A Goetia de Hargrove e o perigo da Magia acessível


    

    Esses dias voltei a estudar algumas coisas que, confesso, havia deixado adormecer durante a pandemia. Mas tudo bem, mesmo um pouco enferrujado consegui alcançar o trem. Então, decidi polemizar algumas questões que não sei ao certo se me incomodam ou se me trazem alívio. Quem me conhece um pouco melhor do que costumo me mostrar sabe que não indico a ninguém estudar Magia ou ocultismo se não perceber que a pessoa está realmente interessada no assunto. Se você procura esse caminho por curiosidade ou como uma tentativa de colocar à prova forças que não conhece, eu nem mesmo faço questão de recomendar um livro ou artigo explicativo sobre o tema.
    
    Primeiro pelo fato de não me enxergar na condição de um guia pra alguém e segundo por ser realmente cauteloso em evitar colocar granadas sem pino na mão de bebês. Esses fatos são contornados, existem livros bem básicos do ocultismo que qualquer pessoa curiosa pode pegar, ler, não entender muita coisa e se decepcionar. Eu considero isso como um filtro, pois é muito comum desde a antiguidade esconderem segredos bem abaixo do nosso nariz. Essas leituras eu recomendo sem o menor problema, pois sei que são cansativas e podem afastar ali mesmo o curioso.

    Por exemplo, indicar a leitura do Livro da Lei, de Crowley, que é um dos mais complexos e mais lidos tanto por adeptos quanto por magos ou meramente curiosos, é uma forma de cansar aquele que não quer realmente estudar o ocultismo. A complexidade e o fato de dialogar com cada pessoa de uma forma diferente faz muitos desistirem e aí sim que mora o perigo de um ponto que vou entrar nesse texto.

    As ordens iniciáticas preparam o candidato muito bem se ele souber aproveitar as ferramentas que lhe são oferecidas. E com ferramentas eu falo desde o conteúdo teórico-prático até as pessoas que fazem parte delas, pois é muito comum iniciados pertencerem a mais de uma organização e portanto podem lhe esclarecer e orientar a partir das suas próprias experiências. É também por isso que costumam dizer que algumas ordens servem de trampolim para outras e eu não discordo. Se for algo que esteja alinhado com o seu interesse, aproveite as oportunidades pois elas irão surgir.

    No entanto, se você for como eu e preferir tentar seguir um caminho próprio e meio solitário, saiba que obstáculos grandes irão surgir e isso não deve ser desesperador. O fato de pertencer à ordens tradicionais facilita o aprendizado devido ao grande número de informações serem transmitidas oralmente e, portanto, raramente (ou nunca) encontradas em livros e grimórios. 

    Acontece que de uns tempos pra cá muita coisa vem sendo desvelada, descomplicada e facilitada para quem está fora de uma ordem. Para os estudantes sérios, isso é muito bom e positivo. Para os curiosos e despreparados, a bomba nunca esteve tão perto de explodir. 

    Essa semana me peguei estudando um dos sistemas mais atuais de Goetia. Se antes, nos grimórios de Salomão traduzidos por Samuel L. Mathers - e atualizados em novas abordagens por Crowley e DuQuette - o magista precisava de alguns aparatos, círculos desenhados no chão e uma firmeza ao tratar com as entidades, hoje muito disso se torna dispensável. 

    O método extremamente eficaz e prático de Corwin Hargrove é um prato cheio para qualquer estudante sério de ocultismo que busca uma forma mais simplificada de magia cerimonial que não envolva tantas orações, banimentos e longas recitações. Através do Pathworking, ou seja, uma espécie de caminho a ser criado pelo magista através de uma série de associações a serem feitas pela visualização criativa, o contato com os daemons se tornou tão rápido que assusta.

    Diferente de outros métodos de Goetia, no sistema de Hargrove você não evoca nada. Não há um triângulo em que você precisará inserir o sigilo e nem mesmo instrumentos mágicos a serem utilizados. É apenas você e sua mente. Essa acessibilidade ao mesmo tempo que nos economiza um gigantesco tempo, também serve de alerta para alguns perigos.

    O livro de Hargrove (ainda sem tradução no Brasil) é um dos que eu jamais recomendaria para um destes curiosos que descrevi no começo do texto. Embora não haja nenhum tipo de barganha no ritual e nem mesmo a necessidade de que se evoque algo, a energia densa que você irá trabalhar ainda é a mesma e não saber lidar com ela pode sim ser um problema.

    Claro que há ferramentas no livro para garantirem sua proteção, mas ainda assim essa seria uma das granadas que me referi anteriormente. Aqui você precisa traçar um caminho inverso, isto é, você não irá chamar nada, mas precisará visualizar a sua entrada na atmosfera da entidade a qual atenderá seu pedido. O resultado dependerá exclusivamente do magista e da força da sua Vontade, além de precisar contar com a coragem e a capacidade para desmistificar alguns termos bem corrompidos numa sociedade muito influenciada por um contexto cristão.

    São energias densas, que precisam ser respeitadas, mas não podem ser um motivo para que o magista tenha medo. O medo atrapalha tudo e pode causar alguns problemas que se negligenciados podem complicar mais ainda uma situação que de fato a solucionar.

    O sistema de Hargrove, ao menos na minha opinião, não deve ser estudado de forma isolada, sem a base dos grimórios antigos. Principalmente por ansiosos no mundo da magia, que querem tudo pra ontem e acordar sendo magos poderosos que dominarão o mundo a sua volta. A eficácia do método é sedutora e, como já ouvimos tanto por aí, o poder vicia e corrompe. 

    A grande questão é: até que ponto a magia acessível pode ser útil ou prejudicial? Embora seja uma pergunta que não pretendo dar resposta, é algo a se pensar. Que tipo de pessoa tem se aproximado do ocultismo? Por quais razões elas querem aprender as coisas? Elas estão preparadas pra lidar com sistemas tão simples, mas que envolvem energias tão densas? Cuidado com quem você conversa sobre alguns temas, a curiosidade nem sempre é algo bom e o caminho da Magia definitivamente não foi feito para ser trilhado por preguiçosos ou oportunistas. Esses caem...E o tombo é feio. 

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