Você sabe o que é personalidade-mágica? É uma dissociação patológica?

    

    A nova série da Disney Plus, Cavaleiro da Lua, estreou movimentando as redes sociais e deixando fãs do mundo dos super heróis na expectativa pelos próximos episódios. O complexo vigilante, interpretado por Oscar Isaac, nos é mostrado em primeiro momento como um tímido e atrapalhado Steven Grant. Grant trabalha em um um museu egípcio de Londres, mais especificamente na loja de departamentos. Até aí, tudo dentro das suas normalidades, até que descobrimos que Steven não sabe o que acontece consigo quando está dormindo, organizando uma série de armadilhas para si mesmo como forma de tentar entender o que faz quando está nos braços de Morfeu.

    Não demora até que consigamos perceber que, como nos quadrinhos, Marc Spector, uma segunda personalidade de Steven, assume o controle de sua mente no melhor estilo "Fragmentado". Enquanto nas páginas o personagem sofre de um transtorno dissociativo de identidade (o que o confere no mínimo três personalidades diferentes), na série a coisa ainda não se mostrou tão clara e o que aparenta é que Konshu (o deus egípcio da lua) assume apenas uma das suas personalidades transformando o corpo de Steven em seu próprio avatar na Terra.
    
    No transtorno em questão, aquele que é acometido muitas vezes não sabe da existência de uma segunda, terceira ou quantas personas forem, algo bem parecido com a forma com que Steven se mostra perdido no primeiro episódio (aliás, nos deixando tão perdidos quanto). É válido dizer que essa é uma das séries que irá explorar o universo mágico e místico do UCM e é utilizando o que ocorre nela que gostaria de falar sobre algo muito presente na Magia e também muito pouco conhecido: a personalidade-mágica.

    Já ouviu falar no termo "nome iniciático". Pois é, além dele existir pra referenciar um magista dentro do seu meio (por vezes como forma de ocultar seu nome verdadeiro), ele também é usado para criar uma personalidade diferente da qual você é no cotidiano. Apesar de muitos usarem um nome mágico como alegoria, também é possível o utilizar como forma de alterar a própria consciência. Sim, algo bem próximo do que assistimos em "Cavaleiro da Lua". Obviamente que não devemos confundir um transtorno dissociativo com o que estamos discutindo aqui, já que o transtorno ocorre sem que a pessoa tenha ao menos noção do que uma outra personalidade sua faz ou mesmo quando ela dá lugar a outra.

   Quando falamos de personalidade-mágica, falamos de uma troca voluntária de personalidade, oriunda de um ritual ou prática que visa modificar o estado de consciência. Muitos acreditam que essa personalidade-mágica é, na realidade, o Eu em sua forma mais expressiva, que elimina muitas travas e bloqueios encontrados pela sua outra personalidade. Sua ativação é complicada e, em alguns casos, perigosa, pois não temos acesso direto ao Eu e muito menos o que ele deseja de verdade ou não. Temos apenas uma ideia e o processo de autoconhecimento nos possibilita descobrir cada vez mais, isto é, "se conhecer melhor" para que possamos compreender o que é nosso e o que vem do meio.

    Mas o que precisa para ativarmos? Acima de tudo você precisa se dominar e se conhecer o suficiente para que não se perca no labirinto que é a própria mente humana (o famoso "foi e não voltou"). Depois, é preciso entender que esse novo Eu é capaz de fazer coisas que você não conseguiria. Isto significa que novos idiomas, habilidades, comportamentos etc podem se alterar e até mesmo aprendidas. Se repararmos, é o mesmo que já ouvimos em casos de dissociação, onde por vezes uma personalidade sabe tocar piano enquanto a outra não reconhece nem mesmo uma nota. 

    Não é o objetivo do post explicar como se cria uma personalidade-mágica, ou melhor, como se ativa uma. Mas você consegue trabalhar com o alter-ego dentro da magia sem que sua mente sofra o que eu chamo de "dissociação saudável". A proposta da personalidade-mágica é que você faça coisas que o seu eu do dia a dia não consegue, já que as barreiras da sua própria censura (ou queira chamar de superego) estariam derrubadas e dando livre passagem ao Eu. Para não se arriscar e ainda assim querer usar uma alegoria para sua "vida oculta", você pode fazer seus trabalhos mágicos a partir de um pseudônimo, papel que você assumirá sempre que for realizar seus rituais, meditações etc. 
    
    De resto, agora sabemos que o universo místico-mágico da série tem sim um pé no mundo da Magia que estamos acostumados. Embora a série e os quadrinhos tratem o personagem como acometido por um transtorno dissociativo, podemos interpretar a maneira com que o deus Konshu assume e, por consequência, Steven se torna o muito mais ousado Marc Spector, como uma forma de ativação da personalidade-mágica. Volto a qualquer hora! 





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