Com todo apreço pelo modelo
que a filosofia adquiriu com o tempo e a capacidade de multiplicar formas de se
pensar sobre um mesmo conceito, espero expor claramente minhas ideias a
respeito da forma como podemos pensar na liberdade plena, isto é, a liberdade em sua totalidade. Me distanciarei
convenientemente do máximo possível de modelos já existentes, direcionando-me
aos padrões minimalistas e que, por alguma razão, inclinam-se ao formato mais
transcendente, objetificando não explicar a liberdade, mas ao menos atingir uma satisfatória explanação sobre tal.
Não precisaremos entrar em matas profundas para extrair a
seiva das plantas que surgem das raízes filosóficas mais abrangentes. O problema ao se falar nesta ferramenta tão discutida pela filosofia se inicia na indagação que por vezes nos fazem: "O que é liberdade?". Esta é uma pergunta ingrata, que nos limita a uma resposta como conceito fechado. Objetifica uma explicação para
algo que metafisicamente não tem uma. A pergunta mais adequada seria, portanto: "Onde está a liberdade?". Se
interpretarmos a liberdade como algo relacionado a uma praxis existente e maleável, resolve-se parte da reflexão. Entretanto,
haverá um prejuízo considerável se tentarmos a identificar como uma arena
romana fechada, que está a espera de gladiadores correndo de lado a lado em
busca de sua sobrevivência ou mesmo um pote de ouro no fim do arco-íris.
É muito comum atribuir um caráter mais
metafísico que humano à liberdade. De fato ela ostenta este caráter, mas precisamos separar as falácias das formulações que venham a ser tratadas como reais. Por exemplo, nas religiões cristãs, por
entender-se que somos indivíduos carnais e inclinados aos desejos humanos, esta
existência é resumida como um aprisionamento onde a luta espírito-carne precisa
ser travada constantemente até que se haja o desprendimento da matéria em
direção ao paraíso. Este paraíso é metafísico, produto de um ideário religioso, entretanto não deixa de ser um objeto existente na possibilidade da fé. É, portanto, uma falácia afirmar que a liberdade neste contexto existe, pois ela está delimitada por um local (ou ideário) aprisionador e excludente, já que nem todos poderiam chegar nele.
Ora, o paraíso é, assim, o sinônimo de uma liberdade
criada na não-existência, distante da avaliação plenamente humana e colocada
num patamar que seria impossível estabelecer relações com o material. Assim, sem a
possibilidade de ser avaliada, a liberdade plena seria uma imagem que não pode ser
encontrada ou apreciada enquanto vivemos. Esta promessa faz a religião se
apossar de duas temáticas existenciais do homem que nomeio para facilitar a explicação de "liberdade do pensar" e da "felicidade de
contexto".
Distante da liberdade do pensar (pois o paraíso é ausente de experiência empírica), o homem está fadado a
perceber apenas uma possibilidade de se tornar livre, remetendo-se ao encontro
Eu-Divino, imaginando uma liberdade plena distante do material e posicionada em
uma ideia metafísica que pode ou não existir; neste caso, convém que exista
pela fé, onde o indivíduo precisa abraçar o absurdo para se sentir realizado. É
o mecanismo de recompensa onde privando-se em Terra de seus instintos (aprisionando-se de certa fora), o seu
espírito estará livre. Esta hipótese do absurdo da fé pode ser encontrada na filosofia de
Kierkegaard, estando o ser dessa forma colocado acima dos dois estágios
anteriores de sua experiência terrena: o estético (que busca pelo prazer) e o ético (que conhece a moral e passa a criar limites sobre si).
A segunda temática da qual a religião se apossa é a da
felicidade de contexto. Mas o que podemos entender por isto? Imaginar a
felicidade como um todo perfeito está para além das faculdades humanas. O
sujeito livre e feliz, ambas formas em plenitude, é impensável em qualquer
modelo humano. Os estoicos defendiam a ideia de que a ausência de preocupações
(a apatia) seria a verdadeira escalada para uma vida mais feliz. Essa ataraxia, proposta primeiro por
Demócrito, é a dita felicidade que tenta-se propagar na sociedade atual de
maneira epistemologicamente distorcida. É feliz aquele que não encontra
obstáculos, que não tem estresses físicos ou mentais e que se rende às
luxúrias da vida sem portanto tornar-se escravo delas.
Estas noções mais modernas, numa verdade inadmissível, se
aproximam muito mais da felicidade dentro de um contexto específico, momentâneo
e cíclico que de uma plenitude. Interpretar a felicidade como a religião
interpreta, a transformando num eterno parque de diversões, só ocasiona mais
pressão psicológica e cobrança por um modelo exemplar inexistente de vida. Cobra-se muito dos religiosos, pois o modelo de paraíso é cabível somente àqueles que estão felizes em Terra, tornando-se fundamental que demonstrem sempre um estado de pacificidade e euforia. Então, para fugir das cobranças, a felicidade precisa residir imediatamente no mesmo local em
que a liberdade está e por não haver espaço físico na Terra para ela ser
trabalhada constantemente, de maneira rotineira, desloca-se ao mesmo paraíso espiritual em que está a liberdade plena para a religião.
Assim, julgando que a liberdade e felicidade plenas não
estão nesse mundo, a religião as desloca para um local imaginável, provável,
admirado apenas pela fé e não pela razão. Isto não liberta o homem de pensar em
ambas como algo fechado, muito pelo contrário, o força a tirá-las de qualquer
hipótese humana e as pensar como ideais. Pode-se dizer, em outras palavras, que segundo a religião existe um local exclusivo em que liberdade e felicidade, ambas nos seus potenciais máximos, se encontram. Ora, isto é limitar mais uma vez o metafísico a partir de hipóteses com argumentos frágeis.
Não há mal maior que tentar delimitar a noção de
liberdade plena. Precisa-se, antes de qualquer coisa, assumir que sua
existência é impossível em sociedade ou em qualquer outro local hipotético. Thomas Morus em Utopia imagina um local onde a liberdade de expressão e política
existe de maneira bela, mas o nome de sua obra justifica sua noção sobre o assunto. É uma noção utópica. O homem não
respeita o direito do seu próximo opinar em algo, ao menos não sempre, e muito
embora isto seja permitido ao crítico por lei. A noção errônea desta liberdade
de expressão dá voz a preconceitos e opressões, mas se por um lado proibimos as pessoas de falarem tais asneiras, por outro os cerceamos também de suas liberdades plenas em demonstrarem o que são. Percebe-se que nesse sentido ela se coloca acima de qualquer ética ou valor moral e que desta forma se torna justificável pelas questões legislativas que ela seja controlada, perdendo seu caráter pleno mais uma vez.
Isto deve ser dado muito mais como uma reflexão ao
sentido da liberdade plena que necessariamente sua definição, que como disse, não é o
meu objetivo neste texto. Imagino ela, portanto, como inexistente, mas ainda
assim possível dentro de seus limites. Isto é, não devemos buscar uma liberdade
ou um local chamado liberdade, ou lhe atribuir um destino específico, mas a
imaginar da melhor forma possível: em solitude. Thoreau não encontra a liberdade numa casa no bosque em Walden. Ele não relaciona a liberdade com a casa, em tentativa de transformá-las em sinônimos. Na verdade, no bosque ele se encontra e é somente aí que ele descobre a sua liberdade. Tão logo se torna necessário ser compreendido que sozinho esta experiência seria praticável em qualquer local.
É neste ponto que rendo-me às explanações minimalistas de
Thoreau, pois em acordo com suas ideias como podemos pensar que liberdade total é,
como o maior sonho de muitos jovens, ter sua própria casa? Ou seja, sair de um
local que o aprisiona (a casa dos pais) para outro local fixo, estável?
Obviamente que ele terá muito mais possibilidades em fazer suas coisas da forma
como bem querer, mas o problema não é esse e sim atribuir à liberdade a ideia
de “morar sozinho”. Este é um desejo cautelosamente introduzido nos jovens,
pois convém que eles consumam mais e, assim, continuem buscando a felicidade em
destinos específicos e não em trajetos, o que eu julgaria como mais próximo da ideia de liberdade plena dentro desta explanação. Essa vida sozinho entendida como independência se trata de ilusão. O jovem aparentemente independente passa a servir como uma família a mais nas contas do sistema. Se mantém aprisionado se não conseguir transcender a noção de que uma casa não o concede liberdade plena. Enquanto querem ser livres, se
aprisionam cada vez mais nas armadilhas que a sociedade estabelece
sorrateiramente.
A filosofia de Schopenhauer vai defender uma espécie de
liberdade baseada na solidão, onde o indivíduo livre é aquele que convive
consigo mesmo e, mais que isso, ama sua existência singular. Agora sim podemos
ter uma noção de liberdade que nos leva a questionar não mais os limites de
objetos externos, mas de nossa própria mente. Kant, muito embora tenha sido
alvo da filosofia pessimista de Schopenhauer, buscou o limite do conhecimento
humano, até onde ele poderia nos levar e até onde poderíamos conhecer o mundo. E é ao cruzarmos ambas formas de interpretação, que temos também a melhor
explanação sobre a liberdade plena: Se somos realmente companheiros de nós
mesmos e não atribuímos limites aos nossos ideais, somos a própria liberdade.
Ela estaria, então, ao nosso lado constantemente e não mais posicionada em um canto específico, seja ela numa casa própria ou em um paraíso religioso.
Ainda assim, não se pode confundir liberdade com
existência. Isso seria um perigo e nos levaria a buscar experiências como forma
de testar os limites da existência física e não mais da vivência ou
conhecimento. A liberdade plena, enfim, pode ser interpretada como aquilo que não tendo a
possibilidade total de ser, não se limita ao que achamos que é. Qualquer definição pela ótica humana que almeje uma abordagem reducionista sobre ela, seria uma falácia. A
colocando num local que não pode ser atingido plenamente, distante de qualquer
possibilidade criativa humana, podemos apenas assumir que ela mais ‘está’ do
que ‘é’. Logo, é pelas interpretações erradas a repeito de algo puramente metafísico e impalpável que as pessoas que resumem liberdade e felicidade a estágios alcançáveis da
vivência humana, provavelmente morrerão presas e infelizes em suas próprias ilusões.
Abaixo seguem-se pequenos aforismos que tomei como base como ponto de partida para análise e explanação do tema. Esta é uma das formas que costumo utilizar para construção de um pensamento acerca de algo e a considero como justa e satisfatória no processo de estudo da filosofia ou outras disciplinas:
-
A liberdade não está no destino, está nos trajetos;
-
Abandonar a liberdade plena como conceito fechado, que pode ser resumido em uma coisa
ou lugar de contemplação;
-
Delimitar a liberdade plena como um conceito que, por indefinição de praxis,
não pode ser totalmente definido como coisa, um nirvana ou lugar;
-
Pessoas que resumem liberdade e felicidade plena a algo alcançável na vivência
humana, provavelmente morrerão presas e infelizes;
-
Não atribuir à liberdade um caráter de destino. Sempre dizem que ela está em
algo. Em religião, ela está no paraíso; na vida dos jovens, no morar sozinho…Ela não está,
ela é;
-
Para começar a entender a liberdade plena, precisamos não mais perguntar “o que é
?” e sim “onde está ?”
-
“O que é?” é uma pergunta que nos limita a um conceito fechado. Objetifica uma
explicação para algo que metafisicamente não tem uma;
-
Thoreau não encontra a liberdade no campo atribuindo a ideia de que ela estaria
ali, naquele lugar, o tempo todo. No campo, ele se encontra e aí sim ele
encontra a liberdade;

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