Quando um estudante da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung encontra um estudante de ocultismo, muito provavelmente uma conversa de "coincidências" irá se desenrolar se ambos estiverem dispostos ao papo. E nem precisamos ir muito longe pra saber que o antigo pupilo de Freud adentrou nessas mesmas águas misteriosas para desenvolver sua própria teoria psicológica.
Como parte considerável de todo o trabalho de Jung foi baseado em literatura antiga, como nas obras dos célebres alquimistas, era comum que cedo ou tarde ele encontraria um pouco mais de profundidade nos temas relacionados à psique humana. Simbolicamente o trabalho do psiquiatra suíço é riquíssimo, fruto de uma pesquisa profunda e de um autoconhecimento notório.
A história que cruza Jung com o mundo do ocultismo não é apenas uma especulação, pois qualquer estudante sério de magia percebe que existem referências notórias em todo o seu trabalho a conceitos místicos que apenas mudaram de nome dentro da sua teoria da psique. Inclusive, há uma grande honra por parte dos maçons em considerar o pai de Jung como um importante Irmão, o que significa que em algum sentido a noção de simbologia de Gustav não era rasa, muito pelo contrário.
Poderíamos dar sequência a partir daqui abordando os termos cunhados por ele como self ou o inconsciente coletivo, mas preferi me ater ao que Carl Jung chamava de sombra. A partir disso, será que podemos realmente traçar suas ideias com alguma outra presente no mundo do ocultismo? A resposta direta para isso é um grandioso "sim". Já digo também que embora a relação seja bem grande nesse tema específico, eu não saberia dizer se concordo 100% com ela.
Muito se sabe sobre o sistema mágico que segundo diversas lendas Salomão teria utilizado há séculos atrás para controlar entidades e as fazer o servir. Seus manuscritos demoraram até chegar nas mãos do grande público na era moderna, mas quando finalmente chegaram revelou um mundo de possibilidades e variações que se ampliam cada vez mais.
Traduzido pelas mãos de Samuel Mathers - um dos fundadores da Golden Dawn - com a ajuda posterior de Aleister Crowley, As Clavículas de Salomão é considerado um clássico do ocultismo e suas revelações são incríveis. No livro estão contidas descrições de como Salomão fazia para controlar as entidades, de como as evocava e como esse sistema pode ser aplicado nos dias de hoje e toda essa vinda ao público expandiu o campo de debates que antes aconteciam na restrição de diversas Ordens Iniciáticas.
E esses debates são constantes em qualquer grupo ocultista, principalmente acerca do Lemegeton - A Chave Menor de Salomão - que reúne 5 livros densos e recheados de história acerca das entidades, seus sigilos e habilidades que poderiam ajudar o magista de inúmeras formas. Desses livros, certamente o mais conhecido é o Ars Goetia, que ensina a como trabalhar diretamente com as entidades, quais instrumentos precisam ser utilizados e como devem ser confeccionados os sigilos.
É no Ars Goetia que estão listados os nomes das 72 entidades controladas por Salomão, que historicamente ganharam o nome de daemons. A palavra vem do grego e pode ser traduzida como espíritos, seres - ou espécies de consciências externas - que entram em contato com a nossa realidade. Platão, quando falava do pai da filosofia, Sócrates, já nos contava que seu mestre tinha um daemon que sussurrava ideias no seu ouvido.
E a ideia ritualística da Goetia é justamente essa: fazer com que o mago se conheça cada vez mais, fazendo proveito dessas forças antigas e poderosíssimas. Claro, algumas teorias categorizam os daemons como divindades antigas que com o tempo perderam adoração e por isso sofreram uma espécie de rejeição divina, sendo obrigadas a trabalhar em favor da humanidade quando pedidas.
Como as narrativas sobre os daemons é bem antiga e anterior à consolidação do cristianismo, a religião que surgiria posteriormente destruindo inúmeras formas de culturas e cultos conferiu um outro nome a estas entidades, passando a chamá-las de demônios e as fez assumir um tom de temor que hoje assombra o imaginário das pessoas que não podem nem ouvir o nome "Goetia" sem ficarem assustadas.
De certa forma essa nomeação perverteu a ideia inicial de que os daemons eram seres que ajudariam o magista quando evocadas e assumiu uma ideia de que são seres maléficos, mas por outro lado também ajudou a consolidar o fato de que por serem seres primitivos o contato com eles pode ser extremamente hostil, levando pessoas despreparadas a meter os pés pelas mãos e muitas até mesmo à loucura.
Dentro da Goetia são encontrados daemons que podem recepcionar de forma nobre o mago até aqueles que podem ser verdadeiramente agressivos e intimidadores, por isso é necessário que a Vontade do operador seja firme e que acima de tudo se trate as entidades com enorme respeito. Por serem consciências primitivas, é comum elas atenderem os mais diversos pedidos, desde que para isso o mago seja merecedor. É uma via de mão dupla, pois da mesma forma que pessoas utilizam o sistema para enriquecer ou conseguir sucesso na vida amorosa, outros fazem uso para matar pessoas, cometerem vinganças e etc.
Mas qual a relação dessas entidades com as sombras de Jung mencionadas no início do texto? Alguns autores como o mago Lon Millo DuQuette e o psicólogo e ocultista Christopher Hyatt, defendem a ideia de que o ritual de Goetia é uma espécie de evocação dos aspectos mais internos da nossa psique armazenados no nosso inconsciente. Assim, quando você evoca determinado daemon durante o ritual, o que você está fazendo, na verdade, é trazer sua sombra para a consciência e a enfrentando.
A materialização do daemon ou a clariaudiência presenciadas na evocação nada mais são que um contato direto do magista com seus aspectos escondidos lá no inconsciente e que você não quer que ninguém descubra. Por isso estes rituais são tão arriscados, já que é como você estivesse de frente com seus próprios defeitos ou elementos psíquicos rejeitados pela sua consciência. Algumas pessoas o superam e o integram à consciência, isto é, abraçam sua sombra; já outras sucumbem e são posteriormente vampirizadas por si mesmas.
Pela proposta apresentada por Carl Jung, podemos perceber que essa visão da Goetia não é necessariamente nova, o que ocorre é que Jung muito provavelmente só não queria "dar nome aos bois". Ainda assim essa relação traçada por DuQuette e Hyatt são geniais e fazem total sentido, pois é princípio da magia que a Vontade, a superação e conhecimento de si mesmo sejam objetos componentes na vida ritualística do mago.
Entretanto, apesar de achar bem revolucionária, essa não é uma visão que me agrada. Gosto de acreditar que os daemons são realmente entidades ou espíritos poderosos e ancestrais que podem até residir arquetipicamente no inconsciente coletivo como forças da natureza, mas que são independentes da nossa consciência para existir. Isso me faz enxergá-los com mais liberdade de ação e não tão dependentes de mim para que atuem como eu desejo.
Ontem mesmo realizei a primeira experiência com o sistema de Goetia proposto por Corwin Hargrove e um misto de sensações foi produzido. Eu não pensei que o daemon utilizado - na ocasião, trabalhei com Murmus - era algo interno meu sendo projetado, o que penso ser perigoso já que estaria responsabilizando e jogando uma energia densa e de difícil controle para o meu estado mental suscetível no momento do ritual.
Durante o ritual, a energia densa pode ser sentida por aqueles que estão mais predispostos. Eu a senti mais fortemente quando me aproximei do momento da passagem do pedido para o daemon. O fato de você visualizar o sigilo e ter que repetir o nome da entidade, entrando aos poucos em sintonia com sua faixa vibracional não me causaram medo, mas sim uma espécie de tensão - que não hesitaria em dizer que também é excitante e particularmente viciante.
O fato é que o desejo foi transferido, atendido e o sistema - pelo menos para mim - se mostrou bem eficaz. E esse texto me pareceu necessário a título de expandir algumas curiosidades sobre o sistema, traçar esse paralelo com as ideias de Jung, me posicionar sobre a visão moderna da Goetia e tentar cortar alguns medos ou preconceitos que algumas pessoas possam ter com esse tipo de magia. Se usada com disciplina, com preparo e cuidado, não importa se você acha que está mexendo com suas sombras ou com entidades verdadeiras, mas sim que você tenha respeito, se não com elas, consigo mesmo.

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