A Árvore do Conhecimento, o fruto proibido e os segredos da Esfinge



  Eis a razão pela qual a esfinge, o símbolo perfeito do caminho ao autoconhecimento, é aplicado desde os tempos mais antigos. Os mistérios pelos quais Édipo resolve sua charada e a torna irritadiça. Provocar o Dragão do umbral é, nas ciências ocultas, afrontar a guardiã de Tebas. Por que espantam-se os profanos ao descobrirem que esse arcaico arquétipo iniciático hoje reside em Delfos, local do Templo de Apolo? Parece vã a ideia de que a escrita “conhece-te a ti mesmo” faz clara referência à ciência do conhecimento? Esta, abraçada pelas mãos de Eva e posteriormente de Adão, fez da serpente do abismo a vilã de todas as eras e iniciador do prelúdio alquímico.

  Pois é ao tocar no fruto proibido que ela surge. Deus fizera sua criatura semelhante a si e jamais negara sua natureza dual: “Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas essas coisas”. Pender para um lado ou para o outro, tal como os sinos das catedrais, é fugir do caminho separado pela serpente. Fazer dela a vilã da história é roubar de Deus sua própria hierarquia. Transformar a serpente alegórica do Gênesis em diabo é negar a natureza criativa de Deus, que não obstante manifesta o logos pela diferenciação dos opostos presente nele próprio e na árvore do conhecimento.
  
  O binário é, portanto, o pleno domínio das ciências do bem e do mal. Experimentar da fruta é entender os caminhos à direita e à esquerda e jamais escolher adentrar em um ou outro, pois obscureceria sua mente e o tornaria insano. É por isso que Deus, na sua incognoscível ciência, manifesta-se em tudo e em todos. Desde muito os mistérios da manifestação são ocupados por opostos que, em harmonia, geram um terceiro elemento. Observe com cautela o fogo e a água; o pai e a mãe; Chokmah e Binah; Jaquim e Boaz. A dualidade sempre foi posta à prova e sempre será, porque ela revela a natureza divina e sua alquimia é o perfeito casamento da alma com o espírito; a matéria e o astral; o macro e o micro; o duplo triângulo maçônico e Salomônico; a Grande Obra.
  
  O conhecimento do bem e do mal é a ascensão, resultado do casamento do triângulo da materialidade somado ao da espiritualidade. Deste princípio partem todas as escolas iniciáticas, que visam fazer o homem atingir sua divindade interior ou o Azoth alquímico. Alcançá-lo é adentrar as esferas superiores a Kether, não necessariamente esquematizadas no esquema cabalístico, mas idealizadas no espaço vazio entre o ser e o não ser. Desta forma, a compreensão de que o eu esotérico pertence à mesma natureza que o eu externo elimina a simulação, o espaço preenchido pela mente que nos afasta da verdade, esta última sendo o estado maior dos alquimistas: a busca da Pedra Filosofal. Parece inaceitável para alguns, mas nenhuma pedra bruta será lapidada até que esse espaço que chamamos de Maya seja constantemente diminuído até que não se ache diferença entre o ser e o verbo criador.
  
  Rousseau, o diabo dos inquisidores modernos, nos apontou que os escritos no Oráculo de Delfos são mais complexos que os próprios livros moralistas e seu entendimento muito mais velado. Também afirma que o conhecimento do homem é o mais útil e também o menos avançado. Não tratar como consequência tais sentenças é buscar o mesmo conhecimento que estes homens nos desejavam passar, isto é, o homem atingiu o auge de seu egocentrismo e é atraído para assistir fenômenos e mergulhar no espetáculo de mágica que em muito se difere da tradicional Magia, ou autoconhecimento alquímico. O que é isto senão compreender que a lacuna entre Deus e o homem está disponível aos que buscam a verdade e não pirotecnias? Pois aos que buscam espetáculos, disponível a eles estão apenas os graus e vestimentas; vãs palavras e versos decorados de forma vazia; cerimoniais litúrgicos sem sentido prático e, tardo-me em dizer, voltas e mais voltas no teorema cabalístico de Ezequiel.
  
  À esfinge foram dadas asas de águia, para que se atinja os corpos sutis e domine os aspectos emocionais. É isto que os teosofistas denominam de budhi, o despertar, e o envelope onde deve caber o Atman. Ao arquétipo foram dadas garras de leão, que ao longo do caminho são conquistadas por aqueles que vencem este animal feroz e lhe seguram a boca tal como os hieróglifos de Hermes (observe o Arcano XI), simbolizando a conquista no astral. Aquele que vence a briga com o leão conquista suas garras, que possibilitam abrir caminho à direita e à esquerda, contudo o sábio jamais deve adentrá-los, pois sabe que é na neutralidade que estará a sua natureza divina.
  
  Há ainda a necessidade de mencionar os flancos de touro da esfinge, que representam o domínio da matéria, a qual Éliphas Lévi chama por profundezas que devem ser cavadas. Este é o controle do físico, do quaternário, o plano mais denso e, por isso, tão profundo e evitado. Dominando-se tudo, o iniciado passa a ter a cabeça humana sobre todos estes símbolos e, como homem, é dotado da fala, do verbo, sendo agora o próprio logos encarnado e reconhecendo sua natureza divina. Assim, o homem que fala, cria, pois o ser tornou-se o ser.


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