Visitar nosso lado mais sombrio não é uma tarefa fácil, uma vez mexendo nele muitas coisas terão que ser reconhecidas, educadas e reinseridas no nosso eu. Pensei bem se iria realmente entregar tantos pontos da minha vida assim, em um texto, mas acho que isso funciona mais como um grito necessário, que ajuda no meu autoconhecimento, do que como uma pequena e tosca biografia, sei lá. É clara a referência a Nietzsche no título e ao menos que você não queira conhecer quem eu sou verdadeiramente, recomendo que feche esse texto.
Eu nunca escondi de ninguém que gosto de ficar calado. Costumo tratar as relações sociais como uma espécie de tática de guerra: observo, estudo o ambiente, ouço os assuntos, pra só depois saber se me relaciono ou não naquele meio. Muitas vezes faço isso tudo, percebo que aquilo não é pra mim e mesmo assim me faço estar ali. Os motivos são dois: um desafio (e eu gosto de me desafiar) e um estudo. Encaro mesmo a vida como um jogo de xadrez.
Demorei até entender alguns processos pessoais meus, lutei contra isso por muito tempo até perceber que não havia mais sentido e eu acabaria perdendo pra minha razão. O que quero dizer é que faz pouco tempo que me reconheci como um assexual, isto é, dei nome aos bois, pois sempre soube que havia algo diferente comigo.
Sim, minha criação foi bem afastada/isolada da realidade dos adolescentes da minha época (tá, usar "época" sendo alguém de 26 anos é bem estranho). Enquanto muitos dos meus colegas iam pras festas, contavam com quantas pessoas haviam ficado e detalhavam o que faziam, eu me sentia deslocado, incomodado. Não sabia ao certo se era pelo fato de ser algo distante do que vivia, se era por estar sempre empilhado junto com os livros ou uma simples timidez.
Ainda nessa fase, percebi que nada estava relacionado com o fato de ser tímido. E isso aconteceu quando me dei conta de que só ficava desconfortável quando o assunto envolvia relações, vamos dizer...amorosas. Não havia muito diálogo com os meus pais, até hoje não há, era como se realmente a escola ou qualquer círculo social fosse uma tortura e eu nem daqui fosse. Sem compreender o que se passava, eu só conseguia chegar em casa e muitas vezes apenas chorar. E precisava fazer escondido, porque não saberia explicar a razão do choro.
Não tinha o que fazer, eu não conseguia demonstrar afeto e quando achava que estava avançando, era como se algo me puxasse pra trás e me segurasse. A única saída que encontrei pra suportar aquela pressão foi começar a criar uma espécie de personagem alegre e que vivia fazendo piadas. Talvez por isso a primeira palavra que tenha pensado em como me senti assistindo "Coringa" foi "amparado". Era uma rota de fuga, não podia ser eu, afinal de contas ficar com pessoas, transar e namorar eram coisas perfeitamente normais pros jovens...e eu definitivamente não era normal.
Um lado racional meu passou a tomar cada vez mais conta de mim e o que parecia ser um personagem feito pra precisar me enturmar se tornou eu mesmo. Já havia esquecido quem eu era de verdade, muitas vezes enxergava o mundo de uma forma sádica e não me assustava com isso. Ainda não tinha capacidade de criar um mundo só pra mim, precisava viver nesse, fugindo de quem eu realmente era.
Eu precisava me tornar meu próprio amigo, meu aliado, alguém que falasse de coisas das quais não fizesse me sentir desconfortável. Daí o fato de muitas vezes viver elogiando a mim mesmo. Não é algo narcísico, é apenas uma consequência por ter repetido tantas vezes pra mim mesmo que precisava ser forte. Como me aproximava cada vez mais das coisas abstratas (livros e música), a forma pra manter o elo com o que estava ao meu redor sem que pra isso me sentisse inferior era justamente repetindo elogios, quase como um mantra.
Aliás, essa era uma enorme pedra no sapato. Não sabia lidar com elogios externos, até hoje olho torto quando me chamam de inteligente e é algo que realmente ergui uma barreira para não ter que ouvir por muito tempo. Na minha cabeça era como se coroassem o fato de eu ter me afastado do mundo e me dedicado aos livros, quando na verdade eu não tinha o que fazer na sociedade e era um completo estrangeiro em qualquer círculo social.
A minha família, em geral, também nunca teve proximidade ou liberdade comigo. Ninguém sabe dos meus pensamentos, do que gosto ou não, como sou ou não...Tenho a profunda impressão de que me acham um completo estranho, já pude comprovar isso de algumas partes e é algo que precisei não ligar se quisesse seguir em frente. Apenas sabem que nunca namorei, as deduções que tiram disso variam e eu não acho que queiram saber realmente o motivo, por isso especulam e por isso deixo que pensem que é por estar focado nos estudos.
Curiosamente não me considero um pessimista, mas um realista viciado em fugir da realidade. Cometi o erro de ir atrás de transtornos nos quais pudesse me encaixar (um dos principais passatempos de quem cursa psicologia) e em algum momento cheguei a pensar que sofria de uma espécie de transtorno de personalidade esquizoide (TPE) ou Síndrome do Estrangeiro (ref: livro homônimo da autora Malu Balona). Visitar páginas ou literatura que falam sobre esses temas, ou sobre a assexualidade, é um soco no estômago, como se eu estivesse sendo exposto, apesar de reconhecer que se auto-diagnosticar TPE é só uma piada ruim e outra tentativa de se encaixar pra se entender.
No sentido de se envolver afetivamente com alguém (e aqui eu vou me usar como referência pro que irei falar), o assexual pode agir de inúmeras formas. A grande maioria é avessa ao sexo e ao contrário do que muitos pensam não agem assim de forma forçada, é como se você simplesmente não visse necessidade mesmo. A atração por outra pessoa se dá geralmente de forma intelectual, encaro como algo mais puro, sem segundas intenções, e mesmo que envolva características físicas, essas não são suficientes pra que prenda a atenção.
Por medo de rejeição, por achar que não será suficiente, se comparar a outros e demorar a entender o que sente, as pessoas com essa orientação sexual preferem fugir dos relacionamentos. Se entram em um, acabam tendo uma visão da relação muito mais romântica ou racional que sexualizada, sendo comum cederem aos desejos sexuais do(a) parceiro(a) para o(a) agradar. Alguns manifestam sim o desejo sexual, mas estão em minoria ou só o manifestam com pessoas que realmente se envolvem sentimentalmente, sendo contrários a lances casuais (como os demissexuais, que pertencem ao espectro).
Se quiser conhecer melhor como é a vida de alguém assim que seja pública, leia um pouco sobre a reclusão de Kant e os questionamentos que Michael Jackson teve que passar sobre sua sexualidade. Repare como ele fica quando o fazem perguntas sobre o tema nas entrevistas e então vai imaginar o quanto deve ter sido doloroso ter que conviver posteriormente com acusações de pedofilia (e outras mais) por simplesmente não estar adequado às normas.
É extremamente complicado viver em uma sociedade que exalta e cada vez mais fala de sexo, que é o assunto que mais os afasta. O tema está presente em tudo ao redor, desde músicas e filmes até novelas e programas de tv variados. Rodas de conversa muito íntimas, jogos de verdade ou consequência ou "eu nunca" podem se tornar verdadeiras sessões de tortura e muitos participam na intenção de tentarem se enturmar, sem que imaginem o que está passando verdadeiramente em suas cabeças e o quão se permitem afetar pra se passarem como "normais". Redes sociais como o Tinder, que de uma forma mais grosseira poderia se resumir em "só sexo", beira uma aberração social e faz da figura de Bauman um papa pra nós.
Em relação à sociedade, não sei exatamente o que pensar (ou sei e tenho medo de dizer por ser muito duro). Muitas vezes falo dela com raiva, como um enorme sistema que escraviza as pessoas com assuntos que não se esgotam. Eu entendo a necessidade e importância de se falar sobre sexo, há de fato o lado positivo, mas ao mesmo tempo me parece existir um movimento que controla as pessoas através dos seus desejos mais primitivos. Uma das coisas que costumo pensar em um dia talvez pesquisar e me aprofundar é justamente sobre quando o sexo deixou de ser algo de fato naturalmente biológico e a partir de quando ele passou a ser mera pressão social ou uma necessidade quase que imposta no subconsciente das massas. Hoje seria uma pesquisa torturante e prefiro deixar que outros façam (se é que já não fizeram).
Talvez meu ódio à sociedade seja uma manifestação inconsciente de uma recusa a eu mesmo. Aquela velha história de jogar no outro uma culpa que é sua. Mas como disse antes, não é uma escolha. Já me forcei a tentar gostar de certas coisas, mas é como se jogasse contra mim. A sensação de que nunca serei compreendido já me é normal, sigo focado em viver uma vida mais solitária que social, pois também já descobri que a minha liberdade não está no mundo, uma vez que ele mesmo me faz prisioneiro ainda que eu esteja sozinho e livre de preocupações afetivas.
Ainda assim eu consigo gostar. Não sou uma pedra de gelo tão maciça. Consigo ter interesse por alguém, de uma forma que eu não consigo expressar e por isso mesmo prefiro me calar. Foram, de fato (e amigos próximos podem comprovar), 3 pessoas por quem realmente senti algo (confuso, mas senti) na vida. Fugi de todas elas e sigo fugindo na medida do possível, enquanto a dúvida entre se afastar ou não ocupa minha cabeça. É uma luta diária, que talvez nem mesmo quem está muito próximo de mim compreenda, mas faz parte de mim, de quem eu sou. Mais que isso: é quem eu sou.
Eu não faço mais personagens com tanta frequência, acho que realmente beiro a misantropia (e aqui eu justificaria a minha aproximação com o pensamento de Schopenhauer) e racionalizo demais as coisas e isso tem sido cada vez mais claro pra mim e pros outros, mas ou é isso ou eu precisarei continuar fugindo eternamente da minha existência no mundo. Thoreau não parou de seguir o som do tambor quando o ouviu tocar de forma diferente de outros ouvidos, ele foi atrás e encontrou a si mesmo, em direção oposta da manada. Eu sou assim, encontrei a vida fugindo dela e para a grande maioria talvez eu tenha me negado a viver por todo esse tempo; idiotas, viver não tem nada a ver com curtir a vida. Ela é uma arte e eu um perfeito artista.

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