Quando eu decidi desafiar os céus

 


    Complexo. Reservado. Sarcástico. Por que não “louco”? Diria que sou assim. Não sempre, mas ao menos por hoje, sim. Sou, de maneira geral, indefinido. Um ponto de interrogação para quem vê de longe; um pouco mais esclarecido para aqueles que não me buscam por algum interesse. Conversei sobre essas coisas por esses dias, sem pretensão, como acho que as boas conversas devem ser. Não me pergunte sobre as razões que me levam a agir assim, até porque nem eu conseguiria explicar. Eu não acho que esse mundo faça algum sentido, aliás pretendo que ele seja muito mais meu adversário cotidiano que meu companheiro hipócrita. De fato meu jeito de lidar com a vida não me oferece uma fila de inimigos, mas me preocupo com a fila de admiradores ou com aqueles que me enxergam como inspiração pra algo. Por que - e acredito que Sócrates concordaria e talvez teria sua vida poupada por isso - os jovens não conseguem se guiar por conta própria? A grande verdade é que não consigo ser o centro de atenção de algo, me cansa a quantidade de bajulação que isso traz e me incomoda ter que distribuir inúmeras desculpas para não realizar algo àqueles que eu percebo que não possuem interesse em saber quem eu sou de verdade. Por que essas pessoas amam a minha superfície? Eu também gostaria de saber. Quase sempre o que faço é as ignorar, dar falsa atenção ou as testar em seus interesses para o meu humor mais interno fazer rir-se, como já acostumado ao engano. Eu gostaria de saber a razão pela qual eu mesmo não consigo encarar a minha passividade, pois é certo que não consigo seguir regras e me incomodam as hierarquias. Imagino que isso seja um gigantesco problema num mundo que prega cada vez mais a coletividade e também é uma solução lunática, um suicídio para a realidade. Claro, é perceptível que a única coisa que surge desse choque entre opostos só pode ser a criação de um novo mundo pessoal e é nele que passo a maior parte do tempo.

    Talvez pareça um pessimista àqueles que se arriscaram por conta própria a me conhecerem melhor, muito embora pareça alguém esperançoso aos primeiros olhares daqueles que não troco mais que uma dúzia de palavras. Eu, entretanto, não me considero nem um e nem outro. Possivelmente me colocaria na fronteira entre estas duas catástrofes. O pessimismo nos torna bem próximos da realidade, pois é a cisão com  a noção que nos venderam de que o mundo é belo. Nessa beleza estão contidas as guerras, a fome, a não-aceitação de ideias contrárias, o mito do amor e da família. Enfim, uma teia de mentiras que alguns ainda não conseguiram se livrar. Isso não é nenhum problema, mas é justamente por não conseguirem se libertar da ideia de que isso não mudará que se tornam esperançosos. É assustador e nem um pouco bonito ver que as pessoas precisam recorrer à existência de Deus ou à crença num mundo melhor para superarem essa realidade insuportável. É por isso que o título desse texto foi escolhido de maneira a assustar alguns e confortar outros. Afinal, por que não resolvemos ainda enfrentar os céus? Caso ainda não tenha ficado muito claro, o céu é toda essa ilusão perfeccionista em que a humanidade fez questão de se meter pra anular a normalidade de um mundo medíocre, tanto generalizado como individualmente. Não sonhe tanto, ainda que seu mundo exclusivo seja diferente e colorido, o nosso mundo ainda é isso aí.

    Eu entendo a boa intenção por trás de frases como: “Mas a fome não é normal”; “As guerras não podem continuar acontecendo”; “Aquela pessoa é legal, mas suas ideias não”. Mas e se a fome for mesmo a dura normalidade moderna? E se as guerras – que geraram também avanços tecnológicas – forem fundamentos necessários do progresso humano? Eu acrescentaria: que progresso?! Não me atreveria a responder. E se as pessoas por trás das ideias tolas são, também, grandes tolos cuja tolice seja profundamente inadmissível para nossa mente que cria ilusões na finalidade de negar que hajam pessoas verdadeiramente desprezíveis?! Isso significa que não devemos lutar para mudar o estado das coisas? Não. Mas só o fato de lutarmos para mudá-lo significa que este é o estado atual do mundo. Concorde ou não, tais coisas são, atualmente, normais. E é contra tudo normal demais que me posiciono. Gostaria de não decepcionar os que ainda me enxergam como alguém que definitivamente não sou, mas é esse complexo vazio que me representa. Se irá me encaixar na caixa do pessimismo ou do niilismo, temo que não conseguirá me manter por muito tempo dentro dela, pois se tem algo que alimento em mim é a capacidade de mudança. Sou profundamente inquieto, gosto do novo, das aventuras, das descobertas, muito embora as prefira realizar sozinho e sem alguém me fazendo perguntas o tempo todo. Eu não posso responder muitas coisas, repito que não sou o que acham que sou, mas algo posso afirmar para concluir todo esse pensamento: a sensação de sarcasmo perante o mundo é prazerosa, mas poder desafiar os céus é paradoxalmente a verdadeira dádiva da criação.

 

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