Réquiem: A Obra Inacabada



  Me arrasto pelas linhas dessa grande invenção criada pela minha mente. Sobreponho meus pensamento por palavras soltas que me chegam à cabeça. Encubro sentimentos com suspiros e pequenos atos de coragem com camadas de medo. Faço notar-me em público pela fala artística, que conduz a todos um espetáculo ao qual eu chamo “Vida”.

  Ah, vida! Tardiamente vivida, porque só os lamentos dos sonhos podem atestar a alma que presenteia as junções de letras que aqui surgem. Para uns, sorridente; para outros, amoroso e leal; para mais alguns ainda, repleto de ausências sentimentais. Nunca ei de revelar minha verdadeira essência, porque o monstro que mora em meu interior me engoliria e faria de mim o meu pior inimigo.

  As cores chamativas das flores sempre me atraíram na primavera, mas sempre andei com a certeza de que no outono elas despencariam. A cor morre com elas, porque esse é o ciclo natural das coisas. Elas morrem, para que floresça algo novo e melhor. Matar os sentimentos,  ainda mantendo uma pequena parte deles dentro de si – caso contrário, um indivíduo normal piraria – é o que impulsiona os maiores artistas a fazerem sua própria arte.

  A minha arte é, em vida, desafiar a morte. Eu a faço todo dia, a pinto em quadros, a componho em canções e a escrevo em linhas semelhantes a estas. A coloco naquilo que trago, bebo ou uso. De pouco em pouco, ela se aproxima e cada pétala de flor que há, cai frente ao frio outono que chega avassalador. Tornei-me para mim o que para os outros imaginava não ser. De tempo em tempo rude, isolado, calado, me perdi na minha própria cena a qual a cortina precisa ser fechada para que o ator ensaie o roteiro novamente.

   Sinto ainda um calor infantil dentro do meu peito. Cada vez que as cenas se cortam, que o piano se afina, que as luzes se apagam e que os músicos repousam suas mãos sobre os violoncelos percebo que o silêncio do antes barulhento ambiente me permite ver o mundo de outra forma. Uma forma tão estranha quanto bela.

  Fostes trovador em outra vida pra reconhecer o peso de tais palavras em tom lírico? Abstenha-se, aquele que faz leitor desta obra inacabada. Seria eu o maior jogral se ainda andássemos nas vestes antiquadas dos séculos perdidos. Minha fúria contida encontra nas minhas mansas mãos o ódio que jamais fora manifestado. À nobreza o que é dos nobres; aos lúcidos o que sobra.

  Em doces mãos, a saber as da revolta, fui mantido por todo o tempo e na minha sombra enxergava o mundo colorido e cheio de vida, reflexo das ideias um dia escondidas em alguma parte da minha mente. Aos amigos, o ópio das letras confusas e aos letrados o mais belo veneno que alguém pode tomar por conta própria: o amor.

  Sonolento, cansativo, doloroso, e uma penca de outros mais nomes que atribuo à tal sentimento que há muito faço questão de esquecer. Tranco-lhes todos num baú, que só meus pesadelos possuem a chave. Neles, sou amante e sincero, um par de palavras boas nos lábios dos sábios, mas desorientadoras nos dos sonsos.

  Digo que, se pudesse nascer novamente, meu único pedido seria: “Que me mandem sem o conhecimento; pois ele é doloroso e, para mim, destrutivo. Um experimento que deu errado e que foi programado para ser robotizado. Se lhe desafiarem alguma vez na vida a mudar seu comportamento, por mais desafiador que seja, permita-se.

  Escrevi sobre amor mesmo sabendo o que era apenas por superfície. Não tenho domínio sobre o assunto e nem acho que ele mereça ter-me. O amor é algo puro e deve merecer uma tentativa para ser entendido, isso falo sem demagogia e também sem a motivação para decifrar seus códigos. Logo eu, para quem a simbologia tornou-se mais que uma paixão descabida.

  Vos aconselho a amar, porque não o fiz e nem me o fizeram; e, no fundo, todos os poetas partilham desta mesma ideia ao escreverem sobre tal. Apenas sou amante da escrita porque sou um homem dos livros, caso contrário seria um homem do romance carnal, e assim amaria apenas por sê-lo, sem conteúdo e puramente apaixonado.

  Creio que sairei de cena acreditando no amor, mesmo que nem sempre vivamos aquilo que acreditamos. Novos ares não nos tornam pessoas novas, apenas revelam faces nossas que até então não experienciaram algo. Os gestos mais nobres de amor são encontrados nas lápides, ao lado de rosas. Venham ver, pois essa é uma era em que todos querem se expor, que os discursos se inflamam e que a liberdade vos aprisionou. E é a sábia rebeldia a chave para esse cárcere.

  Queria inspirar os outros de alguma forma, os ajudar a adentrarem no melhor de seus caminhos. Isso talvez tenha sido alvo de grandes cobranças, das quais eu constantemente era alertado. É provável que tenha feito isso pra alimentar um obscuro lado egóico dentro de mim.

  Foram tantas as vezes em que era colocado em posição de destaque que sair dela torna-se cada vez mais complicado. Não desejaria ser referência para ninguém, quero apenas os inspirar a serem como devem ser, sem medo ou pessoas os dizendo o que fazer. A sociedade se tornou o que eu mais lutei contra: a minha mente.

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