Magia do Caos: Perigos e Cuidados




  Que o mundo está se tornando cada vez mais imediatista já é um fato incontestável. Se dermos exemplos a respeito, provavelmente perderemos horas os citando. O perigo de tal movimento estar acontecendo são inúmeros: a falta de filtro em mensagens, o que nos leva a repassarmos coisas sem ao menos checar a fonte; a exclusão social de pessoas pouco acostumadas com os meios de comunicação mais modernos; a falta de reflexão sobre um assunto e o tempo curto que se leva para ter uma opinião rapidamente formada sobre ele. Enfim, assim como a tecnologia e a velocidade de propagação de informações trouxeram avanços, também trouxeram atrasos e no campo da Magia com essa nova forma de convívio vieram os perigos.

  Baseada nos ensinamentos Thelêmicos de Aleister Crowley, a Magia do Caos vem se popularizando cada vez mais nos meios ocultistas modernos e conquistando espaço cada vez maior em um cenário que antes era dogmático e bem reservado. Hoje, não é difícil encontrar um simples curioso tentando dominar as práticas esotéricas utilizando essa nova fonte de conhecimento.
  
  As bases Caoístas datam seu início por volta de 1920, com o promissor ocultista e artista inglês Austin Osman Spare. Spare era especialista em criar desenhos artísticos que envolviam um teor sexual e algumas representações típicas da tradição simbolista. O jovem Spare pertenceu por alguns anos à Ordens Iniciáticas ligadas às teorias de Crowley como a Ordo Templi Orientis, a Golden Dawn e a Astrum Argentum, contudo não se demorou nelas e decidiu desenvolver um sistema próprio de magia, que pegaria como bases as aplicações de Aleister e as transformaria em algo menos dogmático.
  
  Spare é uma figura de renome nos meios Iniciáticos por dar uma nova configuração à prática conhecida como sigiliação. De forma resumida, essa prática consiste em reunir dentro de um símbolo algum desejo que o magista pretende tornar real e que deve ser escritos em alguma superfície de forma a “mascarar” seus intentos. Para Spare, a nossa mente tentaria criar mecanismos para bloquear qualquer tipo de mensagem facilmente decifrável (como uma frase clara e bem descrita, por exemplo) e geraria obstáculos para evitar a realização destes desejos, obstáculos gerados pela própria dúvida do praticante.

  Para ilustrar melhor esse raciocínio tomemos como exemplo uma pessoa que pretende vencer uma partida de Poker que será jogada em um final de semana. De início, ao pensar na possibilidade de vencer o jogo, inúmeras incertezas irão pairar em sua cabeça e pensamentos como “será que vou conseguir vencer?” ou “e se forem melhor que eu?” surgirão. Para os Caoístas mais tradicionais, essas dúvidas criam uma barreira que irá impedir o desejo da pessoa de ser concretizado e para isso é necessária uma forma de “enganar” a consciência para que esse desejo seja transferido para uma parte “inconsciente” da mente, que se encarregaria de ativar mecanismos para facilitar a concretização da vontade do sujeito.
  
  Assim sendo, a mensagem “quero vencer no Poker” precisa ser enviada para o cérebro de uma forma que a mente consciente não a consiga interpretar e, portanto, não formule obstáculos para evitar o desejo de ser realizado. E é exatamente nesse ponto que entra a sigilação. De início, precisamos tornar a mensagem parcialmente indecifrável, eliminando inicialmente as vogais e depois as consoantes repetidas da frase. Assim sendo, obteríamos:

Sem as vogais: “QR VNCR N PKR
Eliminando consoantes repetidas: “QR VC N PK

   Desta forma, a sentença já seria irreconhecida por pessoas que tentem a ler, mas para o praticante ela ainda pode remeter a mente consciente à alguma lembrança da frase original. Como não se pretende o menor reconhecimento por essa consciência, torna-se necessário criar um símbolo a partir deste resultado obtido. O magista pode trabalhar livremente nesta criação, criando formas geométricas, fundindo as letras em uma coisa só e etc. O importante é que ao final deste processo a frase seja completamente desconhecida e indecifrável até mesmo para o próprio magista quando a olhar em algum momento posterior. Abaixo segue o exemplo de um sigilo para a frase “eu tenho sucesso nos estudos”, já com vogais e consoantes repetidas eliminadas e sigilo formado:


  Agora é necessário que este sigilo criado seja energizado de uma tal forma que ele seja enviado diretamente ao subconsciente (ou inconsciente – isso depende da linguagem da vertente) e para isso são utilizadas as ferramentas que o magista preferir. Dentre as mais comuns podemos citar as práticas sexuais, a visualização, a meditação e até mesmo processos que levem a uma dor física em si mesmo. Quanto mais energia no processo, maiores as chances de que o desejo seja energizado e enviado sem passar pelo filtro da consciência. Passando essa etapa, surge outra muito comum nas práticas mágicas de diversas tradições: o banimento.

  O banimento, nesse caso, vai consistir na remoção de qualquer resquício que possa ter ficado sobre a frase original (a razão do sigilo) da mente do sujeito. Ele precisará se forçar a esquecer que fez algum pedido e não poderá pensar nele, com a finalidade de facilitar sua criação mental e posteriormente sua concretização. O perigo mora justamente nas etapas finais deste processo.
  
  Por se tratar de uma prática que tem por origem negar dogmas, o praticante se torna absolutamente livre para criar a forma que melhor lhe agrada para enviar o desejo ao inconsciente e para o banir. Um profano, por exemplo, que entra em contato com essa prática pela primeira vez (e sua difusão vem ganhando muita força), pode não ter noção de que o universo é regido por leis imutáveis e que por mais que hajam formas de burlar métodos tradicionais em prol de um mais “funcional e rápido” isso pode o colocar em frequências tão indesejáveis que um banimento mal executado geraria efeitos no mínimo perigosos. Em suma, você pode brincar com a parte palpável e “visível”, mas se não tiver a menor noção do que se passa em outros planos tudo poderá desmoronar e você não saberá sair sozinho da situação.

  Cabe lembrar que Osman Spare passou por diversas Escolas Iniciáticas antes de criar um sistema próprio e que usá-lo sem base é tão perigoso quanto praticar Goécia sem o devido preparo, que aliás é outro sistema que vem crescendo e gerando problemas àqueles que tratam Magia como brincadeira. Sobre ambos os casos, Éliphas Lévi já nos alertava em “Dogma e Ritual da Alta Magia”: "É perigoso se divertir com os mistérios da magia; é, principalmente, temerário praticar seus ritos por curiosidade, por ensaio e como que para tentar as forças superiores. Os curiosos que, sem serem adeptos, se preocupam com evocações ou magnetismo oculto, parecem crianças que brincam com fogo perto de um barril de pólvora fulminante; serão, mais cedo ou mais tarde, vítimas de alguma terrível explosão."

  Tratar a manipulação da realidade como algo simples e extremamente controlável é o primeiro passo para qualquer pessoa se perder dentro da própria consciência e ter uma queda tão grande que não valeria os riscos da infantilidade do “querer ver acontecer”. Nesse sentido, Papus afirma: “Antes de comandar as forças em ação em um grão de trigo, aprenda a comandar aquelas que agem dentro de si e lembre-se que antes de se assentar em uma cadeira na Sorbonne (antiga Universidade de Paris), é preciso passar pela escola, pelo liceu e pela faculdade”.

  Portanto, esse não é um texto que condena a Magia do Caos, mas que pretende trazer os praticantes com pouca instrução à luz das verdadeiras noções das ciências ocultas antes que se aventurem de forma aparentemente livre por aí. Não se deixem enganar, há muita literatura a ser feita antes de simplesmente pegar uma frase, a reduzir em um símbolo e achar que já está brincando de ser Mago. Existem literaturas sérias que tratam da Magia Experimental, como o “Liber Null e Psiconauta” de Peter J. Carrol e, mais recentemente, “Os 40 Servidores” de Tommie Kelly, ambos publicados pela editora “Penumbra” e que norteiam muito bem os interessados. De todas as formas, jamais realize uma prática tentando obter sucessos fantasiosos (ver “entidades” ou barganhar com forças astrais) e não esqueça que a Magia, como ciência bem definida por Papus, não pode ser dominada do dia pra noite, requer tempo e muita teoria. 

  

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