Uma reflexão em forma de agradecimento

   

    Não faz muito tempo que a Magia era vista como algo muito restrito, complexo e desafiador para aquele que queria se esgueirar pelo mundo dos antigos mistérios. Sua reforma é recente e as práticas cerimoniais, em especial, vêm sofrendo constantes adaptações pelo fato da compreensão filosófica de alguns rituais terem se tornado populares. Os elementos ritualísticos (objetos, preces, nomes de entidades, classificações etc) servem a dois objetivos básicos:

1 - Colocar a mente, ou a consciência, em afinidade com determinada energia;

2 - Formular um contexto para que sejamos inseridos na vibração energética necessária para aquele feito.

    Assim, os trabalhos de algumas práticas de Magia Cerimonial puderam ser reduzidos a algo muito mais prático e com resultados iguais àqueles que os clássicos grimórios nos apontam. Se pegarmos o sistema mágico da Goetia como exemplo iremos entender com mais facilidade os caminhos que a Magia vem tomando. No livro "Goetia Pathworking", o ocultista Corwin Hargrove nos apresenta uma maneira de lidar com a energia dos daemons sem que pra isso precisemos traçar o círculo, realizar inúmeras preces e, em últimos casos, forçarmos a entidade a trabalhar conosco.

    No método de Hargrove, o trabalho do magista é inteiramente mental, desde a construção do círculo mágico até a clássica 'licença para partir'. Esse texto, no entanto, não tem a finalidade de explicar essa abordagem da Goetia, mas sim de fazer refletir e afirmar os resultados da mesma a partir de experiências pessoais das quais uma das minhas mais recentes pode servir como uma porta de entrada para o praticante receoso.

    O primeiro ponto - e eu acho importante mencioná-lo - é a questão da compreensão do que se está fazendo. Você não pode querer fazer com que uma forma de consciência elevada (ou entidade, chame como quiser) entenda sua mente confusa, com inúmeros desejos, bem na hora de pedir algo. Concentração é o mínimo para um trabalho puramente mental, onde não haverão elementos externos para induzi-lo ao estado vibracional necessário.

    Hargrove não propõe uma evocação, isto é, você não estará chamando um daemon para sair de onde quer que esteja para aparecer ou se fazer presente como no método tradicional. Em linguagem figurada, aqui é você quem irá até ele, se aproximando cada vez mais a partir da mentalização do seu sigilo e da leitura e visualização das 4 proposições que servem como forma de aproximação à natureza da entidade.

    Em segundo lugar, será útil que acredite na força daquilo que está fazendo e do poder que existe na sua própria mente. Quando ler "um raio branco surge num céu negro", imagine com a máxima precisão que conseguir esta imagem e não tenho receio em liberá-la de sua mente por achar que estará chamando algo que não sabe lidar. Não esqueça que esse não é um método evocatório, embora seja possível sentir a vibração do daemon e mesmo presenciar manifestações envolvendo audição, olfato ou visão (incluindo sonhos). Outra valiosa dica é entender o daemon com que irá trabalhar em conjunto (sim, pois sua intenção e a dele precisam ser uma coisa só) e é aqui que começarei a relatar minha experiência mais divertida envolvendo Goetia.

    Filosoficamente sempre me interessei pela temática do tempo: viagem no tempo, projeção de consciência para além do tempo físico e etc. Também não é surpresa que em minha vida pessoal estou sempre atrasado, ou como diria Gandalf: "Um mago nunca se atrasa, nem se adianta; ele chega exatamente quando pretende chegar". Obviamente que ainda não sou um mago, mas essa é uma desculpa útil quando preciso dela.

    E foi em busca de reflexões sobre o tempo que encontrei no Lemegeton um daemon chamado Seere. As descrições de suas capacidades podem parecer confusas, mas temos que lembrar que na época em que estes grimórios eram escritos havia uma certa maneira velada e simbólica de se dizer algumas coisas. Quando lemos a descrição de Seere no Ars Goetia, presente no Lemegeton, encontramos:

"O heptagésimo espírito é Seere, Sear, ou Seir. É um príncipe poderoso sob a potencia de Amaymon, rei do leste. Ele aparece na forma de um homem bonito, montado em cima de um cavalo alado. Sua função é ir e vir a fim de trazer abundância de coisas rapidamente. Percorre a terra num piscar de olhos. Relata sobre coisas perdidas, escondidas, tesouros etc. É de natureza boa e indiferente, sempre disposto a executar qualquer coisa que o Magista deseja. Governa 26 legiões de espíritos."

     A descrição aponta que, na hierarquia, Seere é um príncipe. Essa informação é útil pois aqui estamos descobrindo com que posição estamos lidando ao trabalhar com a entidade, muito embora o respeito deva ser o mesmo para qualquer uma das outras 71. O ir e vir se refere a maneira com que o daemon trabalha, ou seja, ele não só concretiza aquilo que o magista pede como muitas vezes regressa para confirmar o feito. O fato de percorrer a Terra num piscar de olhos garante que este príncipe é extremamente rápido em suas respostas. Sua natureza boa é perceptível na vibração energética, pois este daemon vibra diferente de outros, muito embora sua energia ainda seja configurada como mais densa que sutil. Este conjunto de noções já permite o magista interpretar o campo de atuação da entidade: Seere é um príncipe que lhe auxiliará em questões envolvendo o tempo, seja em reflexões ou em otimização.

    Logo, não demoraria para que cedo ou tarde eu entrasse em contato com essa poderosa entidade. Hargrove estende - e pude comprovar na prática - as capacidade de Seere em seu livro, sendo possível o utilizar para causar a percepção que o tempo passa de forma acelerada ou lenta. Imagine-se numa conversa agradável que você não quer que se encerre logo; Seere pode alterar a nossa percepção da consciência de maneira que minutos de um papo agradável com alguém pareçam horas, rendendo muito mais do que poderíamos esperar. Em sentido inverso, pode fazer com que aquela palestra chata de 2 horas pareça ter acabado em 30 minutos.

    Seu rápido deslocamento e capacidade de resposta pode, inclusive, fazer com que seus atrasos sejam pouco percebidos. 1 hora de atraso pode causar a sensação de que se passaram apenas 20 minutos para quem estava lhe esperando, o que nos remete a outra habilidade deste daemon listada por Hargrove: a capacidade para influenciar decisões e respostas. Outros daemons conseguem fazer isso através da sedução, usando como arma principal a sexualidade (como no caso de Sitri), mas Seere consegue executar isto de uma maneira mais sofisticada e sutil, podendo levar até mesmo um grupo de pessoas a decidir por uma resposta que você precisa.

    Seere se tornou um aliado poderoso, guardadas as devidas proporções, uma vez que é importante mantermos um pé atrás ao tratarmos destas entidades, que são mais inteligentes que nós. Por vezes estabeleci conexões com este daemon antes mesmo de o contactar de fato, mas em nenhuma delas havia possuído experiências sensoriais tão convictas como a da primeira vez que o acessei através do método de Hargrove. E o fato foi esta semana:

    Precisei de Seere para um trabalho bem específico e que a princípio poderia fugir de sua alçada. Por se tratar de um daemon que consegue trafegar com liberdade e velocidade por outros planos - e apresentar resultados igualmente velozes e satisfatórios - arrisquei o utilizar como forma de desbloqueio de algumas situações. Meu preparo foi displicente e corrido - sendo Seere um príncipe, isto é um erro - mas havia uma intenção mágica que deveria me convencer de manter a vontade firme. Me aproveitei de toda uma conexão e afinidade que já possuía com a entidade para entrar diretamente em contato com ela pela primeira vez através do Pathworking.

    Conforme ia pronunciando cada uma das 4 proposições, a atmosfera do ambiente se alternava. Fiquei por algum tempo estabelecendo uma conexão visual com o sigilo e formulando como deveria transmitir o desejo a Seere. Eu estava convicto de que ele o realizaria, mesmo parecendo estar completamente fora de sua "habilidade". Quando senti que havia formulado o pedido de maneira clara, o transmiti a entidade, encerrei a conexão e fui dormir.

    Não demorou 1 hora para que a resposta voltasse de maneira "espiritualmente literal" à cavalo. Isto porque arquetipicamente Seere possui uma projeção simbólica de um "homem montado em um cavalo alado". Um barulho semelhante ao de um animal bufando me despertou. Era uma manifestação através de clariaudição: Seere havia realizado o desejo e retornado para sinalizar a resposta. Esta foi uma noite perdida de sono, tamanha a felicidade em ter visto o quanto de realidade havia naquela experiência. O resultado propriamente dito só chegou até mim no dia seguinte ao do ritual, mas a simples volta de Seere me fez entender que ele havia conseguido realizar o que eu queria.

    Toda essa reflexão em forma de agradecimento serve não só como saudação ao poder destas formas de consciência, muito subjugadas nos círculos ocultistas e tratadas com desrespeito, como também uma exposição de um resultado mágico positivo construído em boa parte por nossa mente. A Goetia precisa ser estudada além dos antigos grimórios para que possamos compreender um pouco melhor com o que estamos lidando e como podemos adaptar nossos desejos se quisermos trabalhar com uma energia específica. Muitas destas entidades eram deuses antigos que perderam sua adoração e podem nutrir sim uma repulsa pela humanidade; já outras possuem uma natureza mais "tranquila" de se trabalhar. Em qualquer caso, não se coloque como servo de nenhuma delas e estará seguro.    

    É isso! Volto a qualquer momento falando de algo aleatório que me interesse...














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