A problematização excessiva e o cancelamento são pratos cheios para o conservadorismo em 2022

    


            

    Cá estou eu usando esse blog quase inativo para tocar em assuntos importantes mais uma vez, pois surge uma ameaça no horizonte novamente e parece que velhos erros estão se repetindo, colocando a política progressista em jogo. E pasme, pois o vilão é ninguém mais e ninguém menos que os próprios progressistas.

                A narrativa de direita-vilão e esquerda-mocinho acabou! E se não acabou, precisa acabar! Fazer política achando que se está brincando de super herói é um amadorismo ordinário pra um país que aspira sair do caos em que foi colocado pelas administrações superiores nos últimos tempos.

                A autocrítica precisa abraçar o reconhecimento de que houveram falhas em todos os espectros políticos que já governaram o país e a solução pra que isso tudo se resolva um dia é bem simples – na verdade, bem idiota e óbvia: o equilíbrio.

                É aqui que o adolescente ou jovem adulto que é viciado em criticar se não for algo extremo vai começar a desconfiar do meu lado político. Eu entendo, é difícil pensar além da caixinha que fomos inseridos e eu mesmo só me liguei que o progressismo brasileiro era muito mais de fachada que realmente concreto há poucos anos, mais precisamente depois das eleições.

                Partidos de esquerda que possuem projeção maior em zonas ricas, que usam do deboche, ironia e arrogância para se mostrarem superiores intelectualmente são o extremo oposto que a política do proletariado, daqueles que possuem pouca instrução, que não estão nas universidades e não entendem a linguagem cheia de pompa daqueles que se dizem defensores da liberdade e contra a própria opressão.

                “Você está sendo muito duro”, dirão. Estou! Estou sim! Porque é talvez dessa forma que iremos abrir os olhos de muitos e fazê-los acordar para uma realidade onde a inclusão é gradativa em uma sociedade que viveu por anos imersa numa cultura racista, sexista e homofóbica. Sim, queremos a união de todas as tribos, mas pra isso é preciso calma e estratégia. Conseguiremos, se pisarmos um pouco no freio.

                A eleição de Bolsonaro em 2018 causou comoção entre nossos círculos de amizade, nos fez afastar muita gente, romper laços importantes e com os ânimos acalorados daquele período isso foi tratado como normal. Evidente que isso aconteceria, já que as brigas pela defesa de cada um dos lados tomavam proporções grandes, nacionais e agressivas. Mas o que deu errado? Onde, senhores(as), estavam nossos erros? Bem embaixo do nosso nariz.

                O maior erro, sem dúvida alguma, foi o PT colocar um candidato para concorrer. Evidentemente que o partido sofria uma grande rejeição e isso fez com que muita gente nem mesmo fosse votar no segundo turno. Tínhamos boas opções pro poder, mas o erro veio da dita esquerda. Se no centro do furacão o erro era de um partido político, fora dele o erro era no modus operandi dos movimentos progressistas, que apesar de bem intencionados escolheram a pior abordagem possível: se você não está comigo, é meu inimigo!

                Pronto, estava entregue de bandeja uma narrativa maravilhosa pro conservadorismo. A mente brasileira que sim, é conservadora (apesar de termos inúmeras comemorações de cunho progressista no país) viu uma brecha pra criar todo um cenário irreal onde jovens tentariam impor uma militância que romperia os laços com o passado. O que era pra ser gradativo por parte da esquerda, foi escancarado, jogado na cara do conservadorismo como uma bomba. Todas as pautas vieram de uma vez e se você não concordava com elas – seja pelos costumes conservadores bem consolidados em parte da sociedade há tempos ou por simplesmente não concordar – você era inimigo. E hoje, amigos, você é cancelado.

                Eu entendo quem passou a vida oprimido, o exercício de empatia deve ser essencial nesse momento, mas não esqueçam que falamos de política. E de política que objetiva uma visão de mundo muuuuito distante daquela que o país cauterizou em sua mente ao longo desses anos, então é preciso ter calma pra não gerarmos o efeito contrário. Cabe ainda mencionar que existem aqueles que levantam bandeiras para se promoverem, são excessivos e acalorados, não ouvem o outro lado e acabam problematizando tantas situações que as pessoas saturam de tanta informação e passam a deslegitimar o que era pra ser muito sério. Esses precisam ouvir mais e segurarem a onda, pois são grandes ameaças ao movimento que dizem defender.

                Pra exemplificar tudo isso voltemos ao velho exemplo do Big Brother Brasil 21. Tão aclamado nas redes sociais e caracterizado por um clima pesado, com militâncias em excesso, onde todos entraram com medo de errar e serem cancelados, o que ameaça de verdade um projeto progressista mais uma vez. Pra começar, antes mesmo de iniciar o programa temos o caso da youtuber Viih Tube. Viih Tube já entrou cancelada no programa pela internet por um erro que cometeu quando tinha 14 anos, seis anos atrás já que hoje tem 20.

                 Sim, amigos. A youtuber recebe críticas até hoje, é hostilizada e foi sumariamente atacada logo que seu nome foi anunciado na atração. As pessoas que pregam tanto a aceitabilidade e a desconstrução de velhos pensamentos e comportamentos deram com a língua nos dentes e fizeram exatamente o oposto do que mais pregam. Volto a dizer: uma pauta hipócrita e excelente pro conservadorismo abocanhar novamente e tomar a narrativa pra si.

                Essa não é uma militância séria, por isso até mesmo o termo “militante” vem sendo ironizado na internet, tanto por conservadores quanto por progressistas que já perceberam que há uma hipocrisia grande no movimento e que essa autocrítica teima em não entrar na cabeça dos jovens de esquerda. A ideia que passa é que você não pode errar, o menor erro – até mesmo de cunho estrutural, ou seja, sem a intenção – vira alvo de problematização excessiva e logo em seguida cancelamento. Que ideia é essa de que a esquerda é intelectual e a direita é burra? Politicamente a direita brasileira é muito mais estratégica e unificada que a esquerda. Quase não sofre brigas internas, possui blocos hegemônicos nos partidos e vendem um discurso simplista que angaria votos com muito mais facilidade.

                O ar arrogante de parte da esquerda aliado ao intelectualismo de boteco, onde você nem sabe quem é Marx mas se diz comunista e na hora de defender o ponto se enrola todo, empurram pra cova um movimento sério. Sejamos diretos: amigão, você precisa ouvir! O desespero do jovem por querer se sentir inserido em algo, em querer ser aceito, o pressiona a sair levantando tudo que é defesa, sem saber as causas reais e fazendo com que a militância verdadeira seja mal vista.

                Os dias passaram e alguns personagens do reality ganharam uma imunidade em votação popular pelo público. Os estereótipos de pessoas desconstruídas, militantes e progressistas fizeram Lumena e o famoso Fiuk imunes na primeira semana. As redes aclamavam os dois, até se depararem com o que de fato são. Mais uma vez os estereótipos não serviram pra nada e voltarei nesse assunto mais adiante. Lumena militou corretamente na primeira vez em relação aos trejeitos que participantes faziam quando estavam maquiados. Uma pauta importante e que seria abraçada, se não fosse o modus operandi adotado pela moça.

                Fiuk, Rodolffo, Gilberto, Projota e Caio estavam na brincadeira, mas Lumena almejou quem para direcionar sua aula? Caio. O bolsominion, agroboy, ogro, “pouco instruído”, com naipe de machistão e menos famoso entre todos. E é aqui que temos que entender que apesar de tudo, o BBB ainda é um jogo, onde queimar seu adversário é um caminho fácil pra eliminar a concorrência e você alcançar o prêmio. A pauta que era séria, saiu como assunto bobo na internet. Logo as pessoas se solidarizaram com Caio por ser visto como inferior por Lumena – e as semanas provam que é isso mesmo que ela viu nele - e o rapaz saiu bem da discussão, mostrando que está disposto a abandonar comportamentos tóxicos enquanto a moça errou rude, errou feio na abordagem que virou narrativa de perseguição durante a festa seguinte onde ela tentou reunir votos no rapaz, que já havia se desculpado.

                O perfil de Lumena, uma psicóloga que milita por causas LGBT e negra, é encontrado a rodo nos meios progressistas. Claro que precisamos enxergá-la dentro do jogo, porque não sabemos como a moça é aqui fora, mas a arrogância, prepotência, ar de superioridade e o achismo por achar que detém todo o conhecimento do mundo é o tipo de personalidade mais encontrado na militância política atual. Chegamos então em Fiuk, que puxou a situação toda pra si e quase pediu desculpa por ser homem, entrando num lugar de fala que não era seu e jogando a culpa de toda desgraça do mundo em sua cor, orientação sexual e privilégios. Chacota! Fiuk é outro perfil encontrado nos meios progressistas: aquele jovem que não sabe de porra nenhuma, é good vibes, não lê nada que referencie suas defesas políticas, mas paga de evoluído e desconstruído, tudo pra um único objetivo: pegar mulher e ser popular. É o famoso esquerdomacho.

                Enquanto isso, do outro lado, Caio e Rodolffo, dois eleitores do Bolsonaro, se mostravam coerentes, com uma fala deste último dizendo que as coisas precisavam ir com calma pois não dá pra se desconstruir 30 anos em 3 dias. Perfeito na sua fala! Rodolffo, um suposto conservador, entendeu muito mais o que deve ser feito que a própria esquerda cirandeira lacradora. Pegou sua humildade, não rebateu, não discutiu e foi viver em paz sabendo que o processo é lento.

                Lumena seguia militando errado: proibiu Juliette de usar branco na sexta por conta de sua religião; problematizou a demora da menina no confessionário fazendo uma dramatização ridícula: “você me impediu de expressar meus sentimentos verdadeiros com a casa”; pediu para Arthur apagar todas as experiências que tinha de se vestir como mulher em carnaval para cumprir uma regra do programa (o monstro) para que não fosse ofensivo; disse para Lucas que em dois segundos muitas pessoas morrem, quando o menino dispersou da conversa por um curto momento. Enfim…Problematizou tudo, irritou todos e mais uma vez ajudou a levar a ideia de que a militância inteira é essa chatice para os conservadores.

                Lucas também não está isento, criou uma narrativa doida na sua mente onde saiu acusando metade da casa de racista, comparou Kerline a Hitler e Stalin, quis unir negros contra brancos, obrigou uma desconstrução relâmpago a acontecer nos participantes e olha aí, outra vez evidenciou que dentro da esquerda tem tanta gente tóxica quanto na direita. Claro, a bebida teve muita influência no menino, mas discursos tão invasivos assim são vistos em militantes sóbrios com muita frequência.

                Por último, Karol Konka vem sendo a grande decepção na internet. Embora eu ache o Fiuk o maior cavalo de troia do progressismo brasileiro, Karol não fica pra trás ao viver tecendo críticas pelos trejeitos nordestinos de Juliette, seus comportamentos e inclusive se colocando acima da menina pelo simples fato de ter nascido em um outro estado. Olha onde estamos indo, senhores! Na edição em que temos um grande número de ditos progressistas, são justamente eles que estão mostrando ser pessoas tenebrosas no reality. Enquanto isso, o lado supostamente conservador ganha pontos pela leveza, simplicidade e harmonia com o público. Os crossfiteiros – que estereotipam como machos tóxicos – não falam mal de ninguém e vivem rindo um do outro, se colocaram dispostos a ouvir e melhorarem; os agroboys também, pois fazem o público rir e se colocam abertos à desconstrução.

                Por último, vamos abordar o paredão dessa semana e o movimento que está ocorrendo nas redes. Rodolffo está emparedado com Sarah e Kerline e embora tenha um comportamento agradável na casa, já está sendo alvo de cancelamento pelo motivo de: votou no Bolsonaro. Aparentemente, a esquerda lacradora não quer saber se o cara é uma boa pessoa (sim, iludido, existe eleitor do Bolsonaro que é boa pessoa, caso não saiba), não faz questão que ele se coloque contra a ofensividade das bandeiras mal levantadas no programa, esquecem todo um processo do rapaz ali dentro pra se apegarem a coisas do passado, como no caso da Viih Tube. Usam o que você já fez pra te excluírem, cancelarem, e se você quer se desconstruir ou ouvir, foda-se, não querem te ensinar porque você votou em quem eles não queriam.

                Isso é arrogante, intolerante e exclui o fato de que pessoas possuem motivos diferentes para votarem. Nem todos que votaram no Bolsonaro foram de acordo com seus pensamentos; nem todos ainda o defendem; nem todos o idolatram. Calma! Por favor, calma! Pois do jeito que está, 2022 será um prato cheio pra uma reeleição do atual presidente e nós, progressistas, ficaremos com o dedo na boca mais uma vez. Vocês precisam aprender a ouvir, se colocar no lugar dos outros, entender que processo de desconstrução é gradativo e não de um dia pro outro. Parem de achar que conservadores são ruins e nós somos bons, princípio básico da política em que não existem vilões e heróis, como disse no começo do texto. Se continuarem assim, vocês serão o cabo eleitoral de um novo extremista conservador. E depois a arrogância vai impedir mais uma vez de enxergarem que são tão falhos quanto qualquer outro ser humano. Queríamos tanto dar um livro pra quem era de direita, né?! Agora somos nós que precisamos rever o que lemos. PRA ONTEM!

    Ah, e vamos parar de trazer política pra reality. Quando der, vale a crítica construtiva e tocar em pautas importantes, mas usar isso pra eliminar um ou outro concorrente já virou algo doentio. Ainda é um programa de entretenimento e não uma reunião da câmara. E se eu for cancelado por alguém que leu esse texto, deixo meu mais sincero foda-se! Se enterre na sua arrogância intelectual.

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