O existencialismo de Donnie Darko: ou você abraça a vida ou a vida te abraça



Donnie Darko é um clássico cult dos anos 2000, com um elenco estrelado e que fez pouco barulho no mainstream do cinema quando lançado. A julgar pela temática do filme, isso não surpreende e chega até a ser poético o fato de ter sido um fracasso de bilheteria. Complexo, um tanto quanto confuso pra espectadores de primeira viagem e intrigante por abordar temas sombrios e sutilmente colocados em segundo plano como o medo da solidão e a angústia, o filme é um material profundo para quem gosta da filosofia existencialista e a adota pra própria vida, além de proporcionar reflexões sobre a sociedade moderna.

Pode-se dizer que Donnie é uma espécie de Mersault, personagem do livro "O Estrangeiro" de Albert Camus. Indiferente, esquisito, com forte sentimento de não-pertencimento, o qual não é declarado diretamente mas logo é apontado nas cenas iniciais. O personagem principal inicia a história no topo de uma montanha, acordando reflexivo e dando um sorriso enigmático. Logo voltarei nesse assunto. Sua família não demonstra dar tanta falta assim da sua presença, já que o menino é sonâmbulo e aparenta repetir as saídas várias vezes. Ele desce a montanha, passa por sua mãe sem que troquem uma palavra e encontra a grande temática existencial do filme escrita em sua geladeira: "Onde Donnie está?"

Essa é uma cena bem sutil, mas com uma poderosa mensagem. Podemos pensar que é só uma dúvida corriqueira da família, que quer saber onde o filho se encontra, mas no decorrer do filme iremos perceber que essa é uma dúvida que estará fixa na cabeça do menino em todos os momentos de sua trajetória. Na sequência de cenas temos o jantar em família, onde percebemos a relação deslocada do menino com seus pais e irmãs. Até que naquela noite as possibilidades de mudança na sua vida surgem, quando ele é visitado pelo macabro coelho Frank que o salva da morte ao tirá-lo da cama antes que uma turbina de avião caia exatamente no seu quarto. Aquela figura vem lhe informar sobre o fim do mundo e da importância de Donnie em ser uma espécie de herói daquela realidade.

A cena seguinte é o tão bem falado plano-sequência ao som de "Head Over Heels" do Tears For Fears, em que a dinâmica da escola da cidade é mostrada e entendida numa única tomada: alunos valentões, estudantes usando droga no corredor e o diretor olhando como se fosse normal, as professoras sendo hostis umas com as outras, o bullying e a xenofobia. Tudo em uma tomada esteticamente perfeita, que entrega uma sociedade que justifica Donnie sentir-se tão alheio. A vida ali representada é padronizada, voltada para uma educação pouco crítica, que é censurada quando foge da linha e baseada em ensinamentos simplistas da vida cotidiana. Você pode usar drogas, desde que alimente o sistema aprisionador se tornando uma massa de manobra obediente.

Em todo momento - a se evidenciar nas sessões com a psiquiatra - observamos Donnie como uma pessoa angustiada, como se não soubesse seu papel naquele mundo e que ao mesmo tempo não consegue reagir para mudar isso pela falta de um impulso. Ao seu redor, o absurdo camusiano toma conta, as coisas são jogadas, soltas, como se nada fosse coerente para o menino. É nesses momentos que ele se mostra com medo da solidão, chegando a pensar que a frase da personagem Vovó Morte dita para ele no início do filme começa a ter significado: "Toda criatura no mundo morre sozinha". Donnie até mesmo julga ter tentado encontrar sentido para não se sentir assim, mas sempre em vão. A angústia existencialista é caracterizada justamente por esse incômodo de que algo precisa ser feito pra que você se movimente diante do mundo, não há certezas e você se torna livre para escolher e até mesmo não escolher configura-se em uma escolha. O ideal é não esperar nada do seu redor e tomar as rédeas da própria existência.

Ele também é suspenso das aulas de educação física ao criticar a filosofia do personagem messiânico Jim Cunningham, adotada pela professora conservadora Kitty Farmer, de que a vida seria dividida em dois grandes espectros: o medo e o amor. Para Donnie, essa era uma visão simplista, já que a vida é muito mais complexa e seu questionamento durante um exercício da disciplina o leva a cometer um ato de rebeldia que o faz ser punido pela escola.

Existem paralelos a serem tratados aqui com o ensino atual, onde geralmente conteúdos ainda são pouco debatidos e muito mais impostos. É como aceitarmos o fato de que decorar os elementos químicos ou bhaskara é importante, enquanto disciplinas como filosofia e sociologia - que estimulam o pensamento crítico - são aceitáveis terem carga horária reduzia. Isso ocorre no filme quando a própria professora Farmer critica de forma agressiva os livros lidos em aula pela professora de literatura, interpretada por Drew Barrimore.

Mas o papel de Donnie ainda não está claro pro espectador. Embora ele se rebele, se sinta um estranho solitário e esteja confrontando todo o status-quo daqueles ambientes, ele ainda pode ser visto como um vândalo incentivado por um coelho aparentemente imaginário a cometer atos inaceitáveis. Para estereotipar mais ainda o problemático garoto, ele ganha o diagnóstico de esquizofrenia, se tornando agora um outsider de fato.

Em "O Mito de Sísifo", Camus nos conta a história de Sísifo, fadado a ter que rolar uma pedra de volta ao topo de um monte por ter traído os deuses em amor aos homens. No livro, Camus irá tratar esse mito como algo absurdo, uma repetição eterna comparada ao modelo de vida atual e repetitivo onde o trabalho ocupa grande espaço de nosso tempo e o lazer é apenas devolver o capital adquirido com esforço para um grande sistema continuar funcionando. No entanto, Camus aponta que o amor pela humanidade em Sísifo o faz sentir prazer de alguma forma ao rolar de volta a pedra ao topo da colina.

Lembre-se que Donnie inicia o filme no topo de uma colina, que ele tem um papel importante para aquele mundo e que seu processo de angústia o direciona cada vez mais para a finalidade de seu trabalho. Donnie, como um jovem sem grandes vínculos estabelecidos, só irá descobrir o que precisa fazer quando conhece o amor, representado na figura de Gretchen. A menina nova da escola tem uma vida trágica e sempre podemos a enxergar como alguém que sofre em demasia e de certa forma procura também um sentido no mundo. Isso se torna perceptível no momento em que ela se nega a beijar Donnie, pois queria que aquele momento fosse realizado quando ela pudesse ter a certeza de que o mundo poderia ter algo belo para oferecer um dia e curiosamente é num momento em que ela é vítima de bullying pelos valentões da escola que ela beija o menino. Simbolicamente é a representação de que talvez o mundo não tenha nada de belo pra oferecer e que nós precisamos mesmo criar um sentido pra que ele funcione pra nós de alguma forma.

O paralelo de Sísifo e Donnie se torna evidente após percebermos essas metáforas. A menina que o levará a abraçar o seu destino, numa proposição bem nietzscheana de amor fati. Aliás, Nietzsche pode ser percebido em diversos elementos do filme. O fato de nos parecer que o tempo de Donnie Darko está girando em círculos, ou seja, que todos aqueles eventos sempre irão acontecer até que a solução final seja dada, nos aproxima com a ideia do filósofo de eterno retorno. Além disso, Frank é uma espécie de vontade de potência materializada para Donnie, aquela inclinação para que ele tome seus posicionamentos diante de sua vida e culmine no abraçar do seu destino, mesmo que isso doa e cause sofrimento.

Uma outra atenção deve ser dada à trilha sonora. Nenhuma música foi colocada aleatoriamente e as letras são bem significativas. O filme se inicia com "Killing Moon" da banda Echo & The Bunnymen e esse é um trecho curioso pois praticamente resume o filme:

“Sob a lua azul eu te vi. Muito em breve você irá me levar em seus braços. Tarde demais para implorar ou cancelar isso. Embora eu saiba que esta seja a hora mortal, involuntariamente minha. O destino, contra sua vontade, para o que der e vier, esperará até que você se entregue a ele”

Repare que ela é um tanto quanto fatalista, como se algo fosse necessário acontecer e alguém hesitasse em assumir esse papel. Quando lemos que o destino irá esperar até que se entregue a ele, temos então uma possível referência ao tempo cíclico, como se todo aquele sofrimento e angústia dos personagens da trama só fossem solucionados quando alguém abraçasse seu caminho. Até lá, no entanto, as pessoas continuariam tendo suas vidas marcadas por tragédias inexplicáveis e possivelmente levando uma vida de aparências.

Outra parte relevante de profunda reflexão existencialista que evidencia a vida de aparências é a conversa de Donnie com Frank no cinema. Donnie o questiona sobre usar uma fantasia idiota de coelho e ele imediatamente o rebate questionando sobre o uso de uma "fantasia idiota de homem". Se encararmos Frank como a vontade de potência manifesta do personagem principal, entenderemos que o que ele está dizendo com essa frase é muito mais um impulso para que ele se revele ser quem é, que cumpra com seu papel de questionador e supere seus próprios medos. Agora pergunto: você ainda usa uma fantasia idiota de humano?

Nos momentos finais é onde acompanharemos toda a rede de eventos do filme se entrelaçando. Gretchen nos entrega uma frase a se pensar em um diálogo com Donnie: "Algumas pessoas nascem com a tragédia em seu sangue". Uma inconformada e realista verdade, que parte de um pessimismo filosófico pra constatar que sim, existem pessoas que por mais que refaçam seu caminho ainda encontrarão o sofrimento como obstáculo. Aliás, o sofrimento é comum a todos, a tragédia é viver em um mundo que se preocupa muito em ser feliz na medida em que esquece de vivenciar os pequenos lampejos da própria felicidade. Gretchen é quase que uma representação da filosofia de Schopenhauer por inteiro. Enquanto isso, a música que ouvimos é um clássico de Joy Division, "Love Will Tear Us Apart".

E assim a gente é direcionado ao final do filme, com o sacrifício do herói trágico em função de salvar do cruel destino da morte a única pessoa que provavelmente amou. O trabalho de Sísifo está concluído, sem que ele precise retornar à montanha novamente. Aquele mundo de fato não era o lugar de Donnie, uma consciência que estava na frente do seu tempo, reflexiva e genial, que não se rendia ao modelo proposto pela modernidade. Ele confronta professores, encara uma figura messiânica idolatrada pelos pais o revelando como aproveitador, se assume com medo de viver sozinho e por fim abraça o seu único e possível caminho para aquela realidade. Ao som de "Mad World", interpretada por Gary Jule, finalmente nos despedimos da trágica história de Donnie, uma existência que superou a angústia e abraçou e foi abraçada pelo seu próprio destino.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Esse foi o resumo de um artigo maior que venho escrevendo sobre o filme. Ainda está longe de estar finalizado e nele pretendo me aprofundar mais ainda nas cenas, letras de música, personagens e referências filosóficas ligadas diretamente ao existencialismo (Sartre, Kierkegaard, Heidegger etc). Para quem ainda não assistiu o filme, vale o visitar. Digo mais: vale o visitar quantas vezes for possível. A cada vez que é assistido algum novo detalhe é capturado e mesmo que o diretor Richard Kelly tenha dado sua versão definitiva para o filme, o clássico até hoje consegue despertar nos fãs novas teorias e discussões que nunca chegarão ao fim. Donnie Darko é paradoxalmente atemporal em todos os seus temas.



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