Esboço: Sobre a Consciência e a Intuição

 

    


    Em algumas conversas que presenciamos é muito comum a defesa de que a nossa consciência permanece sendo um mistério indecifrável pela ciência e psicologia. Dentro deste enigma existe também a defesa de que ela reside em alguma parte do nosso cérebro. Os estudos especulativos acerca de sua importância, entretanto, são mais animadores, pois todos entendem que é ela a grande chave para se conhecer todo um universo pessoal do homem e possivelmente responder suas questões ontológicas.

    Freud e Jung fizeram grandes avanços nessa área utilizando as ideias de consciente e inconsciente e numa camada ainda mais profunda um inconsciente coletivo, constituído por arquétipos que seguem a vida humana desde tempos muito antigos e que até hoje simbolizam algo específico para nossa percepção.

     Parece que estiveram muito perto de arriscar  um pouco mais em suas teorias, talvez pelo medo de parecer algo místico demais decidiram não seguir por este caminho, mas para o inconsciente como permeador de toda uma humanidade e que não é passado pelo dna, pelo sangue ou por qualquer outra forma direta, a única possibilidade filosófica a ser tratada seria a de que ele, tal como a consciência, não existe em nós.

    Obviamente que isso não significa querer afirmar com toda certeza algo desse nível e não é objetivo querer atravessar a ciência. Este escrito é apenas uma investigação filosófica, nada mais que isso. Primeiro, é necessário que entendamos o funcionamento da materialidade humana segundo as próprias leis da ciência da natureza, ou a física. Kant afirma em Crítica da Razão Pura que a metafísica não poderia ser tratada como uma ciência e prova isso reafirmando as condições científicas e exatas da geometria e da física, ciências puras, em diferença com a especulação metafísica, que até então é ausente de grandes provas.

    Logo, podemos entender a partir de sua obra que as certezas que a matemática nos fornece são inquestionáveis. Partindo dela é que podemos perceber que o nosso espaço preenchido enquanto seres vivos na Terra – e que por falta de um nome menos apropriado chamarei de dimensão – é tridimensional.

    Somos percebidos e percebemos as coisas dentro de três dimensões matemáticas básicas: altura, largura e profundidade. Essa dimensão, portanto, é oriunda de uma tridimensionalidade que ora é percebida, ora não, pois é comum olharmos para algo plano na nossa frente e nem mesmo cogitarmos que se dermos uma volta ao redor dele perceberemos sua largura, por exemplo. Se trata de uma ilusão causada pelo referencial de informação visual que temos; neste caso a largura está ali, contudo não é percebida de imediato.

    Assim é também o que pode-se chamar de quarta dimensão. Ela influencia no nosso mundo, existe independente da nossa consciência dele e é situada com ou sem espaço. Kant também é preciso ao investigar o tempo e o espaço para traçar os limites do conhecimento humano pela razão, uma vez que tais categorias existem independentes do nosso conhecimento a priori das coisas.

    É o tempo a quarta dimensão. E é pra mim o que as religiões chamam de Deus. Isso poderia me colocar numa posição sumariamente ateísta, a qual eu não faço questão de estar ou não estar, o debate sobre a existência pessoal de uma figura divina me parece estranho e desatualizado, uma vez que o mundo caminha por uma compensação esquisita defendida por muitas religiões.

    Em exemplo: se alguma criança morre ainda no ventre de uma mãe, os bajuladores e deuses encarnados dirão que Deus usará de uma compensação, ou seja, se a criança morreu por causas naturais, então o casal será presenteado com um outro filho em algum momento; se foi, por exemplo, abortado, então a mãe sofrerá as consequências. E alguns ainda mais ousados dirão que ela não terá mais filhos como punição divina.

    Opiniões assim são mesquinhas, arrogantes e prepotentes, pois colocam o próprio homem como juíz de todas as coisas e conhecedor de todas as causas. Um universo que se faz valer do tempo como a figura de Deus está inteiramente responsável por aquilo que é e faz no mundo e com sua própria vida, uma vez que Deus não teria mais preocupações subjetivas a ter que lidar.

    Um amigo bem próximo, o qual me forneceu bases interessantes pra essa teoria, acredita que Deus estaria fora do tempo e das três dimensões, observando esta mesma quarta dimensão em seu desenrolar e podendo escolher o que planeja afetar: se é o passado, presente ou futuro. Essa ainda é uma visão pessoal de Deus, onde ele estaria decidindo o melhor e pior para nós e, portanto, por reconhecer as noções de que existe algo bom ou ruim para nossas vidas, ainda haveria uma natureza compensatória e subjetiva n’Ele.

    Em contraponto a ele, defendi a ideia de que Deus não estaria assistindo essa quarta dimensão em sua totalidade, podendo tocar e mover o presente, passado e futuro, mas sim que ele próprio é essa organização cronológica. Logo, o tempo seria Deus e estaríamos livres de qualquer compensação ou subjetividade divina, pois o tempo é apenas o tempo e nós os senhores de nosso destino.

    Mas não se enganem, se há um tempo na quarta dimensão em que não conseguimos ter acesso à forma como funciona, é bem possível que nele já tenhamos toda a nossa vida traçada de forma que esta realidade é apenas uma ilusão, mas também necessária para que o futuro projetado na quarta dimensão se desenrole.

    E existe uma forma para se alcançar ele. Não se trata de viagem no tempo, daquelas que assistimos em filme ou especulações de criação de máquina do tempo. A forma com que viajamos no tempo, de acordo com a minha especulação filosófica, é muito mais simples que as ideias mais elaboradas por teóricos do tempo.

    Precisamos, para isso, entender que as células do nosso corpo não conseguem sobreviver mais que sete-dez anos. Elas morrem e são substituídas por outras, de maneira que se você tiver por volta dos trinta anos, já não é mais a mesma pessoa em sua constituição fisiológica de dez anos atrás. É uma perfeita analogia, pois nosso corpo físico desgasta ao ponto de se decompor após perceber a inatividade.

    A proposta aqui estabelecida é que a consciência está fora do nosso corpo físico. Em linhas gerais, está além da quarta dimensão e ela própria é um acúmulo de vivências pessoais. Imagine-a como uma pequena caixa, colocada acima dos limites da tridimensionalidade e da quarta dimensão temporal. Por vezes, a sensação de déjà-vu - explicada pelas teorias neurocientíficas como a ativação do hipocampo numa velocidade mais rápida que a do córtex visual - nos acomete e temos a impressão de já termos passado por situação semelhante.

    Não é necessariamente uma situação semelhante, mas uma impressão psíquica de um fato passado que nos chega por lampejos, atravessando a quarta dimensão e a tridimensionalidade, atingindo a glândula pineal. A filosofia oriental acredita que isto seria a abertura do terceiro olho, no entanto é um atravessamento do espaço-tempo, que nos permite por alguns segundos ter acesso à esta instância que não podemos acessar livremente pelos limites fisiológicos impostos aos nossos sentidos.

    É isso que muitos chamam de intuição e que até hoje não abarca uma explicação científica absoluta ou inteiramente consistente. Esta especulação filosófica, entretanto, afirma que a intuição é um acesso ocasional a esta consciência que está além da quarta dimensão.

    Quando morremos, toda nossa consciência vai para um reservatório que terá sempre o registro do que o homem viveu no seu tempo cronológico desta dimensão, que é o limite do conhecimento temporal humano. Ao nascer um novo corpo, esta consciência desloca sua força para este novo ser, que carregará consigo esse reservatório de experiências vividas em outras existências.

    Como se implica nesta teoria a necessidade de um tempo cíclico na quarta dimensão, onde os fatos se repetem, modificando apenas a constituição física do homem e nunca o status da consciência, todas as experiências já foram em alguma parte vividas e portanto estão impressas de uma maneira consistente nesse reservatório. Assim, a intuição é nada mais que uma forte impressão – ou lampejo – de uma situação já vivida por essa consciência extrafísica e que será agora repetida, a qual, desta vez, o homem já possui uma resposta para ser aplicada no seu tempo tridimensional e limitado.

    Só não podemos ter acesso livre à nossa “consciência acumulada” porque ela transcende os limites do nosso conhecimento empírico e é apenas alcançada através de conhecimentos a priori, isto é, anteriores à experiência; muito embora ele já fora experienciado em outros corpos físicos de uma mesma consciência.

    Não há uma causalidade bem definida para a repetição de fatos através dos corpos físicos por uma mesma consciência. Muitas doutrinas religiosas acreditam que isso se deve a um plano evolutivo traçado por Deus ou uma força cósmica, mas aceitar tais fatos é fazer uma metafísica ainda mais profunda e com bases mais distantes ainda de serem sequer estudadas.

    A consciência acumulada nos faz perceber que a noção de livre-arbítrio é também duvidosa, uma vez que tal situação pela qual o homem já está passando naquele momento já fora presenciada e já possui seu mesmo fim estabelecido, uma vez que o tempo cíclico não permite uma nova possibilidade de escolha, mas sim uma repetição.

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