Não faz pouco tempo que
as pautas que a nossa sereníssima esquerda brasileira levantam me fazem ver
esperança numa sociedade melhor. As preocupações com as minorias, com as causas
sociais e o deboche ostensivo direcionado à extrema-direita me faziam apreciar
essa bela sinfonia política. Contudo, não há sanidade que resista à hipocrisia
metódica que vem crescendo na dita revolucionária canhota brasileira. Isso
porque levantar bandeiras tem sido cada vez mais comodo e fácil em nossa
sociedade, mas pra lá dos discursos quais seriam as propostas?
Falar em nome dos negros e homossexuais é um ato pra além
da política, é algo humano. Mas ao sentar para debater propostas, o que temos?
Lacração, aspirações autoritárias e ausência de planos econômicos em detrimento
de uma política de discursos, que dialoga com as minorias pobres em cima de uma
cobertura na zona sul.
Com a chegada da internet e da teórica e hipotética
adesão ao interesse político dos nossos jovens – hipotética porque mais parece
uma bagunça ideológica que um movimento bem fundado – somos mais colocados
dentro de caixinhas preconceituosas, tornando difícil a luta por um país mais
justo e igual. Quem, de dentro da própria esquerda, não já foi acusado de ser
racista, homofóbico ou machista? Virou necessariamente uma rotulação que por
vezes é justa e por outras é um motivo para exercer uma reposta autoritária a
um suposto autoritarismo.
A noção de “lugar de fala” perde sentido na boca daqueles
que pretendem lacrar e se proclamarem defensores de causas, muitas das vezes
sem verdadeiramente o serem. E mesmo que sejam, o fazem de forma deturpada e
cedem material para a burra e grotesca oposição utilizar em defesa de estarem a
todo o momento sendo rotulados. O que quero dizer é que nem toda pessoa de
direita oprime os pobres ou necessariamente são preconceituosas. Se torna tão
imbecil ter que explicar isso, que por si só já aponta o problema que nossa
esquerda brasileira gravemente tem em si.
A luta de classes não é mais mencionada, fica vagando no
ar, a pauta de uma sociedade explorada que luta contra os exploradores vem
sendo abandonada em defesa de uma rotulação cega e que também aspira a
segregação. Racismo, homofobia e machismo precisam de debates sérios e não de
ataques e mais ataques, muito embora sejam bandeiras que sofreram por todo esse
tempo com a repressão, não se podem valer de uma contrária máxima para se
legitimarem. A calma é necessária, pois processos revolucionários não se dão do
dia pra noite e sem uma base de ideais concreta em projetos firmes, para longe
dos simples discursos.
Não precisamos de aproveitadores que usam a bandeira das
causas para se promoverem e nem que ensinem a forma como se deve posicionar.
Não há manuais para atitudes revolucionárias, há ações e planejamento. Num
tempo em que a extrema direita se une pelo fascismo e extremismo religioso, a
esquerda cada vez mais se separa, se torna ela própria sua rival, ataca seus
próprios membros e tenta sobreviver com a voz elevada, sem o mínimo de preparo
para lidar com a burrice do outro lado.
A oposição nos fornece a pobreza de informações, as
explicações sem fundamentação teórica, a ausência de referências em livros; a
esquerda, formada em tese por intelectuais, grita rótulos, devolve pedradas e
pouco tenta explicar, dialogar. “Não há espaço para diálogo”, dirão os mais
extremistas. Mas uma sociedade democrática é fundada no diálogo, há de se
saber. Assim, o que podemos imaginar de um país onde o que se planeja de um
lado é a cegueira conservadora e do outro a desonestidade intelectual?! Não é
tempo de rotular, é tempo de ensinar. É tempo de expor as leituras e não dar
com os livros na cara de quem ainda quer aprender algo.
Sim, processos históricos podem ser explicados por
qualquer um que tenha conhecimento sobre eles. Ou já viram um historiador
branco não podendo falar sobre a construção do racismo no Brasil? Se há
conhecimento, ele precisa ser divulgado sem a preocupação ou medo de ser
rotulado pelos defensores da ideia errada de lugar de fala. Lugar de fala é
para as pessoas que superaram suas dificuldades e viveram na pele algum tipo de
preconceito falarem sobre a experiência e alertar a sociedade, não para somente
elas explicarem a história social de um país.
Estamos nos confundindo com o que a esquerda elitista tem
feito, querem lacrar mais do que ajudar no caos que vivemos. Vivem destes
holofotes porque não conseguem manter um diálogo sério sobre a melhora de um
país, pois não adianta defender bandeiras sem que com isso existam projetos
para que estas sejam inseridas na sociedade. Separando ideologicamente (e não
há comparações ao desastre presidencial que temos), assim como nosso atual
presidente, nossa esquerda cirandeira não possui um projeto político
organizado, pois depende do deboche para sobreviver e precisa fornecer material
para a oposição, sobretudo a rotulando ao invés de tentar ensiná-la.
Obviamente que precisamos dar um basta em todos os
preconceitos, mas o fato de rotularem todas as pessoas, tratando-as como
inferiores, coloca todo um viés de planejamento em xeque e os devolve uma
fomentação autoritária. Não há algo sério nesse país. Infelizmente, direita e
esquerda aqui estão longe do que realmente são em gênese e isso certamente me
afasta cada vez mais do que entenderam como lutas. Não posso lutar por um lado
que não quer manter diálogo e prefere atribuir a seus próprios integrantes
rotulações e nomeações que ninguém gostaria de receber. Afinal, não é pelo fato
de eu, homem, explicar o processo histórico da luta feminina que necessariamente
me torno um machista como os que agridem, ofendem e oprimem as mulheres e, sim,
o são. Em meio a tanta confusão, a nossa esquerda entrega a pauta para a extrema-direita
manter seu projeto completamente fascista e tosco, mas ainda assim mais
organizado.
Já vi, aliás, uma defesa recente de que o sistema de
Lenin era revolucionário e, portanto, a esquerda que não defende este tipo da
revolução estaria querendo se render ao capitalismo da direita e jogando contra
seu próprio espectro político. Por acaso não passa na cabeça destes advogados
de defesa que o poder corrompe e que uma ditadura da parte de baixo da pirâmide
a longo prazo se tornará tão injusta quanto outras? Eu não sei até que ponto é
necessário explicar que processos ditatoriais não podem ser defendidos em
hipótese alguma sob falso rótulo de revolução, mas se torna cansativo com o
tempo bater na mesma tecla. E se é isso que a nossa jovem esquerda cirandeira
militante de internet quer, temo lhes revelar que caminham em direção ao que
dizem combater a passos largos e arrogantes.
Deixo, depois desse manifesto de tristeza e decepção, a
seguinte pergunta à jovem esquerda brasileira: Qual será o primeiro passo
político para o crescimento do país após a revolução que tanto anseiam os levar
ao poder?

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