Por que a Goetia atrai e que tipo de pessoa deve a evitar?

     

                                              Constantine que nos perdoe, mas hoje não vamos caçar demônios

    Quando comecei a estudar ocultismo - na época ainda dentro de alguns movimentos cristãos - lembro que logo me deparei com um exemplar de São Cipriano. Um livro tão fajuto quanto lendário (perdoem-me aqueles que ainda o temem). Havia nele um certo temor forçado por parte de tratar a figura do diabo não como um arquétipo, mas como um ser real e manifesto, coisa que nunca vi muito sentido. Claro que o cristianismo precisava de uma figura antagônica a Deus e igualmente temível, mas na prática os estudantes de ocultismo aprendem que a coisa não é bem assim.

    A nossa formação cristã, e eu falo a nível de sociedade como um todo, desde a moral e ética até a dualidade bem e mal, nos instiga inconscientemente a conhecer os elementos neutros, obscuros e que são frutos de descarte ou assustadores demais pra que possamos lidar. Os cristãos, ao passo que temem a figura do diabo, se inclinam constantemente para investigar sua forma de agir e persuadir. Fazem isso sob o pretexto de "conhecer melhor o inimigo", quando na verdade estão interessados naquilo que ele supostamente consegue fazer, seu poder.

    Nesse sentido, logo que um estudante começa suas pesquisas dentro da magia irá se deparar com alertas e grandes feitos proporcionados pela Goetia. Inicialmente, é provável que o estudante se assuste (novamente, viemos de uma moral cristã), "contatos com demônios, tá louco". No entanto, esses são os que logo estarão lendo a Chave Menor de Salomão; A Goétia Ilustrada de Crowley; A Goetia Luciferiana de Ford; A Goetia Pathworking de Hargrove etc. 

    Seduzidos pelo contato com o "inimigo" e pelo fato de estarem estudando o Sistema Mágico mais perigoso de todos (e eu discordo disso), tentam pular etapas ou inventar nas primeiras práticas. De forma alguma pretendo os julgar por isso, principalmente pelo fato da Goetia ser um Sistema reconhecidamente da mão-esquerda, mas esses estudantes curiosos não parecem entender a função dos elementos que geralmente compõem a ritualística.

    De início, se falamos de um método mais cerimonial, como o Salomônico, objetos como: espada, anel, vestimenta, um círculo com nomes em hebraico e um triângulo de evocação precisam fazer sentido. Em outras palavras, um anel com um hexagrama não lhe serve de nada se você não entende o símbolo ou não o consagra; o triângulo contendo os nomes padrões descritos na Chave Menor não o ajudarão se você não acredita na força de nenhum deles. Aliás, para que ordenar um daemon ou tentar o coagir pelo nome de Adonai se nem você mesmo acredita neste Deus? Percebem como é fácil alguém assim cair nas armadilhas bem arquitetadas por entidades como os daemons? Se nada no ritual faz sentido ao magista, então ele será prontamente visto como um simples leigo ou curioso e será vampirizado ou prejudicado com certa facilidade, já que nem os nomes escritos para proteção fazem sentido para ele. 

    As figuras amorais dos demônios da Goetia são interessantes. São energias mais densas que podem ser sentidas até mesmo pelo simples fato de se olhar para um dos sigilos ou suas imagens arquetípicas. Por isso, precisamos entender antes como eles atuam para que entremos preparados para qualquer ritual e isso serve para qualquer Sistema de Magia e qualquer método que ele proponha. 

    Por característica, os daemons não são as figuras mais honestas do mundo espiritual e isto se deve ao forte ódio que nutrem pela humanidade. Obviamente que dentre os 72 um ou outro será mais receptivo, mas nunca "bonzinho". Não se engane com isso dentro da Magia e leve esse pensamento para quando for tratar com seres de natureza mais sutis também. 

   A Goetia, em contramão da grande popularidade que adquiriu hoje em dia, não é um Sistema para todos. Precisamos contextualizar as coisas para compreendermos que nem toda pessoa deve entrar em contato com estes seres, que podem sim ser extremamente perigosos: 

a) Quando um daemon é chamado a tratar conosco, muitas vezes chega sem a menor vontade de diálogo ou mesmo furioso. O leitor pode perguntar "por que?", ao que respondemos: quase todos detestam o homem, enxergam o ser humano como alguém inferior e quando um leigo o chama os deixa ainda mais inclinados a ludibriarem e "brincar". Se nos colocarmos no lugar destas entidades - e não estou falando de empatia - iremos entender.

Um exemplo pode ilustrar a situação: imagine que você é o chefe de uma empresa e aí um funcionário que acabou de ser contratado passa a querer lhe dar ordens; você não pode o demitir e se caso se recuse a falar com tal, será forçado a ter que o ouvir mesmo assim. Como iria se sentir? Pois é exatamente assim que estas entidades se sentem, principalmente quando não querem diálogo, mas pelos ordenamentos da ritualística acabam sendo obrigadas a comparecerem ao encontro. Pessoas leigas ou curiosas devem ficar longe, pois serão recebidas de forma muito mais irritadiça ou falsamente calma.

b)  Apesar da maioria dos daemons não gostar dos humanos, são extremamente sábios e podem apreciar boas conversas e pessoas com uma Vontade firme. Perguntas interessantes os prendem por um tempo considerável no ritual, sem que ele fique entediado com a "ignorância humana". Isso significa que pessoas que não se deixam enganar por eles - entidades ancestrais e muito mais astutas - ganham suas atenções. No sentido oposto, toda pessoa que é extremamente gananciosa, facilmente agradada ou "carnal" demais são as melhores vítimas. 

Exemplo 1: Se você pede dinheiro para arrumar um problema no seu carro em um ritual, mas demonstra traços de uma ganância exacerbada, eles podem lhe oferecer um carro novo; você, seduzido, aceita e então não estará mais por cima nas negociações. Se antes você não tinha condições de manter um carro inferior, terá de manter um eventual problema em um mais caro? Pois é.

Exemplo 2: Pode acontecer de você pedir que fique atraente para uma pessoa sem ter conhecimento de quem ela é de verdade, típico interesse casual. Evocar um daemon errado e que a conhece melhor que você, sabendo que seu lado carnal é frágil a ponto de ter que pedir algo nesse sentido, pode muito bem a utilizar para que esta seja sua ruína em diversos sentidos. 

    Por isso que em alguns métodos da Goetia estes seres são tratados como sombras do nosso inconsciente, pois exploram nossas fraquezas contra nós mesmos e cabe somente a nós ter que integrá-las. 

c) Domine os quatro elementos que regem todo seu ser, caso contrário eles irão explorar sua fraqueza. É errada a noção de que todo Mago é alguém de personalidade fria. Na verdade, são reconhecidos por um equilíbrio emocional bem aplicado que por vezes é confundido com uma insensibilidade. Daemons podem ser subdivididos entre os quatro elementos da natureza (ar, terra, fogo e água) e como dominam suas categorias é necessário que o magista que entrará em contato com eles também tenha o mínimo de controle sob o elemento correspondente. Caso contrário, alguém que não tem harmonia com seu elemento água estará sujeito a profundas provocações emocionais disruptivas; com o fogo, sentirá sua capacidade de iniciativa travada em várias áreas; com a terra, poderá apresentar problemas relacionados ao mundo material, de negócios ou doenças e em caso de não ter o domínio do ar a pessoa pode sofrer perturbações mentais e pensamentos desregulados. Além disso, pessoas próximas também podem ser afetadas.

    No geral, são sutis ao provocarem tais desastres e vão ruindo tudo antes de chegarem ao centro da fragilidade da pessoa. Portanto, não demonstre medo, receio ou confusão ao tratar com um daemon, o respeite como um ser mais sábio que você e JAMAIS tente o inferiorizar ou ameaçar sem necessidade. O poder de um magista (energia investida) pode ser usado contra si próprio.

d) Vamos lá, existem algumas filosofias por trás da Goetia que tratam do culto a estes daemons. Me coloco contrário a elas, mas entendo que algumas pessoas a praticam. No entanto, creio que isto seja pra magistas experientes, avançados e não para iniciantes. É comum enxergarem daemons com um certo romantismo, pois o gosto pelo desconhecido se eleva quando a Magia é vista como "a mais perigosa" ou "proibida". Isso pode acabar  em contradição com as recomendações da Goetia tradicional em não tratar estes seres como amigos. 

    Quando você passa a cultuar algo que abertamente é hostil a você (de forma direta ou não), que tipo de consequências se espera?! É isso que ocorre com aqueles que possuem afinidade com tal daemon e que de um ritual pulam pra pura devoção, que pode levar não só a uma vampirização como também obsessão por parte de espíritos de natureza semelhante. Não acredito na possessão por daemons, mas nunca esqueça que eles comandam legiões de espíritos infernais (seres densos).

e) Se você não possui autoridade espiritual, será como uma bolinha na boca de um enorme cachorro para qualquer daemon que queira bagunçar sua vida. Eles até podem dar alertas sinceros, mas raramente o fazem já que você sabe muito bem com o que está lidando quando se arrisca em um ritual de Goetia. Para deixar as coisas mais claras, uma vez me consultei com uma entidade de Umbanda que admiro bastante chamada Exu Marabô e ele me disse pra tomar cuidado com a Goetia, mesmo tendo as características necessárias para saber lidar com o Sistema. Marabô me amparou, contou que existe uma maior facilidade em mim para conseguir trabalhar com energias mais densas, mas que jamais sairia de perto de mim em qualquer ritual que pudesse exercer desta natureza. 

    Qual a lição aqui? Apesar de ter as ferramentas mentais necessárias, numa evocação eu ainda estarei cercado por alguém capaz de desfazer algo errado. É necessário compreender que somos inferiores aos daemons, que eles possuem olhos por todas as partes e que estão em outra dimensão temporal; sabem de coisas que não sabemos e dominam outras que nem sonhamos em dominar. Que autoridade você leva pro círculo ou mesmo pro Pathworking? Quem está com você? Que egrégora te cerca? Você vai sozinho e sem experiência? Analise.

f) Você será viciado no Sistema. "Ah, mas eu tenho controle". Não importa, será seduzido e executará mais vezes. Isso se deve a dois fatos: ou o resultado deu super certo ou você ficou com a sensação de que errou em algo e irá o refazer. Resultados ruins geralmente surgem a longo prazo, principalmente se for uma forma do daemon apontar uma falha de conduta sua, deixando pensar que você está "vencendo" ou "conquistando" algo desejado quando na verdade é Maya.

    Não existe nenhuma lição maior ao ego que a sensação de estar se gabando com tudo nas mãos e de repente perceber que não tinha nada. Se isso ocorrer, você fará novamente o ritual, ou demonstrará uma profunda decepção (fraqueza emocional) ou atacará o daemon (olha que prato cheio para ele), mas dificilmente reconhecerá que o erro foi seu. Coloque isso nas mãos de uma entidade que não gosta de receber ordens ou ouvir sermões e sua vida estará duas vezes mais desorientada. A dica: espere, analise o que pode ter dado errado e só depois contacte o daemon novamente. 

    Por outro lado, se deu certo agradeça ao daemon da forma como o método que escolheu recomenda e evite ser dominado pela sensação de querer cada vez mais e mais. Entenda quando estiver satisfeito, compreenda seus limites. Essa é a única forma de não se viciar a longo prazo e os daemons não irão sentir saudade sua. Você não está lidando com uma pessoa próxima e nem com alguém que ama estar na sua presença. Deixe-o sossegar em paz.

g) Tem medo? Não consegue nem olhar a imagem de um daemon? Não se desespere, raramente eles aparecem nos rituais e preferem se comunicar através de ações, intuição, sonhos ou voz. Ele não irá aparecer na sua frente e se esse for o caso surgirá no que chamamos de tela mental. Podem assumir formas grotescas desde híbridos e animais deformados até imagens de pessoas belas, magnéticas e imponentes. A hierarquia é importante e quanto mais altas, mais difícil de aparecerem ou receberem ordens. 

    Uma experiência pessoal é válida ser contada aqui: certa vez utilizei o método de Hargrove pra contactar Murmur a me ajudar a gerenciar um problema familiar que exigia calma a um de meus familiares que estava profundamente inquieto mentalmente. No dia seguinte, a pessoa estava sob tanta influência do daemon que parecia ter assumido outra personalidade, muito mais calma e com seus pensamentos em ordem. É relativamente fácil influenciar pessoas suscetíveis à energia do daemon e com baixos padrões de vibração, mas não é o ideal uma vez que existem casos de efeito espelho (onde aquilo é rebatido para o magista que deu o comando para a entidade). Na ocasião, a ação funcionou e Murmur, através de uma voz grave que pude ouvir mentalmente, me confirmou que havia executado o comando. Se você se assusta com essas intuições, então corra da Goetia, pois muitas vezes é assim que as entidades irão lhe informar ou alertar sobre algo. São poderosos aliados, mas, novamente, jamais devem ser vistos como amigos. Jogue o jogo que eles gostam e terá sucesso. 

Concluindo...

    Chegamos ao fim por hoje. Pretendo voltar em breve ao assunto, dando novos alertas e tentando esclarecer que tipo de magista deve ficar longe de entidades tão poderosas e obscuras quanto os daemons. Sendo ou não sombras do nosso inconsciente, o estrago que podem fazer em nossas vidas se não forem adequadamente compreendidas como um todo ou integradas são gigantescos. Atualmente uso o método de Hargrove, onde faço o caminho inverso e entro na atmosfera vibracional do daemon ao invés de evocá-los. A ritualística é potente e funcional, mas exige uma série de preparações que merece uma atenção do magista. Apesar de ser tratada como segura, não negligencie nada e tenha cuidado com os pedidos, pois como todo Sistema Mágico a Goetia exige foco e preparo mental indispensáveis.


    






















    

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