Os mais incrédulos tomaram para si as “poucas vergonhas” da religião, amarraram-na num pedaço de madeira qualquer e atearam fogo. Com os segredos daqueles
que antes foram mortos, também enterrou-se os Antigos Mistérios e a força
presente na poderosa Magia que cada religião ostenta por trás de si. Acontece
que para os fanáticos que avançavam contra Sophia o véu jamais se rasgou; a igreja nunca pecou e Lúcifer
permaneceu batendo suas resplandecentes asas da gnose nas antigas traduções.
“Traçai um círculo; permaneceis dentro dele e então será o seu próprio
Deus no seu próprio universo criado”. Assim nos diz as antigas tradições da
Arte Cerimonial e em concordância é fato que dos fragmentos aos quais o homem
se inclinou na ciência, em parte surgiram deste ato. Vejam o que fazem agora
com um acelerador de partículas e me diga se não é o mesmo que os antigos Magos. Corrigindo, portanto, as devidas falhas, o Mago dentro de seu círculo
está protegido contra as hostilidades das forças espirituais menos evoluídas e
os cientistas estão ainda como amadores adentrando num mundo desconhecido, já antes desvelado pelo protótipo do que não pode ser provado em laboratório.
Olhai atentamente pelos olhos da sublime arte de sonegar a fé, isto é,
das religiões recentes que apontam as falhas humanas como se não houvesse tais
em suas mesmas doutrinas. Os religiosos, tal como os modernos e céticos
cientistas, não compreendem o traçado de um pentagrama ou o desembainhar de uma
espada, muito embora estejam submersos em rituais que seus olhos são incapazes de enxergar. Não compreendem, de forma proposital, os remédios dados por Gaia aos seus filhos e fazem das cápsulas farmacêuticas a morte dos menos honrados. A
qual honra atribuem tal avanço? Ao desgraçar da Magia Natural ou aos rios de
ouro que sujos de sangue são lançados em forma de pedra na cruz vazia de vosso
salvador?
Em nome dos Mistérios Maiores, que devem permanecer velados e
disponíveis a serem descobertos apenas aos verdadeiros buscadores, torna-se
extremamente necessário que em um ponto específico tais elementos de todas as
religiões retornem ao logos comum de onde partiram. Aos questionadores
profanos, é viável dizer que todos os credos partiram da santa ciência da
Cabala. A doutrina pura de um cabalista, que é a mesma que a da Tradicional
Magia, é apenas uma: O centro de tudo é a tua vontade.
O Mago é aquele que de tudo domina, que se alimenta das forças da
natureza e as usa para realizar o centro de sua vontade. Ao qual sempre se
seguiam as perguntas curiosas quando mencionava o que estudava e toda a
corrente que um dia toquei, me tornei obrigado a quebrar: “És Mago? Prove!” Um
aceno com o athame era um sublime ato de Magia, mas me tornei incapacitado de
responder por tantas vezes a mesma pergunta ao ponto que afirmava: “Sou Mago
da mesma forma que és Deus. No dia em que descobrires que és Deus, descobrirás
que sou Mago”. Isso encerrava não só o diálogo, mas estimulava em cada um
descobrir por si só os segredos da Filosofia Perene.
Aqueles que vinham, e por várias vezes chegavam marchando lentamente
como em ar de desafio, assentavam nas cadeiras de minha casa ou me enviavam
mensagens furiosas negando o poder da Magia e questionando as funcionalidades
dos atos. Criam, em grande parte, nas ditas ciências religiosas e imutáveis do
evangelho e as levavam ao pé da letra como se seu significado cabalístico fosse
coisa de Satã e recorriam aos Magos quando não conseguiam extrair de suas
sagradas leis o que queriam. A estes fui obrigado a declarar segredo e, quando
questionado a respeito de tal, dizia: “A quem tendes por mestre?”. A resposta
vinha quase sempre em padrão: “Jesus, o Cristo. É ele meu mestre e filho de
Deus”. Sinto-me extremamente lisonjeado de nessas horas poder ter vivido em
grande parte dentro dos templos ao qual faziam parte estas pessoas e um padrão
decidi responder desde então: “Tenho por mim, não só mestre como Soberano
Pontífice da Magia, Lúcifer. É ele quem mantém o elo vivo entre o material que
eu toco e o astral que eu evoco”.
Seus rostos empalideciam, suas mãos ficavam trêmulas e desde então passavam
a acreditar na força da Magia, porque carregavam com eles o sinônimo de algo
que – segundo a doutrina cristã – era igualmente poderoso, mesmo que sendo uma mera palavra. Posteriormente eu agradecia a Deus, pois um mero equívoco de tradução e interpretação
concebia-me horas de risadas sozinho frente ao espanto da incerteza de seus credos. Isto eu fazia como forma de espantar os
curiosos, de tal modo que digo: A Soberana Arte da Magia não é para achismos ou
curiosidades. Se aquele que busca os mistérios do autoconhecimento através
dessa antiga ciência se render às luxúrias da carne ou ao egoísmo da alma, a
este uma queda estará preparada e não haverão heróis para o salvar da própria
morte espiritual.
O que entendes como mal e bem? De nada vale hoje, cairá por terra. O que
entendes por Deus? Cairá por terra. O que entendes por Cristo ou Satã? Cairá por
terra. O que compreendes de si mesmo? Cairá por terra. Porém, este último jamais
cairá de maneira rápida e violenta, de modo que basta observar em toda a história
da Magia e perceber que os iniciados - pequenos ou grandes;
conhecidos ou desconhecidos - encerraram suas vidas solitários. É isso que esta
Arte nos proporciona, conhecer tão bem o próprio Eu e os Mistérios da Criação
que ao longo da caminhada a necessidade de companhias torna-se cada vez mais particular e seletiva. O processo não é solitário para aquele que se acostuma com o sussurrar silencioso de sua própria mente em comunhão divina.
Perceberá no caminho aqueles que o fazem bem e
aqueles que o fazem mal, não apenas a nível físico. Encontrará respostas para
coisas que aparentemente não possuíam. Mas tudo isto virá apenas com a
dedicação. Não se permita esquecer, nem mesmo por um minuto, que a Magia é uma
ciência nobre e uma arte destinada a poucos; os que a entendem adquirem
poder; os que a compreendem dominam a si próprios e os que a procuram apenas por
curiosidade, chamarão para si o ingrato fardo da loucura, tal como o daqueles que adoravam assistir o fogo incinerando a carne dos verdadeiros libertos.

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