temuto”. Diziam os reis do norte que ele era bravo; diziam os do
sul que era sanguinário; diziam os do leste que era violento; sobretudo não lhe
diziam uma palavra sequer os do oeste, pois haviam-lhes amputado a língua com a
força da liderança.
“O que temos hoje para a refeição matinal?”.
Era essa a pergunta mais ouvida pelos serviçais do supremo Conde. Ele olhava de
cima a baixo para qualquer um que o fosse servir, dizia sempre o nome
corretamente e o serviçal, todo em pompa, se retirava para uma alegre férias de
duas horas. Era bondoso o Conde de Verona. Tão bondoso quanto as castas
malditas que habitavam as sinagogas de padre Falio.
“Padre! Padre! Me ajude por favor! Ontem
andava eu a mexer com bruxas e delas me enfeiticei. Como fazer para curar-me de
todo o mal profano?”
O padre teimava em responder o Conde com as
suas mais sábias palavras:
“Vai-te
ao inferno doze vezes e se banhe em sangue de leão por mais doze. Torne a face
ao luar e enquanto não partir a lua do céu, repouse em aguardo da santificação”.
E lá ia o Conde de Verona. Animado, passando
pelas densas florestas, sem proteção de guardas pois havia conquistado respeito
em todo o reino da Itália. As árvores, dizia o Conde, conversavam com ele e lhe
ensinavam segredos. Mas ele não os repassava para o reino, pois julgava que cada um era desbravador de si mesmo.
O Conde avançou cegamente, observou ao longe
uma imensa tenda vermelha ornamentada com rosas que jogadas ao chão desenhavam
uma encantadora estrela. Atraído pelas forças que o chamavam, o Conde
foi até a árvore mais próxima e pôs-se a esconder por detrás dela. Um belo canto
feminino ecoava de dentro da tenda e ele podia ouvir passos próximos como se a
pessoa que estivesse lá dentro conseguisse deslizar sobre o chão.
E ficou ele
por ali, por mais de um ciclo de alma admirado com a voz feminina. Até que saiu
ela de dentro da tenda, vestida em vermelho e cabelos negros ao vento. Era repleta de joias e tinha um ar caloroso, que exalava a liberdade da mais bela águia e sabedoria do mais belo lobo. Sua pele era morena, um tom forte que
atrairia qualquer homem até seu coração com apenas o olhar misterioso que possuía.
Ora, Conde! Os mistérios do universo e do
corpo são desvendados em uma paixão passageira. E assim, pela distância que
podia se observar da Lua até o Sol, tentou o Conde seguir as instruções dadas
pelo padre. Santificar-se? Impossível. Um homem que aos encantos de uma Deusa
se coloca em silêncio, está fadado ao fragilizado remorso que sua alma há de sentir
por não falar.
Naquela noite, foi ele doze vezes ao inferno, como ordenado pelo padre, mas não encontrou nenhuma criatura maléfica. Em
verdade, o Conde voltou sem se entregar aos encantos da guardiã da floresta,
pois o inferno que visitou não era nada mais que a si próprio e este obscuro
canto ele ainda não havia conseguido vencer. “Dai-me espadas e canhões”,
bradava ele em sua voz interior. Lutou. E como lutou.
Fazia parte do Conde cruzar todas as
fronteiras do abismo infernal que era si próprio e já tentara por doze vezes
vencer o leão que permanecia em seu caminho. Aqueles que dominam as ciências
dos antigos sábios podem interpretar melhor o que relato e constatar a verdade
do medo que há em atravessar o grande Paroketh. O Conde, portanto, parou e olhou para os céus.
A lua se despedia, o inferno já não queimava mais e o abismo fora cruzado com
sucesso. “Final feliz”, diriam os dantescos comediantes.
Contudo, a linda jovem não estava mais ali. Foi-se
embora muito rápido, como se partisse junto com a lua que a iluminava. A batalha
que o Conde travou foi cansativa e demorada. Até hoje falam no reino sobre esta
grandiosa e sanguinária luta, mas mesmo tendo voltado inteiro ao trono jamais se
soube se dessa vez o Conde venceu ou foi derrotado. A única coisa que se tomou conhecimento foi a certeza de que aquela bela jovem foi, sem dúvidas, o maior adversário do nobre e também sua maior inspiração.
E assim seguiu o Conde. Dentro do castelo, sem aventurar-se mais na floresta em busca da Deusa, mas irradiante por ter descoberto aquilo que as batalhas o haviam roubado. Acreditou no amor e nas suas possibilidades, a ponto de abraçar o melhor dos caminhos possíveis. Trilhou sozinho por anos que se seguiram um caminho solitário e de inesgotáveis fontes de conhecimento. Até que um dia partiu para o oriente eterno. Se foi. E o padre que antes o aconselhava, agora liderava uma perseguição aos que ousavam adentrar sozinhos na floresta. Certamente, doze não era lá um número muito agradável em Verona.

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